Monday, 15 February 2010

Hendrick Avercamp


   Winter landscape with skaters, cerca 1608.

Os invernos amorosos de Avercamp

Acontece no Rijksmuseum a exposição de Hendrick Avercamp - The Litlle Ice Age, considerado o mais importante pintor de paisagens invernais da Holanda do século 17.
Avercamp especializou-se nesse tipo de paisagem após 1600, criando um gênero independente de pintura de paisagens, muito típicas daquele período em que os invernos eram muito mais rigorosos do que agora. Narrativas completas, repletas de diferentes personagens e situações, verdadeiros acontecimentos sobre o gelo.
Descrevem o fascínio que o gelo exerce sobre a sociedade holandesa desde séculos até hoje em dia e mais do que tudo celebram a resistência desse povo ante as intempéries da natureza.

Aparentemente as paisagens de Avercamp são simplesmente bucólicas, divertidas e delicadas, alegres ao olhar.
Mas a uma observação mais detalhada vão se revelando e se mostrando cheias de segredos e surpresas. Verdadeiros acontecimentos pictóricos.
Centenas de personagens preenchem as paisagens de Avercamp, retratando os hábitos e costumes de um período longínquo na história, onde somente através de suas imagens se tem acesso aquele momento. Cada figura tem igual importância e uma história própria a contar: uma anedota, um estilo, uma atividade ou simplesmente um momento de lazer e descanso sobre o gelo.
Tudo na paisagem tem igual importância e dignidade: as pessoas, as crianças, as árvores, o gelo, as montanhas ao longe, as casas... tudo está situado dentro do mesmo universo e cada elemento realiza sua função simplesmente.
As obras exigem uma dedicação especial, certo tempo de observação e concentração para descobrir todos os elementos de que se compõe. 
O olhar vai percorrendo a superfície, seguindo os caminhos que o artista propõe, num jogo intrincado de esconde e revela quase uma brincadeira de criança. Vai-se descobrindo em cada trecho do caminho diferentes cenas, diferentes figuras: um aristocrático casal patinando alegremente, um homem fazendo “suas necessidades” lá econdidinho, outro que cai no chão e outro que carrega lenha para casa, uma mulher que lava roupa na água congelada do canal e assim por diante.
Mas esse é o lado visível da pintura...
Fazendo outra leitura, mais sensível e subjetiva, o artista nos revela seus segredos. Um olhar generoso e perspicaz - diz-se que Avercamp era mudo, e assim desenvolveu um talento especial para observar - trata a todos com equidade: pobres e ricos, camponeses e aristocratas, crianças e adultos, velhos e jovens, todos fazem parte do mundo festivo do artista, e todos tem o mesmo cuidado e atenção.
Apesar do aspecto frio e gelado que evocam cenas de inverno, tudo se mantém agregado numa atmosfera acolhedora, quente, amigável. À maneira de Avercamp, ele vai distribuindo as cores de modo a criar essa sensação de presença e calor que provém de tudo e de todos, harmoniosamente.
Alguns azuis aqui (usados de forma magistralmente inusitada), muitos amarelos misturados, ocres calorosos.
E os rosados... Ah, os rosados de Avercamp! São a alma por trás de toda a pintura.Através dos rosados o artista nos provoca sentimentos delicados, amigáveis e nos sentimos próximos daqueles seres tão distantes no tempo. 
 A perspectiva de Avercamp (usada nos mínimos detalhes) vai além da sensação propriamente física de profundidade, nos arrebata num mergulho ao infinito, pra dentro de nós mesmos, juntamente com seus céus, rarefeitos, sutis, que se evadem do espaço da pintura, nos carregando pra outras dimensões.
Assim, sua paisagem vai se compondo, construindo um espaço aqui dentro, afirmando mais uma vez a beleza e o alcance que a arte pode ter.

        Hendrick Avercamp (Netherlands1585 –1634)
          The Litlle Ice Age
       Rijksmuseum, Amsterdam-Netherlands
      Jan Luijkenstraat 1, Amsterdam
Em Amsterdam:
A partir da Central Station: tram 2 ou 5 (p/ Hobbemastraat)
A partir da Zuid/WTC Station: tram 5 (p/ Hobbemastraat)
A partir da Sloterdijk Station: tram 12 (p/ Concertgebouw)
A partir da Amstel Station: Metro p/ Weesperplein, a partir daí tram 6, 7 ou 10 (para Spiegelgracht)
A partir do terminal de ônibus regionais na Marnixstraat: ônibus 26, 65, 66 ou 170 (ou a 10 minutos caminhando)
Você também pode pegar o Canal Bus!
  
