Saturday, 23 February 2013

STEDELIJK MUSEUM - Alzheimer`s Program



    All images via Moma.org

    
STEDELIJK, engajando arte como função social


Qual a função da arte? 

particularmente faço parte de um grupo que acredita que a arte não tem função. Falo isso da grande arte, aquele tipo de arte que realmente fez/faz a diferença no mundo. Falo de Rembrandt, Vermeer, Van Gogh só pra citar alguns. Essa arte situa-se num espaço onde poucos chegaram/chegam. Mesmo a arte "menor" se posso me referir assim não tem função, embora muitos insistam em dar função a arte. Mas isso é assunto pra lá de complexo. O que eu acredito é na função social da arte dentro de um contexto ou dentro de uma comunidade, aí sim ela pode exercer um grande e importante papel.

Mas o que isso tem a ver com o que eu vou falar aqui?

Começa em abril 2013 no Stedelijk Museum de Amsterdam  (em colaboração com o Van Abbemuseum de Eidhoven) um programa voltado para um publico especial: portadores de Alzheimer e seus cuidadores. Inspirado num programa similar do MOMA de Nova York, o  "Meet me at Moma"  o Stedelijk vai oferecer atividades guiadas especialmente elaboradas para a apreciação de arte. As visitas acontecem em horários em que o museu está fechado para o público. Sem distracões, os participantes tem o ambiente mais confortável e seguro a sua disposicão. O Moma oferece encontros mensais de 90 minutos para grupos de 6 pessoas. (O programa é voltado para portadores num estágio de demência leve/média.)

Com o crescente aumento do Alzheimer no mundo, cada vez mais pessoas estão envolvidas direta ou indiretamente com a questão. A partir dessa perspectiva o museu oferece a arte como um agente de apoio, interação e integração com os envolvidos. A arte pode ser acessada sem a necessidade da memória de curto ou longo prazo. A fruição de uma pintura ou de uma escultura por exemplo não implica na interferência da razão/lógica. A linguagem pela qual a arte se manifesta é puramente sensorial: formas, cores, padrões, ritmos, livre associação. Manifestações de ordem estética.  Assim sendo os portadores de Alzheimer podem se beneficiar do contato, da exploração livre e espontânea das obras monitorados por guias especialmente treinados. O programa propõe experiências significativas com arte,  permitindo ao público interagir através das obras. Conversas sobre os trabalhos apresentados, perguntas e respostas. A experiência pode funcionar como um link entre a vida pessoal e o mundo, uma janela de trocas entre fantasia e realidade, além de estimular as funções cognitivas. Além dos benefícios ao portadores de Alzheimer o programa também atinge os cuidadores através de seu envolvimento com todo o contexto da atividade. Interação social com outras pessoas com experiências similares, estímulo e interesse próprio provindo  da apreciação da arte, uma quebra no isolamento do extenuante dia a dia em que estão inseridos.

Uma experiência louvável que poderia render mais frutos pelo mundo afora. Com meios mais simples e com os recursos disponíveis que estão ao alcance de cada local especificamente. Cidades que não dispõem de bons museus por exemplo poderiam organizar atividades similares com artistas locais através de ações voluntárias - com o devido apoio das prefeituras, governo ou entidades específicas (Lions Club, Rotary Club, Ongs, Clubes, Associações Culturais, Fundações Culturais). Engajar profissionais especializados tais como médicos, arte educadores,  para dar suporte. Até mesmo beneficiar-se das Leis de Incentivo à Cultura. 

Vários museus nos EUA já aderiram a programas smiliares e também o Louvre Museum em Paris entrou na lista de museus participantes.

