Tuesday, 11 September 2012

O Evangelho Segundo Jesus Cristo - segundo Saramago,






As idéias não tem paredes...



Uma provocação? Uma crítica contumaz ao Catolicismo? Ou apenas a divagação de umas das mentes mais criativas e produtivas da Literatura  Portuguesa e Mundial?
Além de grande escritor Saramago foi uma pessoa polêmica. Sua personalidade rigorosa e franca, de palavras cruas e diretas - por vezes ríspidas -  fez eco pelos cantos mais conservadores e pelas cabeças mais ortodoxas. Ateu convicto, comunista fiel, posicionou-se sempre a favor dos direitos humanos e por paradoxal que pareça foi um defensor da democracia. Segundo sua visão as democracias exercidas no ocidente nada mais são do que “fachadas políticas do poder econômico”.

O Cristianismo e a Bíblia foram alvo de seu interesse e estudo, sob uma crítica mordaz. Sendo ele português, acreditava na importância de entender o catolicismo e como este influenciou toda a cultura de seu país. Segundo ele a Bíblia “é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”, um livro cheio de maus exemplos e que não deveria nunca cair nas mãos de adolescentes. Foi tradutor de grandes escritores antes mesmo de firmar-se como um deles. Seu principal alvo foi talvez a Igreja Católica com seus intermináveis e paradoxais dogmas e crenças. O poder absoluto da suprema ordem do Senhor através dos punhos de ferro de seus representantes na Terra, o Clero. A posição política com que a Igreja se coloca sobre os fiéis é o que mais incomodava Saramago.

No Evangelho Segundo Jesus Cristo, Jesus é feito um homem comum, cheio de dúvidas, incertezas e vislumbres. De caráter voluntarioso e sem nenhuma, absolutamente nenhuma aura de divindade. Encontra-se com Deus e o Diabo e sucumbe às tentações da carne nos braços de Maria Madalena, cheio de desejo humano, muito humano - talvez seria isso o que mais irritou a Igreja Católica tão zelosa com o corpo.
Saramago inicia o romance contando a historia de Maria e José, pessoas pobres e comuns que vivem em Nazaré e empreendem uma longa viagem até Belém sua terra natal a fim de participarem do recenseamento ordenado pelo Imperador romano Cesar Augusto. Maria nessa altura já grávida havia recebido a visita do anjo, aparentemente um homem feito um mendigo.

No início do romance,  se o leitor for iniciante de Saramago, pode entediar-se um pouco, pois o relato da viagem cheio de minúcias toma boa parte da obra. O estilo de Saramago sem pontuação convencional talvez pareça um pouco confuso. Mas se insistir e deixar-se envolver pela narrativa, irá com certeza descobrir os encantos e a perspicácia das idéias saramaguianas. Os diálogos que fluem pelo texto são cheios de significados e muitas vezes permeados pela ironia e cinismo, típicos de Saramago - a quem muitos chamaram de SerAmargo, num trocadilho de palavras se referindo ao seu jeito mordaz e ácido, franco e direto de dizer e pensar as coisas.

O livro foi super polêmico, contestado pela Igreja Católica e grupos religiosos. A idéia do herói bíblico mais importante ser visto com qualidades tão prosaicas e mundanas fez ferver o sangue de muitos que viram como provocação e um atentado aos intocáveis e milenares dogmas cristãos.
Mas de qualquer modo seja o leitor um cristão, um judeu ou um ateu a idéia de ser Jesus (no caso apenas um personagem fictício) um ser comum, um simples mortal, não deve ser entendido como afronta a fé de ninguém, nem mesmo ofensa a crenças tão arraigadas. Independente de fé ou das crenças de cada um, Saramago deve ser lido como um autor de ficção (nesse caso). Aos mais sensíveis, aconselho que não se apeguem à crítica ao tema religioso como um fato em si mesmo, há muito mais na literatura do autor do que ridículas picuinhas religiosas.

*Entre 1992 e 2004 o livro causou o afastamento de Saramago de seu país.O então subsecretário de Estado da Cultura, Antonio de Sousa Lara (1992) veta o livro da lista de concorrentes ao Premio Literário Europeu. Segundo ele: "A obra atacou princípios que têm a ver com o património religioso dos portugueses. Longe de os unir, dividiu-os."
Saramago se mostra triste e indignado e parte para Lanzarote com sua esposa Pilar Del Rio nas Ilhas Canárias onde já alternava morada . Somente em 2004 após uma ação diplomática do primeiro-ministro Durão Barroso, Saramago se reconcilia com seu país.
*Saramago faleceu recentemente em 2010 na sua casa em Lanzarote.