· No século 17, durante determinado período, o norte da Europa Ocidental sofreu uma série de invernos, excepcionalmente rigorosos, conhecidos como "The Litlle Ice Age".    

    Enjoying the Ice - c. 1630-34 /Oil on canvas;25 x 37,5 cm


   Winter Landscape with Iceskaters(detalhe) / Oil on panel;87,5 x 132 cm, cerca de 1608.  
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Friday, 5 February 2010

MIRÓ, E AS CORES DA ALMA

                                          Andorinha do amor, 1934.

Miró, e as cores da alma

“Tudo vem do visível. O objeto atrai o meu interesse cada vez mais, mesmo que sirva apenas de ponto de partida. Não há nada de abstrato nas minhas obras!”.
Erben, Walter. Miró o homem e a obra; Ed. (Taschen; p. 4

Miró foi meu primeiro grande amor nas artes, algo que me tocou profundamente e causou um forte impacto na minha percepção estética. O caminho do aprendiz...
Entrar em contato com sua obra foi uma porta escancarada para o mundo da arte e ao mesmo tempo um aprendizado totalmente novo na maneira de ver e sentir o mundo e as coisas que me cercam. As imagens me capturaram pra dentro de um mundo cheio de possibilidades. Anos mais tarde quando me deparei com uma pintura de Miró, ao vivo e a cores fui novamente arrebatada. Só que agora o encantamento foi maior: em escala, dimensão, sentimento emoções e entendimento também. Estar diante de uma obra de Miró é estar diante de si mesmo, naquilo que a gente tem de melhor, da capacidade humana de transcender. 
De fato sua obra carrega o mistério das coisas encantadas, mágicas e perturbadoras. Aquilo que nos instiga, impulsiona um querer sempre mais e mais.
Aproximar-se delas, requer um gesto delicado, amoroso e lento. Aos poucos se vai percebendo as formas, as cores, os movimentos existentes. Sua natureza fantástica vai nos envolvendo e nos comprometendo passo a passo, e não queremos mais sair dalí. Todo o seu conteúdo simbólico vai se revelando conforme a nossa aproximação e interesse. Suas imagens falam ao nosso inconsciente e delas ecoam significados e mensagens latentes no fundo de nossa alma. São simbolos universais.
Os acontecimentos nas suas pinturas pertencem a um universo onírico. Rico de detalhes e personagens que dançam a musica cósmica de todos os tempos.
Choram e sorriem, falam de amor e de opressão, de silêncios eloquentes e de poesias estelares, de planetas distantes habitados por seres de luz e sol
Vão se revelando aos poucos, lentamente e ressoando todo o universo contido naquelas imagens.

Miró falou de coisas humanas, diretamente para a alma humana.  
Com grandeza, simplicidade e sabedoria. Através de todos os seus saberes, sua origem, seus "pertences" subjetivos, criou uma obra que nos aproxima mais de nós mesmos.
                                Azul II, 1961