Abaixo documentos completos (do website do Moma) com todas as informações necessárias, disponibilizados a quem se interessar em implementar programas similares:

*Foundations for Engagement  with Art  - Todas as explicações para iniciar um projeto de arte com pessoas portadoras de Alzheimer (pdf, em inglês -do site Moma.org)
*Guide for Museums- guia completo para os museum interessados em implementar o programa (pdf, em inglês - so site Moma.org)
*Guide for Care Organizations - guia para organizações interessadas no programa (pdf, em inglês - so site Moma.org)
*Guide for Families - para as familias com pessoas portadoras do Alzheimer interessadas em participar do programa (pdf, em inglês - so site Moma.org)


Pra quem quer saber mais sobre o programa do Moma aqui tem o link.

O Stedelijk fica na Museumplein, mesmo local onde estão o Van Gogh Museum  e o Rijksmuseum em Amsterdam.



All images via Moma.org

Monday, 5 November 2012

Museumnacht em Amsterdam


comemorando as artes, com arte!






Acontece em Amsterdam todos os anos no primeiro Sábado de Novembro o Museumnacht (Noite dos Museus). Por volta de cinquenta museus da cidade ficam abertos das 7 da noite às 2 da manhã com uma programação especialmente feita para a data. Esse foi o 13º ano do evento. 
Uma festa para o deleite dos sentidos,  alegria para os amantes das artes e uma oportunidade para aqueles que não tem o hábito ou tempo suficiente pra ir ao museu. Aos apreciadores das mais variadas modalidades de arte como pintura, música, poesia, performance, o convite é irresistível. 
A idéia é atrair o público a fim de celebrar a arte, quebrar a barreira entre espectador/arte/artista, em última instância propiciar o encontro do público com a arte nas mais variadas formas. O evento foi criado inicialmente focando o público jovem na faixa de 18-35 anos e também um público novo, aqueles que talvez não tem – ainda -  o hábito de ir a museus, a fim de incentivar, estimular o contato e interação com as artes. 
A abordagem da programação tem clima de festa e gira em torno da celebração cultural. Apreciar arte de forma descontraída, leve e solta, sem barreiras pseudo-intelectuais que muitas vezes afastam o público dos lugares onde a arte acontece. O museu se oferece como um lugar de acesso livre, convidativo, um lugar de experiências. Atividades que envolvem o espectador como um agente ativo na apreciação/entendimento da arte. 
Concertos, workshops, tours guiados, performances, DJs, comidinhas e bebidas, tudo à disposição para tornar o evento mais atrativo entre um e outro museu. 
Juntar um grupo de amigos para fazer alguns lugares é uma idéia legal, mas escolher entre tantas opções pode te deixar  hesitante. Com um pouco de informação e programação antecipada fica mais fácil fazer as escolhas certas. Afinal rodar a cidade tentando fazer 50 lugares é impossível. 
Outra super dica que funciona muito bem é ir de bicicleta. A maioria dos museus se encontram na grande área central, ir de um lugar a outro de bike é tarefa fácil, rápida e divertida. A prefeitura disponibiliza tram, metrô e ônibus de graça para quem é portador do bilhete especial para o Museumnacht. Mas convenhamos, perder seu precioso tempo esperando pelo tram ou ônibus numa noite em que tempo é lucro (lucro cultural, claro!) não é nada atrativo, certo? Portanto deixe-se envolver pelo clima da festa e da cidade, pegue sua bike e se jogue na noite.
Para os festeiros de plantão a festa continua após as 2am em muitas after-parties espalhadas pela cidade.
Os tickets custam 17,50 euros com entrada válida em todos os museus, transportes especiais e descontos nas after-parties. Podem ser adquiridos pelo site do evento Museumnacht ou no UITBURO na Leidseinplein. Comprá-los com antecedência é boa opção já que o público prestigia o evento. Seu ingresso será trocado por uma pulseirinha no primeiro museu que você visitar dando-lhe acesso a todos os demais museus. O ticket continua valendo após o MUSEUMNACHT para você visitar um (apenas um) museu de sua escolha dentre os participantes (menos o ArtisZoo) até o final do ano corrente.