 “José, Maria e o burro tinham vindo atravessar o deserto, pois o deserto não é aquilo que vulgarmente se pensa¸ deserto é tudo quanto esteja ausente dos homens, ainda que não devamos esquecer que não é raro encontrar desertos e securas mortais em meio de multidões.” 
O Evangelho Segundo Jesus Cristo, p 61.





                                           José Saramago, foto by Google Images



Romances
*Terra do Pecado, 1947
*Manual de Pintura e Caligrafia, 1977
*Levantado do Chão, 1980
*Memorial do Convento, 1982
*O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984
*A Jangada de Pedra, 1986
*História do Cerco de Lisboa, 1989
*O Evangelho Segundo Jesus Cristo, 1991
*Cadernos de Lanzarote (I-V), 1994
*Ensaio Sobre a Cegueira, 1995
*Todos os Nomes, 1997
*A Caverna, 2000
*A Maior Flor do Mundo (2001)
*O Homem Duplicado, 2002
*Ensaio Sobre a Lucidez, 2004
*As Intermitências da Morte, 2005
*As Pequenas Memórias, 2006
*A Viagem do Elefante, 2008
*Caim, 2009
*Clarabóia, 2010

Peças teatrais
*A Noite
*Que Farei com Este Livro?
*A Segunda Vida de Francisco de Assis
*In Nomine Dei
*Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido

Livros de poesia
*Os Poemas Possíveis, 1966
*Provavelmente Alegria, 1970
*O Ano de 1993, 1975




Saturday, 9 June 2012

Paisagens Simbolistas



                          In the Dust Storm, 1893. Jacek Malczewski.


Symbolism from VanGogh to Kandinsky
(no Van Gogh Museum até dia 17 de Junho 2012)


Os Simbolistas, em busca dos mistérios que habitam a alma humana

Como todo acontecimento ou movimento de novas idéias nas artes o Simbolismo aconteceu como uma reação, uma inquietação na alma dos artistas num determinado momento da história, final do século XIX. Afetados pelo seu tempo e pelas mudanças que vinham acontecendo, muitas em decorrência da Revolução Industrial - como a industrialização, o materialismo - os artistas se manifestaram tentando entender o mundo de outras formas e reorganizá-lo segundo novas perspectivas. O movimento simbolista aconteceu primeiro na literatura (poesia) e filosofia espalhando-se depois para as outras modalidades das artes: pintura, teatro, musica. A propósito, tem um forte link com a musica. As poesias de CharlesBaudalaire foram precursoras das idéias simbolistas e exerceram grande influência sobre a arte da época - e do século XX.
A maneira de pensar e expressar o mundo nas artes era até então de acordo com o Realismo/Naturalismo. Esses artistas tinham uma visão muito racional e objetiva nas artes e na vida. A arte era narrativa e expressava e espelhava a realidade sem a interferência da subjetividade do artista. Um excesso de objetividade, determinismo, racionalismo e positivismo. Assim um movimento contrário começou a nascer se opondo aos excessos Realistas/ Naturalistas. Sentimentos opostos fertilizaram grandemente nesse contexto, oportunizando o nascimento do Simbolismo. Os artistas passaram então a valorizar a subjetividade, o individualismo, a busca da espiritualidade, o místico e a intuição sobre a razão. O objeto de sua arte carrega o símbolo como conteúdo, ligando o mundo físico ao mundo abstrato. O símbolo faz a ponte que liga o humano ao transcendental, o abstrato ao concreto. Suas idéias partiam do princípio de que a arte deveria expressar os conteúdos latentes no ser humano, sua alma e os sentimentos que a povoavam. Acreditavam na busca do espiritual e das forças místicas que regem o universo, prevalece o onírico sobre o cotidiano e o real. O objeto de sua arte seja uma paisagem ou uma pessoa é muito mais sugerido do que mostrado, de forma imprecisa e vaga, obscuros, envoltos em neblina e mistério.
Os simbolistas usaram em seu repertório figuras da mitologia, seres andróginos, mulheres sensuais, paisagens oníricas quase abstratas, paisagens da natureza envoltas em mistério, cores diluídas, personagens místicos e míticos.
A exposição Dreams of Nature, Symbolism from Van Gogh to Kandinsky que acontece no Van Gogh Museum, traz as paisagens simbolistas como destaque.
Paisagens simbolistas do período de 1880 a 1810. Através das paisagens os artistas representavam suas idéias da morte, da vida, dos sonhos, do cosmos, etc. Odilon Redon, Munch, Böcklin, Whistler, Mondrian, Kandinsky,  Leon Bakst, Gallen-Kallela, Jacek Malczewski e muitos outros.  
As obras são impactantes, cheias de energia e mistério. A curadoria caprichou na escolha e nenhuma das obras fica a desejar em beleza, grandiosidade e poesia. O espectador não consegue ficar indiferente a nenhuma delas. Grandes, médios e pequenos formatos, todas de rara beleza e encanto.
Ao entrar na sala de exposição logo no início uma nova e atual proposta instiga ao espectador: ele é convidado a se utilizar de uma nova ferramenta do mundo virtual, o conceito de realidade aumentada. Mas o que seria isso? O mundo dos QRcodes que nos acessam à realidade virtual. Um pequeno texto na parede explica como fazer o download de um QRcode no seu smartphone e daí em diante scanear algumas obras que exibem seu QRcode junto delas. Assim o espectador tem acesso a mais informações sobre a obra e pode ouvir do seu smartphone duas músicas inspiradas na obra. Uma mais antiga e outra feita especialmente para a exposição.

