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Saturday, 28 August 2010

BARCELONA É UMA FESTA

BARCELONA, Agosto 2010









Barcelona é uma festa!!!
Para os olhos e o coração...

À beira do Mediterrâneo, azul límpido do céu, calor do sol, avenidas largas, arte pra todos os lados, colorido nas ruas, pessoas alegres e despreocupadas.
Barcelona é uma cidade unânime, daquelas poucas que agradam muita gente de gostos diferentes. A alma da cidade é sua principal força e dá pra sentir sua energia logo na chegada. Tem algo diferente no ar que convida, contagia, anima e faz festa no coração.
Aos poucos a cidade vai se revelando, mas não faz muito charme, vai logo se exibindo inteira, se mostrando e fazendo caso de sua beleza despojada e cheia de charme.
Gaudí é presença constante onde quer que se vá, a sua arte aparece majestosa e esplêndida se fazendo notar, cheia de originalidade. A cidade é de Gaudí!
Mas aqui também viveram outras almas grandes: Joan Miró o pintor do mundo dos sonhos coloridos, Picasso o poderoso homem do cubismo e suas meninas cortadas e recortadas ao infinito, Antoni Tapiès e sua arte expressionista.
Na verdade a cidade sempre guarda em algum canto um vestígio de seu passado desde os romanos até os modernistas.
Barcelona é a capital da comunidade autônoma da Catalunha, uma região situada a nordeste da península Ibérica, reconhecida em seu estatuto como nacionalidade.
Essa particularidade se faz notar escancaradamente no dia a dia da cidade onde se podem encontrar duas línguas (o catalão e o castelhano) nas placas indicativas, transportes públicos, cardápios, flyers, etc, etc. O não pertencimento a Espanha, não é somente uma rivalidade, mas uma condição do estatuto nacional, um orgulho desse povo que tem raízes históricas muito fortes.
Para o turista isso não chega a afetar a qualidade de sua estadia, que ao sabor do vento que vem do mar navega errante pelas ruas, avenidas e vielas da bela cidade.
Passear pelo Bairro Gótico e perder-se nas suas ruelas cheias de charme e de repente se encontrar diante do Museu Picasso. Só o prédio já valeria a visita, não fosse Picasso quem fosse. Mas a coleção das obras do mestre não deixa a desejar: mais de 3800 obras, e muitas delas do tempo inicial da carreira do artista, não por isso menores em qualidade e grandeza. Logo mais você pode se deparar com a Igreja Santa Maria Del mar (século XIV) exemplo primoroso da arquitetura gótica catalã. À noite a beleza se destaca pela iluminação aliada á simplicidade presente na verticalidade de suas longas e imponentes colunas.
Mas como igrejas não faltam por aqui, continue a frente e verá a Catedral de Barcelona. Uma igreja no estilo gótico construída nos séculos XIII ao XV e cheia de detalhes que fazem a diferença: o Jardim do Claustro com suas fontes, carpas e até gansos. Vale uma olhada nas gárgulas do lado de fora, cada uma com um significado diferente.   
Visitar a famosa e eterna Sagrada família, que dispensa muitas palavras, a monumental igreja feito castelo de areia, que Gaudí iniciou e continua em construção até o ano 2010 aproximadamente.  
Passeig de Gracia é uma larga avenida de beleza despreocupada e casual onde estão situadas duas jóias de Gaudí: a Casa Batló onde o artista reformou uma antiga e singela moradia transformando-a numa alegoria da batalha de São Jorge contra o dragão. Logo mais à frente tem a Casa Milá (La Pedrera) onde Gaudí exerceu todo seu fascínio pela natureza em ondas, curvas e fantasia.
A imperdível Fundación Joan Miró no Parque de Montjuic, uma pequena montanha e suas muitas atrações de onde se pode ter uma bonita vista da cidade. Na Fundación você poderá usufruir de um conjunto de obras de Miró: pinturas, desenhos, esculturas além das exposições temporárias. Ao lado da Fundação tem o Jardim das esculturas que dá acesso a uma escadaria e ao final desta um lindo roseiral. Explorar essa região é muito gratificante porque esconde muitas surpresas.
Lãs Ramblas uma famosa e efervescente rua situada entre a Praça Catalúnia e o porto. Repleta de cafés, bares, artistas de rua, lojas de flores, frutas, e uma tradicional fonte chamada Canaletes, de onde se diz que para se tornar verdadeiramente local deve-se beber de suas águas.
Parque da Ciutadella, Jardins onde foi a Exposição Universal de 1868. Aqui se encontram o Museu Geológico e Museu de Zoologia, o Parlamento da Catalúnia, a Escultura da "Dama del Paraguas", símbolo da cidade, e o Zoode Barcelona, imperdível para as crianças. Um zoo bem planejado com espaços adequados para os bichos e um dolfinário que apresenta um show de golfinhos.
Tibidabo, um monte a 350m de altura, onde se pode chegar de teleférico ou de bondinho (tranvia azul).
O porto olímpico construído para as Olimpíadas de 1992, moderno e repleto de restaurantes e bares. Bem pertinho está Barceloneta, uma praia artificial criada também para o evento das Olimpíadas
Se você é adepto dos tradicionais ônibus sightseeing que rodam por toda a cidade pelos principais pontos, não hesite. Vale super a pena passear no andar superior, num lindo dia de sol.