                                                    HERMITAGE MUSEUM


SINAGOGA PORTUGUESA: concerto de música erudita com iluminação a luz de velas (não existe iluminação elétrica na Sinagoga)


                                                    HERMITAGE


                                                    STEDELIJK


Alguns museus participantes: National Rijksmuseum, Stedelijk Museum, Tropenmuseum, Foam, Science Center NEMO, Artis Royal Zoo, Amsterdam Museum, Hermitage e Jewish Historical Museum, Anne Frank House, Bijbels Museum, Allard Pierson Museum, Diamant Museum, De Appel Centre Arts, etc, etc...
Aquia lista completa de2012. 

Sunday, 4 November 2012

Stedelijk Museum Amsterdam


O STEDELIJK está de volta!




Demorou mas valeu a pena a espera de nove longos anos em obras de restauração e ampliação. O museu está aberto e traz ao publico sua vasta coleção de arte moderna, contemporânea, design e artes aplicadas. 
O Stedelijk Museum de Amsterdam fica localizado na Museumplein, literalmente a praça dos museus. A enorme área verde é destino turístico certo. Além de abrigar as famosas letronas vermelhas e brancas IAMSTERDAM onde todos querem fotografar, compreende outras 3 atrações da cidade: O Rijksmuseum (Rembrandt, Vermeer, Averkamp, etc), O Van Gogh Museum ( obras do artista e exibições temporárias) e o Concertgebow (teatro de musica erudita, concertos). 


Museumplein


Fechado para reformas e ampliação das instalações o museu agora tem uma nova parte anexa, polemicamente apelidada de “a banheira”. Criada pelo arquiteto Mels Crowel do Benthem Crowels Architets a nova parte é uma imponente construção aérea branca que lembra uma banheira de fibra. Flutuando sobre o grande hall de entrada do museu “a banheira” destaca-se imediatamente de seu entorno na Museumplein. Na verdade concordo que a idéia de Crowel ficou um tanto quanto exótica. Por um lado casa bem com a proposta do lugar já que o museu abriga uma vasta coleção de arte contemporânea e é local de discussão e acontecimento da arte contemporânea - nesse caso a discussão já começa pela nova arquitetura. Mas nesse ponto acho que sou um pouco mais conservadora, na minha modesta opinião o novo anexo abafa completamente a belíssima fachada Neoclássica do antigo Stedelijk. Uma pena! Apesar de ser favorável a mescla moderno-antigo acho que nesse caso extrapolou para o excêntrico.

Polêmicas à parte o museu está fervilhando e o público comparece diariamente, faça chuva ou faça sol as filas são intermináveis. Um ótimo termômetro sobre o interesse cultural de uma Nação, certo? Por falar nisso, é muito legal perceber esse movimento das pessoas em relação ao museu (não só ao Stedelijk, mas aos museus em geral). Ir ao museu é uma atividade habitual, tipo programa de fim de semana. A família com as crianças, o casal de namorados, um grupo de amigos, um casal de idade...aqui todos vão ao museu! Que maravilha viver isso e saber da importância que a arte ocupa na vida cotidiana das pessoas. Logicamente isso faz parte da cultura local, educação ao longo de anos de tradição num país que tem museus, grandes artistas e arte como um dos pilares da educação do povo.


                                          Stedelijk Museum e a "big bathtub" (*photo by John Lewis Marshall)
   