A exposição está dividida em seis temas:

*Ancient and new paradises: inspiração na mitologia antiga, refúgios paradisíacos longe das cidades. Destaque para a obra Island of dead de Arnold Böcklin, ouça a música que acompanha a obra.
A obra de Leon Bakst Terror Antiquus de 1908 se sobressai logo no começo da exposição. Dimensões gigantes que nos engolem para dentro da paisagem - parece até um obra contemporânea. Terror Antiquus teve muitas opiniões diferentes sobre seu significado. A história da pintura relata que Leon Bakst visitou a Grécia em 1907 absorvendo toda sua cultura e história através da leitura de seus clássicos e da realização de desenhos dos monumentos e da natureza. Essa experiência foi fonte de recursos para a criação da obra. Descreve o naufrágio e a destruição de uma antiga cidade Grega (Atlantis) e seus habitantes. Bakst reproduz uma série de edifícios antigos - a Porta dos Leões em Mycenж, as ruínas do palácio de Tirinto e da Acrópole ateniense. Kore, uma escultura grega de uma jovem em pé - mitologia grega-  ou a Deusa Aphrodite, se levanta soberana e enigmática, impondo sobretudo e sobre todos o destino da humanidade.  Simbolicamente ela representa a extinção daquele mundo e seus valores.
Bakst ficou muito conhecido por seu trabalho com Sergei Diaghilev em seus Ballets Russes na produção de cenários e figurinos.





                                             Terror Antiquus, 1908. Leon Bakst.




                                The Island of Death, 1880. Arnold Böklin. 




*Nature and suggestion: paisagens internas, sentimentos sugeridos. Gallen-Kallela, Sohlberg and Hodler.

A obra de Kallela é o destaque de toda exposição (a fotografia que está no folder). Uma obra delicada e forte, atemporal, uma paisagem feita de silêncio. O espectador é sugado para dentro do infinito, vislumbrando apenas nos reflexos do céu na água. Nenhuma forma de vida, nenhum som se pode ouvir. Tudo é silêncio e abandono. Uma imagem que se abre para dentro de nós mesmos, tal qual o espelho, transcendendo a pura beleza e o poder da arte.


                                 Lake Keitele, 1905. Akseli Gallen Kallela.



*Dreams of visions: Gauguin, Munch, Malczewski.

O mundo que jaz na superfície das coisas, visões e sonhos.Destaque para a obra In the Dust Storm, 1893 de Jacek Malczewski.
 

A obra causa um profundo impacto quando nossos olhos repousam suaves sobre a imagem. A princípio nos sentimos num lugar além do aqui e agora. Um mundo distante, desconhecido, sem tempo nem espaço definidos. A imaginação corre livre pela cena. O impacto das figuras entrelaçadas num redemoinho amarelo, quente e abafado. Alheias à nossa presença, elas giram e levitam sob o solo seco e árido. De qual tipo de matéria seriam feitas ? Em que mundo habitam? As árvores ao fundo fixas e imóveis assistem ao acontecimento e também ao nosso estupor e encantamento diante da obra, sem nem ao menos nos darem alguma pista que possa nos levar ao encontro de alguma resposta. Objetivamente, a figura e identificada com Polônia, personificação do pais Polônia. Apoiada por seus filhos a Nação emerge como uma referência ao destino da pátria escravizada. Alternativamente a figura  feminina e identificada como Poludnica (Lady Midday) demônio perigoso dos campos, causando insolação e loucura.