Miró nasceu em Barcelona, embora vivendo lá por um longo período, não teve sua infância confinada a cidade grande. Seus avós maternos viviam em Maiorca e outros familiares em Tarragona. Mais tarde, quando ele tinha dez anos, seu pai comprou um sitio em Montroig, portanto ele sempre teve uma relação muito profunda com a natureza, especialmente com sua paisagem natal.. Viveu e trabalhou na mesma casa até que se mudou para Maiorca.
Durante sua infância pintar e desenhar eram atividades freqüentes e condizentes com seu temperamento sensível e silencioso. Os fantásticos romances de Julio Verne eram suas leituras preferidas. Seu pai era ourives e joalheiro e tinha como passatempo a astronomia, interesse que passou para o filho, através da observação direta das estrelas, num enorme telescópio que tinha em casa.
Aos 14 anos Miró teve que se confrontar com a escolha de uma profissão, decidindo então estudar na Escola de Belas Artes de Barcelona. Permaneceu durante três anos na escola. Mas durante esse período teve muitas dificuldades devido à constatação de que não poderia progredir na evolução de sua pintura dentro do perfil acadêmico da instituição. Desde o início estava indelével na sua personalidade o caráter livre.
Mas a dificuldade que encontrou só serviu para estimular ainda mais sua forte vocação para as artes e ir ao encontro da descoberta de seu próprio processo através do contato solitário com a natureza e com seu próprio trabalho.
A certa altura, porém, os pais de Miró decidiram interromper seus estudos na Escola de Pintura, argumentando sobre as dificuldades do filho em relação a sua linguagem pictórica.
Em 1910, Miró começa a trabalhar como ajudante de escriturário. Mas a experiência mostrou se desastrosa e só reforçou seu talento e vocação para as artes.
Em 1911, Miró adoeceu e foi para Montroig no sítio da família a fim de se convalescer. Durante esse período retoma seus estudos de artes e volta a pintar. No ano seguinte decide se dedicar completamente a sua pintura e retoma seus estudos na Escuela de Artes de Francesco Galí onde permanece até 1915.
O ambiente de Barcelona já tinha os rastros de Gaudí, Picasso e Gonzalez, com sua forte presença. Assim a partir desse momento Miró decide fazer seu próprio caminho como um artista livre, sem nada a seguir. Pelo contrário, abrir seu próprio caminho através da criação de uma linguagem muito particular.
Desde o início suas pinturas apresentam a qualidade intrínseca a toda obra de arte.
Segundo Walter Erben: “...o que estas obras tem de notável é que elas não narram a evolução de uma inabilidade inicial, até o domínio cada vez mais seguro das ferramentas do ofício – como seria de esperar de um jovem pintor.Todas elas são por direito, obras acabadas”. (Erben, Walter. Miró o homem e a obra, Ed. Taschen; p.140).

Miró abriu sua própria estrada e construiu sua própria linguagem. Mais do a liberdade que a arte moderna propiciava e seu caráter revolucionário naquele momento, o que realmente interessava a ele era a possibilidade de expressar o rico universo de sua terra natal. As ruas de Barcelona, os museus, as igrejas, casas, os apetrechos que o rodeavam, a arte popular.
Mirò sempre enfatizou que tudo que existia em suas pinturas eram coisas reais, que ele enxergava ao redor de si:

“Tudo o que se vê nos meus quadros existe” (Joan Miró)


             Joan Miró, fotografado por Arnold Newman, Maiorca 1979

Friday, 29 January 2010

Holanda, o país das águas


                                 Zaanse Schans, Nederlands. Foto by Monica Cella
                       

Holanda, o país das águas


Holanda da Golden Age, de Rembrandt e Van Gogh, da Cia das Indias Ocidentais...
Holanda dos diamantes e das tulipas, de Piet Mondriaan e suas paisagens de linhas retas e cores primárias, ordem e harmonia.
Holanda das águas...
Imagens recorrentes na cultura dos Países Baixos (termo correto para a Holanda).
Porém algo está faltando, algo que chama rapidamente a atenção de quem mora aqui. A natureza e suas paisagens aquáticas e geométricas. Compostas com ordem, ritmo e harmonia.
Vistas do alto são formadas por quadrados, retângulos e tiras de diversos tamanhos. Grandes áreas verdes de todos os tons possíveis, ocres, marrons e beges. Um deleite pra um olhar atento e sensível, algo como apreciar arte. Um jogo de cores que se situa entre as luzes de Rembrandt e as cores de Van Gogh.Remete diretamente a Mondriaan e assim fica claro de onde vem sua obra ordenada e metódica.
São os famosos polderes holandeses. Uma característica tipicamente local, não tão popular quanto tulipas, bicicletas ou tamancos de madeira, mas infinitamente mais importantes e vitais.
Polder não é uma palavra muito conhecida, especialmente pra quem vem (como eu) de um país como o Brasil com território gigantesco e muito longe desse tipo de problemas.
Mas a curiosidade me move, e fui atrás para saber um pouco mais sobre o mundo das águas dos holandeses, seus polderes, diques e barreiras.
Os polders são uma construção tecnológica, uma obra de engenharia hidráulica, que juntamente com os diques e barreiras salva a Holanda da inundação pelas águas.

È isso mesmo, inundações!