Voltando ao museu...
Na galeria térrea do antigo prédio, logo na entrada (onde ficava o antigo café do Stedelijk) um mural impactante de Karel Appel - o prestigiado artista do Cobra - recobre as paredes. O Cobra tem uma galeria inteira com obras de seus artistas representantes.
O andar térreo está dividido em duas áreas: uma delas abriga obras do período de 1870 a 1960. Artistas como Vincent van Gogh, Wassily Kandinsky, Ernst Ludwig Kirchner, Franz Marc, Chaïm Soutine, Marc Chagall, Henri Matisse, Piet Mondrian, Theo van Doesburg, Kazimir Malevich, Charley Toorop, Max Beckmann, Jackson Pollock, Asger Jorn, Karel Appel e os artistas do Cobra. A outra área expõe objetos de design e artes aplicadas. Dividida em três seções: O desenvolvimento do Modernismo 1900-1950; Modernismo Pós Guerra 1950-1980; Pos Modernismo até o presente 1980 em diante.
O segundo andar do antigo prédio histórico abrigará exposições temporárias da vasta coleção do Stedelijk. Obras da década de 60 até o presente com novas aquisições. O mestre Henry Matisse, o revolucionário Robert Raushenberg, Edward Kienholz, Andy Wharol entre outros. Salas inteiras com obras de um único artista como: De Kooning com suas enormes pinturas (que por sinal exigem um local espaçoso para serem mais bem contempladas), Barnet Newman. Marlene Dumas, etc. Entre outros artistas Lee Bontecou, Rene Daniels, Jan Dibbets, Lucio Fontana, Gilbert & George, Philip Guston, Yves Klein, Joseph Kosuth, Brice Marden, Bruce Nauman, Gordon Matta-Clark and Jean Tinguely, as well as new acquisitions by Barbara Bloom, Stanley Brouwn, Marlene Dumas, Dan Flavin, Simone Forti, John Knight, Cady Noland, Martha Rosler, Ger van Elk, Danh Vo and Guido van der Werve.
No andar térreo do novo prédio acontecem exposições temporárias.
Aconselho reservar um bom tempo pra visitar o museu, pois as salas são muitas e enormes. Se você mora em Amsterdam o melhor é visitar o museu em dias diferentes, por partes, dedicando seu tempo para apreciar as obras com calma para ler as informações sobre cada artista ou movimento que estão disponíveis nas paredes. Se você está de passagem pela cidade, escolha algumas salas de maior interesse, por artista ou movimento. Por exemplo, você pode ir direto a determinada sala e depois fazer um tour mais rápido por todo o museu.


                                          Vista interna do Stedelijk -  *Photo by John Lewis Marshall



Blue Green red, 1964-1965, Elsworth Kelly


                                         

* Se você está levando bolsas grandes, mochila ou sombrinha deixe-as no guarda volumes logo à direita após passar o bilhete na catraca digital ou nos armários (moedas de 1 ou 2 euros que são devolvidas no final);
*FOTOGRAFAR é permitido desde que SEM FLASHES OU TRIPÉ;
*telefone celular não é permitido dentro das salas de exposição, somente nas áreas externas as salas;
*alimentos e bebidas são permitidos somente no café (2º andar e no restaurante no térreo);
*Cadeiras de rodas e carrinhos de bebê podem fazer uso do elevador para acessar as diversas salas;
*Tickets online podem ser adquiridos, nesse caso facilita a entrada pulando as enormes filas, são válidos por um ano após a compra; 
*Museumcard é valido ou seja free entrance;
*Segunda feira o museu está FECHADO
 Terça a Quarta Feira - 11h as 17h
 Quinta feira - 11h às 22h
 Sexta, Sábado e Domingo - 10h às 18h
 * O museu oferece também uma programação de palestras, filmes, performances, etc. Confira aqui mais sobre a agenda;                                   


Tuesday, 11 September 2012

O Evangelho Segundo Jesus Cristo - segundo Saramago,






As idéias não tem paredes...



Uma provocação? Uma crítica contumaz ao Catolicismo? Ou apenas a divagação de umas das mentes mais criativas e produtivas da Literatura  Portuguesa e Mundial?
Além de grande escritor Saramago foi uma pessoa polêmica. Sua personalidade rigorosa e franca, de palavras cruas e diretas - por vezes ríspidas -  fez eco pelos cantos mais conservadores e pelas cabeças mais ortodoxas. Ateu convicto, comunista fiel, posicionou-se sempre a favor dos direitos humanos e por paradoxal que pareça foi um defensor da democracia. Segundo sua visão as democracias exercidas no ocidente nada mais são do que “fachadas políticas do poder econômico”.