                        In the dust storm.1893/94- Jacek Malczewski








*Silent cities: Whistler, Degouve, Nuncques.
As cidades como uma ameaça se tornam paisagens de sonhos e mistério vindas da imaginação do artista.
Casas silenciosas, feitas de penumbra e sonhos. Imagens que nos remetem a um profundo lugar dentro de nós mesmos, algo que jaz talvez esquecido nas sombras de nossos pensamentos, nas dobras do tempo. Mas os silêncios não são feitos de melancolia. São tecidos com o passar suave e monótono do tempo que toca suavemente a superfície das coisas sem alterar sua aparência nem mesmo sua essência. Uma ausência presente. A luz acesa que sugere uma presença, a vida que pulsa a despeito do vazio absoluto que povoa as ruas e os lugares.





                                A portal in Brugges. Fernand Khnopff.


                         Le lac d'amour in brugges. Fernand Khnopff.




                         Le quay in Brugges. Henri Le Sidaner.


*The cosmos: Van Gogh, Watts, Willumsen.
As forças da natureza, a energia cósmica, a eterna insignificância do homem diante da natureza.  
Destaque para a obra
"Sun Shining on the Southern Mountains" - Jens Ferdinand Willumsen.
A obra de grande formato, exige uma entrega do espectador. Ninguém passa indiferente por ela. Cheia de luz e significados que transcendem a imagem feita de tintas e tela. Algo além das montanhas, além do dourado luz filtrada pelas nuvens nos colocam numa posição diminuta perante os mistérios da vida e do mundo.
O clássico Van Gogh "The Sawer" também não fica por menos. Cheio da energia criativa e dinâmica do mestre. The Sawer é um emblema da vida e da mente tão conturbada do artista. Seu pai que fora um pastor protestante tinha com essa parábola uma ligação muito forte, a qual com certeza marcou Van Gogh para sempre.



                 Sun shining on the Southern Mountains. Jens Ferdinand Willumsen.





                         The wheatfield with reaper. Van Gogh.






                          The Sower. Van Gogh.


*Into the mystic: Whistler, Signac, Mondrian, Kandinsky. A expressão do sublime e do espiritual, conexões com a música, primeiros passos rumo à abstração. Destaque para a obra Nocturne in Blue and Green, de Whistler.
 


              Nocturn in blue and green. James McNeill Abbott Whistler




                         Nocturne in grey and silver. Whistler.



*A curadoria da exposição foi realizada por Richard Thomson e Rodolphe Rapetti, especialistas na área de pintura de paisagens e Simbolismo.    specialists in the area of landscape painting and Symbolism.
*Dreams of Nature - Symbolism from Van Gogh to Kandinsky
Exposição no Van Gogh Museum em Amsterdam
Até 17 de Junho 2012
A exposiçao acontece na Ehxibition Wing na parte de baixo seguindo as escadas rolantes à direita, assim que entramos no museu (apos o controle de raio x)
O museu está aberto diariamente da 10am às 6pm e às sextas até as 10pm.
 