Francisco de Goya, Diego Velázquez, Pedro Almodóvar, Luis Bunuel,  Carlos Saura, Juan Gris, Salvador Dali, , Miró, EL Greco...





MADRI, Agosto 2010




Wednesday, 28 July 2010

Era uma vez, em um lugar distante...


Era uma vez, em um lugar distante...

Assim começam os contos infantis que nos remetem para algum lugar longe e imaginário em nosso inconsciente coletivo.
Nosso desejo por lugares desconhecidos permanece e pode ser explicado por diversas maneiras. Dos gregos que buscavam pelo conhecimento através dos mares, até Jung que dizia existir uma certa vontade universal de se afastar do cotidiano.

Há pouco tempo escrevi um texto onde entre outras coisas falava sobre as facilidades que temos hoje pra viajar, nos deslocarmos entre lugares, conhecermos novas culturas e tal.
Como é bom viajar, nos leva adiante, pra frente, abre portas e corações.
Mas agora, gostaria de abordar a mesma questão pelo lado inverso da moeda: o que parece não ser tão positivo ou legal nesses grandes deslocamentos de gente pelo planeta.
Antes de tudo, quero deixar claro que minhas reflexões não pretendem de modo algum fazer uma crítica azeda sobre o assunto, um posicionamento contra, mas apenas uma especulação. Um raciocínio de alguém que está vendo as coisas acontecendo, mais ou menos de perto... E nesse acontecimento percebe algo que talvez passe despercebido para outros (ou não).
Agora é verão aqui na Europa e como esperado, milhares de pessoas visitam as cidades, transitam pelos aeroportos, estações de trens, lotam as praças, ruas, mercados, transportes públicos, etc. Mas isso acontece desde muito tempo, até aqui nada de novo.
O que provoca uma centelha no meu pensamento, uma certa angústia, é como isso vem acontecendo.
E existem de fato algumas mudanças históricas que nos últimos tempos se tornaram mais persistentes, determinantes e provocaram uma reconfiguração significativa nos espaços das grandes cidades mundiais, principalmente as turísticas.
Primeiro, as migrações mais acessíveis permitiram a milhares de pessoas em diferentes lugares do planeta de partirem em busca de novas perspectivas de vida. Impulsionados pelo sonho do consumo feliz, de uma vida mais próspera, da possibilidade de emprego, etc.
Viajar agora é mais fácil, mais barato, mais acessível. Todos têm mais informações através da internet, que por sua vez também se popularizou. As populações das grandes e médias cidades da Europa aumentaram consideravelmente, reflexo da mundialização/globalização. Novos territórios subjetivos se configuraram em função desse movimento migratório.
Isso é fato. Os governos agora têm novas preocupações em relação a esse contingente humano que vive, trabalha, habita, permanece, adoece.
Segundo, a indústria do turismo aliada à publicidade com sua retórica contundente domina o imaginário das pessoas, que saem em busca de lugares de sonhos e fantasia. De cidadãos passamos a consumidores-usuarios. O objeto final da atividade de turismo são os espaços, agora transformados em mercadoria, objetos de consumo.
Viajar agora se tornou um imperativo, algo da família do “tem que fazer”, “must to do” e por aí vai. Um imperativo de consumo é claro! Quase um mantra publicitário: Beba tal refrigerante! Vista tal marca! Coma tal lanche! Compre em tal loja! Tenha tal carro! Viaje pra tal lugar! Viaje! Viaje! Viaje! E por aí vai...
Acredito que nesse ponto é que reside a questão que me faz pensar, e que aqui tento expressar: existem maneiras e maneiras de viajar, no sentido físico ou não.
Quando viajo uma das coisas que também gosto de fazer é olhar as pessoas (tem até uma expressão em inglês: “People watching”). Observá-las atentamente, suas expressões, seus passos, seu olhar, sua pressa ou sua calma.
Ás vezes de relance, dentro de um ônibus, de um tram, rapidamente. Como interagem no meio em que se encontram. Quem são? Que sonhos povoam sua alma? Que angústias rondam seu coração? Pra onde vão, porque estão ali naquele local?
Assim, sem nenhuma pretensão, apenas curiosidade pelo meu semelhante. Uma viagem dentro da viagem propriamente.
Constato que muita gente viaja como quem come um lanche naquela famosa cadeia de alimentos fast food. Turismo fast food!
É isso! Exatamente o que tenho sentido por esses lugares afora. Muitos se empanturram de monumentos, de fotografias zás-trás, de multidões apressadas, de trânsito congestionado, de filas intermináveis só pra ir a tal lugar, de museus “tem que ir” (e ás vezes nem gostam de museus!)... De prazeres fugazes.
Ok! Ok! Isso não é novidade, podem dizer alguns.
Podemos encontrar explicações lá atrás no tempo, depois da Revolução Industrial em diante, etc, etc. Mas isso seria outra abordagem, não é o que pretendo aqui.
O turismo mudou de cara. Tá mais pra caricatura do que pra retrato.
Que pena, viajar pode ser tão rico, tão alegre e prazeroso. Mesmo sendo modesto. Aliás, viajar não significa necessariamente investir montes de dinheiro. A melhor viagem é aquela em que se está mais presente, de corpo e de alma. Ás vezes sem um tostão no bolso.
Isso não tem preço.

Amsterdam 28 de Julho 2010.