O Cristianismo e a Bíblia foram alvo de seu interesse e estudo, sob uma crítica mordaz. Sendo ele português, acreditava na importância de entender o catolicismo e como este influenciou toda a cultura de seu país. Segundo ele a Bíblia “é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”, um livro cheio de maus exemplos e que não deveria nunca cair nas mãos de adolescentes. Foi tradutor de grandes escritores antes mesmo de firmar-se como um deles. Seu principal alvo foi talvez a Igreja Católica com seus intermináveis e paradoxais dogmas e crenças. O poder absoluto da suprema ordem do Senhor através dos punhos de ferro de seus representantes na Terra, o Clero. A posição política com que a Igreja se coloca sobre os fiéis é o que mais incomodava Saramago.

No Evangelho Segundo Jesus Cristo, Jesus é feito um homem comum, cheio de dúvidas, incertezas e vislumbres. De caráter voluntarioso e sem nenhuma, absolutamente nenhuma aura de divindade. Encontra-se com Deus e o Diabo e sucumbe às tentações da carne nos braços de Maria Madalena, cheio de desejo humano, muito humano - talvez seria isso o que mais irritou a Igreja Católica tão zelosa com o corpo.
Saramago inicia o romance contando a historia de Maria e José, pessoas pobres e comuns que vivem em Nazaré e empreendem uma longa viagem até Belém sua terra natal a fim de participarem do recenseamento ordenado pelo Imperador romano Cesar Augusto. Maria nessa altura já grávida havia recebido a visita do anjo, aparentemente um homem feito um mendigo.

No início do romance,  se o leitor for iniciante de Saramago, pode entediar-se um pouco, pois o relato da viagem cheio de minúcias toma boa parte da obra. O estilo de Saramago sem pontuação convencional talvez pareça um pouco confuso. Mas se insistir e deixar-se envolver pela narrativa, irá com certeza descobrir os encantos e a perspicácia das idéias saramaguianas. Os diálogos que fluem pelo texto são cheios de significados e muitas vezes permeados pela ironia e cinismo, típicos de Saramago - a quem muitos chamaram de SerAmargo, num trocadilho de palavras se referindo ao seu jeito mordaz e ácido, franco e direto de dizer e pensar as coisas.

O livro foi super polêmico, contestado pela Igreja Católica e grupos religiosos. A idéia do herói bíblico mais importante ser visto com qualidades tão prosaicas e mundanas fez ferver o sangue de muitos que viram como provocação e um atentado aos intocáveis e milenares dogmas cristãos.
Mas de qualquer modo seja o leitor um cristão, um judeu ou um ateu a idéia de ser Jesus (no caso apenas um personagem fictício) um ser comum, um simples mortal, não deve ser entendido como afronta a fé de ninguém, nem mesmo ofensa a crenças tão arraigadas. Independente de fé ou das crenças de cada um, Saramago deve ser lido como um autor de ficção (nesse caso). Aos mais sensíveis, aconselho que não se apeguem à crítica ao tema religioso como um fato em si mesmo, há muito mais na literatura do autor do que ridículas picuinhas religiosas.

*Entre 1992 e 2004 o livro causou o afastamento de Saramago de seu país.O então subsecretário de Estado da Cultura, Antonio de Sousa Lara (1992) veta o livro da lista de concorrentes ao Premio Literário Europeu. Segundo ele: "A obra atacou princípios que têm a ver com o património religioso dos portugueses. Longe de os unir, dividiu-os."
Saramago se mostra triste e indignado e parte para Lanzarote com sua esposa Pilar Del Rio nas Ilhas Canárias onde já alternava morada . Somente em 2004 após uma ação diplomática do primeiro-ministro Durão Barroso, Saramago se reconcilia com seu país.
*Saramago faleceu recentemente em 2010 na sua casa em Lanzarote.


 “José, Maria e o burro tinham vindo atravessar o deserto, pois o deserto não é aquilo que vulgarmente se pensa¸ deserto é tudo quanto esteja ausente dos homens, ainda que não devamos esquecer que não é raro encontrar desertos e securas mortais em meio de multidões.” 
O Evangelho Segundo Jesus Cristo, p 61.