Saturday, 12 May 2012

O computador e a gambiarra





...algo me intriga ultimamente e tenho pensado sobre o assunto. Percebo que crianças muito pequenas já estão totalmente envolvidas com toda espécie de gadgets ou geringonças eletrônicas. Mãozinhas hábeis em deslizar pelos sensíveis touch screens, aptas a fazer escolhas entre inúmeros ícones, cores e formas atrativas. Celulares e tablets viraram os brinquedinhos favoritos dos pequenos. Eles ficam fascinados com aquelas janelinhas cheias de possibilidades, surpresas, ação, movimento, cores, sons e desafios. Também não poderia ser diferente porque elas realmente são irresistíveis e cada vez mais surpreendentes. Para os pequenos então, uma porta escancarada à curiosidade e diversão.
Mas o que me intriga é como isso vem acontecendo, a forma como estamos lidando com as novas tecnologias em relação aos nossos filhos. Digo novas  porque é uma situação nova pra geração que agora tem filhos pequenos. Nunca antes nos deparamos com esse tipo de questão.
Olhando de perto temos duas situações que se apresentam complementares e até um pouco paradoxais. Por que paradoxal? Porque ao mesmo tempo é bom e ruim. Complementares? Porque se soubermos lidar com sabedoria pode ser aliadas no desenvolvimento e aprendizado.
Por um lado temos crianças que já nascem num ambiente totalmente afetado pelas tecnologias de comunicação. Familiarizados no manuseio desses dispositivos, os pequenos hoje usam a internet até pra fazer a tarefa de casa. Ferramentas de auxílio à alfabetização são eficazes prestadores de ajuda às crianças e a todos os envolvidos no processo. Agilizam o aprendizado de forma eficiente e divertida ao mesmo tempo. Aprender nunca foi tão prazeroso diante de um web site de alfabetização, de jogos de matemática, de imagens dos planetas e sua localização no espaço tridimensional e tantas outras possibilidades de interatividade pedagógica ofertadas pela rede.  
Uma realidade que deve ser levada em conta por pais, professores e educadores.
Mas como decidir o momento certo de permitir a entrada dos gadgets na vida dos pequenos? Me preocupa um pouco ver tantas crianças cada vez mais novas tão envolvidas com esses aparatos modernos Ou outras em idade escolar quase coladas em seus computadores: comendo, bebendo e vivendo sem nem ao menos tirar os fones de ouvido. Hora da refeição? Cada um por si, de preferência diante da telinha do PC. 

Será exagero da minha parte?

Por outro lado, me pergunto de que maneira isso tem afetado o desenvolvimento das crianças enquanto seres criadores e criativos.
A interação com esse tipo de tecnologia exige uma atitude mais passiva por parte da criança. Enquanto brinca no computador somente uma parte do seu ser esta presente: seu cérebro, pura lógica e razão. Por mais que os jogos atuais ou o layout dos aplicativos apresentem certo dinamismo no manuseio, as crianças apenas usam alguns aspectos da inteligência ou da cognição. Outros aspectos ficam negligenciados. Acredito que não podemos perder de vista o lado lúdico das brincadeiras. A fantasia, tão importante na elaboração das vivências da criança.

Não estou fazendo nenhum juízo de valor, nem apontando o dedo para quem quer que seja. Nem mesmo sou contra a interatividade e uso da internet pelas crianças. Minha filha de 7 anos a pouco tempo foi mordida pelo bichinho virtual (pra ser sincera acho que consegui uma proeza em segura-lá  tanto tempo longe do mundo virtual). Sei bem como é lidar com esse desafio quase que diariamente porque os pequenos ficam fascinados diante de uma telinha de computador.
O que eu questiono é como fica a capacidade de brincar, interagir com as outras crianças, seus pares. Sabemos que a brincadeira tem uma função real na vida das crianças, brincar é muito mais do que apenas distração ou lazer. Através da brincadeira e da fantasia a criança aprende a elaborar conteúdos super importantes na construção do seu ser, arquitetando sua futura vida adulta. Através das vivências nas brincadeiras, elas aprendem a lidar com seus sentimentos e emoções.
Onde fica a criatividade, aquela qualidade tão humana que nos torna tão especiais enquanto seres? A capacidade de inventar, misturar elementos, fazer gambiarra! Ah, fazer gambiarra! é o que tem de mais puro, criativo, inspirador dentro de cada um de nós. E essa capacidade é tão presente na infância, matéria prima pra tudo.
Não podemos deixar nossas crianças perderem o dom da poesia, da arte, da emoção de inventar e criar algo com as próprias mãos e com a própria capacidade criadora. O encanto mágico das descobertas. Isso ajuda a construir a auto-estima, o amor próprio, nos traz um sentimento de pertencimento ao mundo humano naquilo que ele tem de melhor. Brincar à moda antiga traz tantos benefícios! Exatamente como todas as crianças brincaram desde sempre: de casinha, de boneca, cuidar do bebê, lutas e guerras para os meninos, esportes, pega pega, esconde esconde, amarelinha, se lambuzar de tinta, de argila, pintar e desenhar, um ato tão essencial e tão simples. Apenas papel, lápis e... tempo! muito tempo livre. Por sinal tempo livre sem nada pra fazer também é tempo criativo, precioso agente enriquecedor da vida da gente.
Tirar essa oportunidade das brincadeiras é roubar das crianças uma parte muito importante de sua formação e de seu aprendizado. Não oportunizar as brincadeiras é empurrar os pequenos para um lugar que eles desconhecem e que ainda não estão prontos para conquistar.