     Imagem aérea dos polderes holandeses- photo by  Peter van Bolhuis - http://petervanbolhuis.nl/  -      http://www.pandion.nl/ 


                                                       
                                                                                         
Grande porção de seu território está abaixo do nível do mar o que o torna vulnerável as mudanças do clima, sobretudo de tempestades, chuvas, provocando transbordamento de rios e marés altas.
Há muitos anos atrás quase toda a região ocidental era praticamente tomada pelas águas.
Ao longo do tempo o mar invadiu repetidamente suas terras, causando estragos, perdas e desastres. Para se proteger e alargar as áreas férteis foram construídos diques e polders.
No século XI os diques serviam apenas para fazer uma barreira contra a invasão das águas marinhas.
Mais tarde entre os séculos XV e XVII foi iniciada a construção de inúmeros diques a fim de protegerem a costa das águas do mar, e desse modo possibilitar o cultivo dessas terras.
Sem dúvida, uma marca tipicamente holandesa e que merece destaque e louvor é a luta desse povo contra as águas. O desenvolvimento do país teve como determinante a questão das águas e tudo por aqui, da cultura a economia, e até mesmo o caráter nacional, passa por essa questão.
Após a conclusão dos diques foi necessário enxugar as terras tomadas ao mar, para esse fim então foram utilizados os famosos moinhos de vento holandeses, que bombeavam a água de volta para o mar. Faziam o trabalho de secagem das terras, nascendo assim os polderes, que nada mais são do que fatias de território tomadas do mar, (de rios, lagos ou lagoas) e drenadas a fim de serem cultivadas pelo homem. A drenagem também era feita através de canais transversais, sendo estes a característica forma da paisagem local.
O ano de 1916 marcou definitivamente o futuro dos Países Baixos. Uma grande enchente na região de Zuiderzee (Mar do Sul, que é atualmente o lago de água doce Ijsselmeer),determinou implementação de um projeto que há tempos esperava por concretização. A construção do grande dique Afsluitdijk que separou o Noordzee (Mar do Norte) do Zuiderzee e ligou as duas províncias, Holanda do Norte e Frísia. O dique tem 32 km de comprimento, está 7,2 m acima do nível do mar e sobre ele passa uma auto-estrada com duas pistas e uma ciclovia.




                    Afsluitdijk, o Grande Dique construído entre 1927 e 1933
                    (foto do google maps: www.placemarketing.nl



 No ano de 1953 houve outro acidente climático, grandes inundações onde as marés altas e um furacão destruíram  um dique de proteção no sudoeste do país (onde se encontra o delta dos rios Reno, Escalda e Mosa) causando a morte de milhares de pessoas e destruindo mais de 160.000 hectares de terra.
O fato foi determinante para que as autoridades revissem o sistema de proteção, empreendendo o maior projeto hidráulico de contenção das águas.
O Projeto Delta (Deltawerken).
Demorou 30 anos para efetivarem completamente o projeto composto por várias obras.
Como o fechamento das saídas para o Mar do Norte com a construção de numerosos e potentes diques e encurtou a costa em 700km. Por outro lado possibilitou a criação de uma rede de transportes que inclui rodovias, pontes e barragens facilitando a comunicação entre a região e diversas cidades dos Países Baixos.
Atualmente a Holanda conta com um  sistema especial de controle das águas chamado Waterschappen ou Hoogheemraadschap. São conselhos sobre o gerenciamento das águas em todo território holandês, onde são mantidos sob controle diário, o nível das águas dos canais, polderes, controle de diques, e de todo os sistema de proteção existente.
O controle das águas marca profundamente o caráter dos holandeses, sua vida diária é influenciada por essa questão tão presente na história do País. Os polderes fazem parte do patrimônio holandês e assim se constitui uma de suas preciosas riquezas, não só pelo orgulho nacional de vitória contra as forças opressivas da natureza, mas como algo incorporado no inconscente coletivo de todos.

*Abaixo esquema do posicionamento geográfico do Grande dique Afsluitdijk.

As partes em verde claro são o território já existente antes da interferência, as partes em verde escuro, as novas áreas adquiridas do mar (polderes); laranja claro as cidades que já existiam; laranja forte as novas cidades. Acima à esquerda, em azul claro o Mar do Norte e em azul escuro o Mar do Sul que agora se tornou uma lagoa de água doce (Ijsselmeer).





                                         photo from : http://www.zeeburgnieuws.nl/



*Polderes e seus campos de tulipas cortados por inúmeros canais de drenagem. 