                                           José Saramago, foto by Google Images



Romances
*Terra do Pecado, 1947
*Manual de Pintura e Caligrafia, 1977
*Levantado do Chão, 1980
*Memorial do Convento, 1982
*O Ano da Morte de Ricardo Reis, 1984
*A Jangada de Pedra, 1986
*História do Cerco de Lisboa, 1989
*O Evangelho Segundo Jesus Cristo, 1991
*Cadernos de Lanzarote (I-V), 1994
*Ensaio Sobre a Cegueira, 1995
*Todos os Nomes, 1997
*A Caverna, 2000
*A Maior Flor do Mundo (2001)
*O Homem Duplicado, 2002
*Ensaio Sobre a Lucidez, 2004
*As Intermitências da Morte, 2005
*As Pequenas Memórias, 2006
*A Viagem do Elefante, 2008
*Caim, 2009
*Clarabóia, 2010

Peças teatrais
*A Noite
*Que Farei com Este Livro?
*A Segunda Vida de Francisco de Assis
*In Nomine Dei
*Don Giovanni ou O Dissoluto Absolvido

Livros de poesia
*Os Poemas Possíveis, 1966
*Provavelmente Alegria, 1970
*O Ano de 1993, 1975




Saturday, 9 June 2012

Paisagens Simbolistas



                          In the Dust Storm, 1893. Jacek Malczewski.


Symbolism from VanGogh to Kandinsky
(no Van Gogh Museum até dia 17 de Junho 2012)


Os Simbolistas, em busca dos mistérios que habitam a alma humana

Como todo acontecimento ou movimento de novas idéias nas artes o Simbolismo aconteceu como uma reação, uma inquietação na alma dos artistas num determinado momento da história, final do século XIX. Afetados pelo seu tempo e pelas mudanças que vinham acontecendo, muitas em decorrência da Revolução Industrial - como a industrialização, o materialismo - os artistas se manifestaram tentando entender o mundo de outras formas e reorganizá-lo segundo novas perspectivas. O movimento simbolista aconteceu primeiro na literatura (poesia) e filosofia espalhando-se depois para as outras modalidades das artes: pintura, teatro, musica. A propósito, tem um forte link com a musica. As poesias de CharlesBaudalaire foram precursoras das idéias simbolistas e exerceram grande influência sobre a arte da época - e do século XX.
A maneira de pensar e expressar o mundo nas artes era até então de acordo com o Realismo/Naturalismo. Esses artistas tinham uma visão muito racional e objetiva nas artes e na vida. A arte era narrativa e expressava e espelhava a realidade sem a interferência da subjetividade do artista. Um excesso de objetividade, determinismo, racionalismo e positivismo. Assim um movimento contrário começou a nascer se opondo aos excessos Realistas/ Naturalistas. Sentimentos opostos fertilizaram grandemente nesse contexto, oportunizando o nascimento do Simbolismo. Os artistas passaram então a valorizar a subjetividade, o individualismo, a busca da espiritualidade, o místico e a intuição sobre a razão. O objeto de sua arte carrega o símbolo como conteúdo, ligando o mundo físico ao mundo abstrato. O símbolo faz a ponte que liga o humano ao transcendental, o abstrato ao concreto. Suas idéias partiam do princípio de que a arte deveria expressar os conteúdos latentes no ser humano, sua alma e os sentimentos que a povoavam. Acreditavam na busca do espiritual e das forças místicas que regem o universo, prevalece o onírico sobre o cotidiano e o real. O objeto de sua arte seja uma paisagem ou uma pessoa é muito mais sugerido do que mostrado, de forma imprecisa e vaga, obscuros, envoltos em neblina e mistério.
Os simbolistas usaram em seu repertório figuras da mitologia, seres andróginos, mulheres sensuais, paisagens oníricas quase abstratas, paisagens da natureza envoltas em mistério, cores diluídas, personagens místicos e míticos.
A exposição Dreams of Nature, Symbolism from Van Gogh to Kandinsky que acontece no Van Gogh Museum, traz as paisagens simbolistas como destaque.
Paisagens simbolistas do período de 1880 a 1810. Através das paisagens os artistas representavam suas idéias da morte, da vida, dos sonhos, do cosmos, etc. Odilon Redon, Munch, Böcklin, Whistler, Mondrian, Kandinsky,  Leon Bakst, Gallen-Kallela, Jacek Malczewski e muitos outros.  
As obras são impactantes, cheias de energia e mistério. A curadoria caprichou na escolha e nenhuma das obras fica a desejar em beleza, grandiosidade e poesia. O espectador não consegue ficar indiferente a nenhuma delas. Grandes, médios e pequenos formatos, todas de rara beleza e encanto.
Ao entrar na sala de exposição logo no início uma nova e atual proposta instiga ao espectador: ele é convidado a se utilizar de uma nova ferramenta do mundo virtual, o conceito de realidade aumentada. Mas o que seria isso? O mundo dos QRcodes que nos acessam à realidade virtual. Um pequeno texto na parede explica como fazer o download de um QRcode no seu smartphone e daí em diante scanear algumas obras que exibem seu QRcode junto delas. Assim o espectador tem acesso a mais informações sobre a obra e pode ouvir do seu smartphone duas músicas inspiradas na obra. Uma mais antiga e outra feita especialmente para a exposição.