Usar as ferramentas certas do jeito certo na hora adequada. Essa é a grande questão, o grande desafio dos nossos tempos pra todos nós: pais, adultos e jovens.  Como prestar atenção com cuidado e carinho pra usarmos a tecnologia a nosso favor.




D.W. Winnicott  um estudioso da alma infantil, aponta precisamente nas palavras abaixo a importância do brincar. Médico pediatra e psicanalista ele estudou o universo na criança em todas as suas nuances e sua relação com o mundo. Referência em estudos quando o assunto é criança. O trecho abaixo foi extraído do livro A criança e seu mundo, um clássico do assunto, uma obra de vital importância para pais e educadores. Winnicott abrange vários aspectos da infãncia e traz uma grande contribuição para o entendendimento do universo infantil.

“A criança adquire experiência brincando. A brincadeira é uma parcela importante de sua vida. As experiências, tanto externas quanto internas podem ser férteis para o adulto, mas para a criança essa riqueza encontra-se principalmente na brincadeira e na fantasia. Tal como as personalidades dos adultos se desenvolvem através de suas experiências de vida, assim as das crianças evoluem por intermédio das brincadeiras e das invenções de brincadeiras feitas por outras crianças e adultos. Ao enriquecerem-se, as crianças ampliam gradualmente a capacidade de enxergar a riqueza do mundo externamente real. A brincadeira é a prova evidente e constante da capacidade criadora, que quer dizer vivência.”                                           

D.W. Winnicott, A criança e o seu mundo.
Pg 161;cap.22 - Porque as crianças brincam.








Sunday, 15 April 2012

Soneto de separação - Blogagem coletiva Amor aos Pedaços, Desencanto













                            A estrela chorou azul, acrílico s/ tela. Monica Cella.






Soneto de separação  
Vinicius de Moraes



De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.





Desencanto (deriv. De desencantar)
Desencantar (de des + encantar)
Tirar, desfazer, quebrar o encanto ou o encantamento de; causar decepção, desiludir; achar, descobrir, encontrar coisa perdida ou difícil de achar; fazer aparecer como que por encanto.
Desencantador  (de desencantar + dor)



“Não tô nem aí”...
 A frase por si só já carrega o peso da insensibilidade, da indiferença

...canso de ouvir isso por aí afora, em diferentes formatos. Até nas redes de relacionamento social existem maneiras de expressar essa indiferença pelo semelhante, através de imagens com mensagens direcionadas àquele que fere/feriu.
Cada vez mais isso salta aos meus olhos, ouvidos e coração. Mas que raios de seres somos nós??? Falamos tanto em amor ao próximo, tantos discursos bonitos e blá, blá, blá sobre amar e o escambau e ao mesmo tempo na contramão expressamos tanto desprezo pelo outro. Já reparou nisso?

A frase vem acompanhada de um tom sarcástico, cínico numa tentativa de empurrar o outro (quem me feriu) pra escanteio. Colocá-lo na geladeira da indiferença, no compartimento dos malvados e mal amados. Geralmente é colocada quando um impacto negativo vindo do outro interfere num relacionamento, num sentimento, seja ele de qualquer natureza. De perto ou distante, superficial ou profundo. Quando alguém fala que não está se importando com a conduta do outro isso também tem o mesmo significado negativo, porém na contramão da ofensa. Uma postura de fechamento, um muro imaginário que se constrói bem ali de imediato diante do outro. Uma recusa de aceitação, uma tentativa de proteção em última instância. Se devolvo negatividade diante de uma ofensa ou algo que me fere também estou contribuindo com minha parcela de agressividade, na mesma medida de quem está ferindo. Às vezes é difícil perceber isso, que são dois caminhos na mesma direção: negatividade, egoísmo e sentimentos aniquiladores.
Um auto engano obviamente. Uma pseudo fuga pra lugar nenhum, tentando se proteger desesperadamente da dor e da ferida.  Do desencanto causado.
Eu não consigo ficar indiferente ou aceitar essa postura de quem não se deixar atingir, ou faz de conta que tanto faz. Que a maldade alheia, a hipocrisia alheia, o egoísmo alheio e outras tantas situações negativas a que estamos expostos não tem efeito sobre mim. Eu sofro com isso sim. Eu desencanto com o meu semelhante. È algo que fere uma parte que ainda acredita, uma porção quase criança, quase inocente, que ainda tem fé na possibilidade de um mundo melhor. É desencanta + dor...( repare na construção da palavra) observar a indiferença e a frivolidade com que muitos tratam seu semelhante ou seus relacionamentos. Entre amigos, colegas, parceiros, irmãos, com o porteiro do prédio, com a professora/or do filho, com o vizinho, o atendente do supermercado, o garçom e por aí vai...