Photo by Martin Kers- http://www.martinkers-foto.nl/



                          Zaanse Schans, Nederlands -  photo by Monica Cella


Sites de pesquisa:


* Os créditos da fotos estão no rodapé das mesmas, algumas retiradas do site Polders the scene of Land and Water (o primeiro da lista abaixo)
Some photos are from Google images with the respective credits to the authors



Curiosidades:
  • O nome correto em português é Países Baixos (Nederland, em holandês).  O termo Holanda é incorreto, mas popularmente usado para se referir ao país. Na verdade é o nome de 2 regiões: Noord Holland e Zuid Holland
  • A Holanda tem mais de 3.000 polderes
  • O aeroporto de Schiphol, em Amsterdam está a 4,5 metros abaixo do nível do mar;
  • Muitas cidades, praças, rios e lagos represados têm no nome uma referência a água: Amsterdam, Rotterdam, Dam Square - Dam=dique
  • A arquitetura tem forte influência da "questão polder", isso se reflete na forma dos prédios, ruas e casas através do padrão, do ritmo evidente em sua disposição;
  • Fala-se no "Modelo Polder holandês" se referindo ao processo de organização e método na resolução de todo e qualquer assunto: tudo é discutido antes e ouvidas todas as partes em questão;
  • A palavra polder em holandês é usada como referência a todas as coisas típicas holandesas;
  • A autoria do projeto do dique Afsluitdijk é de Cornelis Lely;
  • A província de Flevoland passou a existir somente após o ano de 1949,
  • A natação é um esporte presente em todas as escolas. Num determinado ponto do aprendizado as crianças começam a prática vestidas, experenciando técnicas de salvamento;
  • Golden Age foi um período na história dos Países Baixos entre 1500 e 1700 em que o país se tornou um potência destacando-e no comércio, cultura, ciências.


Amst, 29 de Janeiro 2010.

Saturday, 19 December 2009

pensando sobre os ciclos


...uma nova etapa que se conclui, um novo ciclo que recomeça, um momento de refletir, ou apenas um período comum em que a troca de data, é apenas uma mudança no calendário.
Todo final de ano é assim, não importa a crença, a cultura ou o modo de ser, paira no ar uma energia diferente. Algo quase físico. Como se uma grande porta invisível manipulada por uma grande mão também invisível, existisse num tempo logo ali na frente...
Como se, de repente nos déssemos conta de sua presença e todos juntos, em um grande movimento uníssono caminhássemos na sua direção na grande expectativa de atravessá-la.
Eu particularmente acredito nos ciclos pessoais de cada indivíduo, em mudanças decorrentes de ciclos que se completam e que recomeçam, de acordo com a história de cada ser.
Mas também não posso ignorar que nesse período do ano, a energia coletiva de crença em mudanças representa uma força significativa na roda que gira o mundo. O inconsciente coletivo tem um papel importante na criação e elaboração dos mitos, daí a crença em mudanças na virada do calendário por exemplo. Muitos abrem o ano novo com ritos, tradições, práticas, ou toda sorte de amuletos, na tentativa de manipular "a distância" um tempo que ainda não chegou. Todo o pensamento se volta pra algum momento no futuro, algo que se projeta pra frente, se desloca do aqui e agora e as esperanças no melhor são o único sentimento que liga os dois tempos: presente e futuro. Apesar de ver um lado positivo nesse pensamento-comportamento, que é a energia para o bem, o astral elevado, os sentimentos confiantes, a reflexão e análise que muitos elaboram a respeito do tempo que recém passou, numa perspectiva de reelaborar o crescimento pessoal. Os ritos que muitos realizam tem a função muitas vezes de organizar psiquicamente a vida. Se preparar pra continuar a jornada. A vida é um rio, que flui ininterruptamente...
Por outro lado, quando s expectativas existem sem a contrapartida da reflexão, está implícito também, uma certa falta de compromentimento com as próprias atitudes e sua responsabilidade em atuar de fato na sua vida, porque colocando todas as possibilidades num futuro incerto, uma parte do ser deixa de estar presente e atuante naquele momento.Como se os planos fossem de fato se realizar, bastando para isso "atravessar a porta".
A minha reflexão não tem a intenção de ser condenatória desse ou daquele comportamento, mas somente de sugerir uma nova possibilidade do olhar, diga-se o "meu" olhar, como tantos outros olhares diferentes que existem de igual valor.
Refletir é uma ação do pensamento que se feita com honestidade e clareza, sempre produz bons resultados, a respeito do presente do passado ou futuro.