A exposição está dividida em seis temas:

*Ancient and new paradises: inspiração na mitologia antiga, refúgios paradisíacos longe das cidades. Destaque para a obra Island of dead de Arnold Böcklin, ouça a música que acompanha a obra.
A obra de Leon Bakst Terror Antiquus de 1908 se sobressai logo no começo da exposição. Dimensões gigantes que nos engolem para dentro da paisagem - parece até um obra contemporânea. Terror Antiquus teve muitas opiniões diferentes sobre seu significado. A história da pintura relata que Leon Bakst visitou a Grécia em 1907 absorvendo toda sua cultura e história através da leitura de seus clássicos e da realização de desenhos dos monumentos e da natureza. Essa experiência foi fonte de recursos para a criação da obra. Descreve o naufrágio e a destruição de uma antiga cidade Grega (Atlantis) e seus habitantes. Bakst reproduz uma série de edifícios antigos - a Porta dos Leões em Mycenж, as ruínas do palácio de Tirinto e da Acrópole ateniense. Kore, uma escultura grega de uma jovem em pé - mitologia grega-  ou a Deusa Aphrodite, se levanta soberana e enigmática, impondo sobretudo e sobre todos o destino da humanidade.  Simbolicamente ela representa a extinção daquele mundo e seus valores.
Bakst ficou muito conhecido por seu trabalho com Sergei Diaghilev em seus Ballets Russes na produção de cenários e figurinos.





                                             Terror Antiquus, 1908. Leon Bakst.




                                The Island of Death, 1880. Arnold Böklin. 




*Nature and suggestion: paisagens internas, sentimentos sugeridos. Gallen-Kallela, Sohlberg and Hodler.

A obra de Kallela é o destaque de toda exposição (a fotografia que está no folder). Uma obra delicada e forte, atemporal, uma paisagem feita de silêncio. O espectador é sugado para dentro do infinito, vislumbrando apenas nos reflexos do céu na água. Nenhuma forma de vida, nenhum som se pode ouvir. Tudo é silêncio e abandono. Uma imagem que se abre para dentro de nós mesmos, tal qual o espelho, transcendendo a pura beleza e o poder da arte.


                                 Lake Keitele, 1905. Akseli Gallen Kallela.



*Dreams of visions: Gauguin, Munch, Malczewski.

O mundo que jaz na superfície das coisas, visões e sonhos.Destaque para a obra In the Dust Storm, 1893 de Jacek Malczewski.
 