Depois de algum tempo aprendemos a lidar melhor com a vulnerabilidade da exposição e apesar da dor é algo que não paralisa, nem emudece. Aprendemos que a defensiva ou o contra ataque nem sempre é a melhor medida. Aprendemos que permitir-se ser tocado, atingido pelo outro (mesmo em situações negativas) pode maximizar nossas (boas) defesas. Conseguimos construir não um muro que separa, mas uma casa interna que fortalece. Aprendemos a enxergar que a maldade do outro é tão somente uma parte dolorida dele mesmo que ficou enrijecida por falta de amor, de afago, de aceitação, de tolerância e outras tantas possibilidades não realizadas. O desafeto e a violência são apenas manifestações de feridas ainda expostas, que ainda sangram. 


Saturday, 17 March 2012

Klee and Cobra A Child’s Play



                               Bust of a child, 1933




 "A criança é o pai do homem"
  William Wordsworth.




O que a arte e as crianças têm em comum?

A exposição Klee and Cobra a Child`s play que está acontecendo no Cobra Museum em Amstelveen aponta respostas nesse caminho. A exposição foi pensada na relação do Grupo Cobra com o artista Paul Klee, o que ambos tinham em comum com o universo imaginativo da criança. A curadoria escolheu cinco temas sobre os quais ambos trabalharam: a imaginação da criança, as máscaras, os acrobatas, animais fantásticos e agressividade. Dentro de cada tema proposto são exibidos trabalhos de Klee e de alguns membros do Grupo Cobra: Karel Appel, Constant, Corneille, Pierre Alechinsky, Asger Jorn e outros. No total mais de 130 obras de Klee e 120 do Grupo Cobra.

Paul Klee

Pra entender melhor a arte de Klee se faz necessário conhecer um pouco sobre sua própria vida e personalidade.
Klee nasceu na Suíça (1879-1941) numa família de músicos da qual herdou o gosto pela musica, tornando-se um exímio violonista. O pai era professor de música e a mãe cantora. Atuou na Orquestra Municipal de Berna e outros grupos. A musica, aliás, permaneceu com ele durante toda sua vida exercendo grande influência sobre sua arte. Formulou a Teoria da Forma na qual relaciona formalmente através de analogias a Musica e as Artes Visuais. Foi um importante teórico, um intelectual da arte, ligando suas buscas à filosofia e a metafísica.  Klee foi um dos mestres da famosa escola Bauhaus onde lecionou de 1920 a 1931. Instituiu as bases do que viria a ser mais tarde o Construtivismo.

Escolheu as artes visuais como seu caminho no mundo, sua maneira muito singular de se comunicar com o universo. De Klee pode-se dizer um pintor sem classificações de estilo, escolas ou ismos. Construiu sua arte de forma única, singular, sempre se mantendo fiel a si mesmo, buscando suas imagens na essência do seu ser. Assimilou algumas tendências de seu tempo  transformando-as. Razão e emoção, intuição e intelecto, dentro desse contexto de polaridades Klee retirou a energia para construir sua linguagem e suas imagens. A despeito de sua obra estar imersa nas suas teorias, visualmente se manteve pura, primitiva, aquém das investigações intelectuais. Sua arte tem a energia vital da natureza, exprimem questões cósmicas, metafísicas, dualidades: caos e ordem.



"Art does not reproduce the visible; rather, it makes visible."





Pequenos formatos, linhas tênues e delicadezas. Cores cadenciadas, musicais. Símbolos pictográficos como letras, notas musicais e setas povoam suas pinturas e desenhos. Suas obras exigem um olhar atento e introspectivo, feito de silêncios e pausas, sussurros, ritmos e cadências, tal qual a musica. Para apreciar Klee è necessário ter de novo os olhos puros de uma criança. Um olhar ainda não contaminado pelo conhecimento ou corrompido pela cultura, livre de regras, normas e saberes inúteis. Tal qual suas buscas e interesses no universo infantil. O olhar puro consegue ver através das linhas, formas, superfícies e cores. Um mundo além das aparências, a essência das coisas segundo o próprio Klee. Sua arte fala baixinho, tem que chegar perto. Se aproximar para ouvir os sons que vem de suas imagens. Um canto lírico, uma sonata, a musica de câmera, uma composição musical. Tem a força vital dos grandes acontecimentos, o poder do universal.