A obra causa um profundo impacto quando nossos olhos repousam suaves sobre a imagem. A princípio nos sentimos num lugar além do aqui e agora. Um mundo distante, desconhecido, sem tempo nem espaço definidos. A imaginação corre livre pela cena. O impacto das figuras entrelaçadas num redemoinho amarelo, quente e abafado. Alheias à nossa presença, elas giram e levitam sob o solo seco e árido. De qual tipo de matéria seriam feitas ? Em que mundo habitam? As árvores ao fundo fixas e imóveis assistem ao acontecimento e também ao nosso estupor e encantamento diante da obra, sem nem ao menos nos darem alguma pista que possa nos levar ao encontro de alguma resposta. Objetivamente, a figura e identificada com Polônia, personificação do pais Polônia. Apoiada por seus filhos a Nação emerge como uma referência ao destino da pátria escravizada. Alternativamente a figura  feminina e identificada como Poludnica (Lady Midday) demônio perigoso dos campos, causando insolação e loucura.



                        In the dust storm.1893/94- Jacek Malczewski








*Silent cities: Whistler, Degouve, Nuncques.
As cidades como uma ameaça se tornam paisagens de sonhos e mistério vindas da imaginação do artista.
Casas silenciosas, feitas de penumbra e sonhos. Imagens que nos remetem a um profundo lugar dentro de nós mesmos, algo que jaz talvez esquecido nas sombras de nossos pensamentos, nas dobras do tempo. Mas os silêncios não são feitos de melancolia. São tecidos com o passar suave e monótono do tempo que toca suavemente a superfície das coisas sem alterar sua aparência nem mesmo sua essência. Uma ausência presente. A luz acesa que sugere uma presença, a vida que pulsa a despeito do vazio absoluto que povoa as ruas e os lugares.





                                A portal in Brugges. Fernand Khnopff.


                         Le lac d'amour in brugges. Fernand Khnopff.




                         Le quay in Brugges. Henri Le Sidaner.


*The cosmos: Van Gogh, Watts, Willumsen.
As forças da natureza, a energia cósmica, a eterna insignificância do homem diante da natureza.  
Destaque para a obra
"Sun Shining on the Southern Mountains" - Jens Ferdinand Willumsen.
A obra de grande formato, exige uma entrega do espectador. Ninguém passa indiferente por ela. Cheia de luz e significados que transcendem a imagem feita de tintas e tela. Algo além das montanhas, além do dourado luz filtrada pelas nuvens nos colocam numa posição diminuta perante os mistérios da vida e do mundo.
O clássico Van Gogh "The Sawer" também não fica por menos. Cheio da energia criativa e dinâmica do mestre. The Sawer é um emblema da vida e da mente tão conturbada do artista. Seu pai que fora um pastor protestante tinha com essa parábola uma ligação muito forte, a qual com certeza marcou Van Gogh para sempre.



                 Sun shining on the Southern Mountains. Jens Ferdinand Willumsen.





                         The wheatfield with reaper. Van Gogh.






                          The Sower. Van Gogh.


*Into the mystic: Whistler, Signac, Mondrian, Kandinsky. A expressão do sublime e do espiritual, conexões com a música, primeiros passos rumo à abstração. Destaque para a obra Nocturne in Blue and Green, de Whistler.
 


              Nocturn in blue and green. James McNeill Abbott Whistler




                         Nocturne in grey and silver. Whistler.



*A curadoria da exposição foi realizada por Richard Thomson e Rodolphe Rapetti, especialistas na área de pintura de paisagens e Simbolismo.   
*Dreams of Nature - Symbolism from Van Gogh to Kandinsky
Exposição no Van Gogh Museum em Amsterdam
Até 17 de Junho 2012
A exposiçao acontece na Ehxibition Wing na parte de baixo seguindo as escadas rolantes à direita, assim que entramos no museu (apos o controle de raio x)
O museu está aberto diariamente da 10am às 6pm e às sextas até as 10pm.