                                 Golden Fish, 1925




O interesse pela produção infantil aconteceu os 22 anos quando Klee redescobriu seus próprios desenhos de infância. Encantado com a descoberta passa a investigar o processo criativo da criança, seus desenhos e pinturas. Os desenhos infantis tinham para ele um apelo original, primitivo no sentido da pureza, preservado da afetação do conhecimento, das regras e da cultura. A força instintiva da energia da vida, a simplicidade.  O que ele almejava para seu próprio trabalho e de fato ajudou a definir sua linguagem.
Mais tarde em 1907 nasce seu filho Felix o qual também contribuiu para o aprofundamento nas questões da infância relacionadas à arte. Klee registrou minuciosamente o desenvolvimento do filho em uma espécie de diário e mais tarde também seus desenhos.
Outro fator impactante na sua carreira que refletiu grandemente sobre sua obra foi uma viagem à Tunísia. Até 1914 Klee não se sentia um verdadeiro pintor, tinha dificuldades com a cor. Suas obras tendiam para o monocromático. A partir de uma viagem á Tunísia o artista se sente completamente envolvido com a luz do local. Mais tarde Klee afirmaria sobre a viagem (se referindo a luminosidade, as cores na natureza, a luz )


“Color has taken possession of me; no longer do I have to chase after it, I know that it has hold of me forever. That is the significance of this blessed moment. Color and I are one. I am a painter.”







O Grupo COBRA

A idéia principal do Cobra como todo movimento de vanguarda, era quebrar com padrões estabelecidos e criar uma nova maneira de expressar sua arte. Liberdade de técnicas, de gestos e idéias. Acreditavam na arte como intuição, liberdade de criação sem planejamento prévio, um espaço onde uma nova arte se manifestar livremente, apontar saídas ao conformismo. O ato de pintar, o processo criativo deveria ser o mais espontâneo possivel, diretamente sobre o suporte. Cores primárias, formas precárias. Grossas camadas de tinta, grandes formatos, movimentos vigorosos e gestuais. Temas fantásticos, animais grotescos, seres deformados, garatujas infantis, traços inacabados e desajeitados. Buscaram no universo infantil a fonte de inspiração para suas obras e seu fazer. A vitalidade e energia pura dos desenhos e pinturas das crianças. O olhar e a mão da criança ainda não contaminada pelo conhecimento ou corrompida pela cultura, livre de regras, normas e saberes inúteis. Também beberam na fonte da Arte Primitiva, Folk Art, Mitologia Nórdica, graffiti, na arte de Miró e Klee. Incorporaram a poesia e a literatura à sua arte, imprimindo um forte caráter político na sua proposta. Muitos deles eram de fato envolvidos e engajados politicamente, comunistas e marxistas. Tornaram-se um objetivo a alcançar. O Grupo Cobra durou pouco (se desfez em 1951), mas foi intenso tal qual sua proposta. Durante sua existência deixou marcas profundas e indeléveis na arte.



                               Constant



A exposição Klee and Cobra A Child’s Play revela as similaridades entre Cobra e Klee, mas também as diferenças de proposta quanto ambos tratam do mesmo tema. Em Klee, a abordagem do universo da criança é mais lúdico, muito próximo da poesia e da fantasia. Talvez um contraponto á sua intelectualidade tão incisiva. Mas também uma maneira de romper com a arte tradicional e seus cânones engessados. Enquanto que os artistas do Cobra encontraram no fazer da criança a potência vital da criação, a energia impulsiva e intuitiva do fazer. Estavam interessados na crueza do gesto impulsivo como uma maneira eficaz de expressar seus anseios e questionamentos.
A exposição traz desenhos e pinturas de Klee e telas em grandes formatos do artistas do Cobra, assim como algumas esculturas e marionetes de Klee. Dois vídeos de aproximadamente 1hora também fazem parte da mostra.


28.01 - 22.04 2012
Onde: COBRA MUSEU, in Amstelveen - Holanda

COBRA MUSEUM- em Amstelveen +- 9km de Amsterdam

A partir do centro pegue o TRAM 5 direção Binenhof; ultima parada. O museum fica na parte oposta da parada do tram, uma área comercial chamado Stadshart Amstelveen - Sandbergplein 1, Zip 1181 ZX.
Onibus apartir de Amsterdam: 170,171,172 parada Busstation Amstelveen
A partir do Schiphol: bus 300, parada Busstation Amstelveen
A partir da Station Zuid,WTC: bus 199, mesma parada acima.