Amst, 19 dez 2009

Thursday, 19 November 2009

SINTERKLAAS




foto by Monica Cella


Uma estória sobre o Natal...


Nessa época do ano inevitavelmente a gente mergulha num clima diferente, de cores, sabores, cheiros e costumes. Vivendo num país onde o frio é presença constante nesse período tudo isso se intensifica e o Natal ganha ares de conto de fadas, com todos os ingredientes necessários pra encher o dia a dia de calor e poesia.
Caminhar pelas ruas é um estímulo aos sentidos, barraquinhas de oliebollen com aquele cheirinho típico (uma espécie de bolinho de chuva, donuts ou sonho) se espalham pela cidade, enfeitando e alimentando o corpo e o coração. Decorações festivas, vermelho, verde e dourado, luzes piscando, vitrines enfeitadas vestem roupa de festa e se preparam com tudo o que tem de melhor enchendo os olhos dos passantes, roubando seus desejos e invadindo seus sonhos.
As lojas abastecem seus estoques com produtos típicos da data: chocolates em forma de letras, bonecos do Sinterklaas, do Zwart Piet, fantasias para as crianças, que esperam ansiosamente pelo dia certo pra colocar o sapatinho na porta de casa, junto com uma cenourinha pro cavalo do Sinterklaas segundo a tradição na Holanda.
A imaginação corre solta por caminhos de fantasia e vai construindo contos, revivendo estórias, relembrando momentos...
Adultos e crianças caminham lado a lado, braços dados, coração batendo forte, se encontram num momento mágico de poesia, sem tempo nem espaço, chamado infância.
O frio vai chegando lentamente envolvendo tudo e todos ao seu redor. Chuva, vento e neve... A natureza adormece compassiva por um longo período de inverno, de recolhimento. 
Convidando a todos a mudar o curso, desacelerar o passo.
Ficar em casa se torna o programa mais prazeroso. Ah, o aconchego do lar! aquece o corpo e a alma. As pessoas tendem a procurar a companhia uns dos outros com mais freqüência, todos tem mais tempo pra ficar juntos, compartilhar coisas e sorrisos. Alimento, boa conversa uma bebida quente, um cobertor macio, ficar em torno do fogo, procurar chamego.
Natal e frio combinam, uma dupla perfeita, os sentimentos que conectam ambos falam a mesma linguagem. Reflexão, proximidade, calor, aconchego, recolhimento. 
Pra mim pelo menos Natal é tempo de energia positiva no ar. Cresci com essa atmosfera dentro de casa. Sempre ajudando minha mãe montar a árvore de Natal, decorar a casa, preparar as comidas, receber com carinho e coração aberto a família toda e alguns amigos também. Tempo de alegrias e risos de crianças espalhados pelo ar.
Apesar do apelo comercial da data  acredito que ainda existe espaço para sentimentos mais humanos. 
A mensagem subliminar de todo o acontecimento que é o Natal é uma mensagem positiva, de esperança e humanidade, de que ainda é possível acreditar.

Diz a história...

... que a muito tempo atrás em 275 a.C na antiga cidade de Patara, na costa da Licia, atual Turquia, nasceu Nicholas, filho de família rica teve uma educação religiosa dentro da fé cristã. Seus pais morreram numa epidemia quando ele era muito jovem ainda e Nicholas seguindo as palavras de Cristo: “vende o que tens e dá o dinheiro aos pobres” decidiu distribuir aos carentes e necessitados toda a herança recebida, de modo discreto a fim de que ninguém soubesse. Ficou conhecido por sua generosidade e dedicação aos humildes. Dedicou sua vida a causa dos necessitados. Tornou-se Bispo de Myra ainda muito jovem. Sob o Império de Diocleciano, foi perseguido e preso. Muitas estórias são contadas a respeito de seus milagres. A mais conhecida é a de um pai que tinha três filhas, e sem ter o devido dote para oferecer aos pretendentes a marido, temia ter que oferecer as filhas para serem vendidas como escravas. Assim misteriosamente apareceram em três ocasiões diferentes, três sacos de ouro, que teriam sido lançados para dentro da casa por uma janela aberta. Supõe-se que o saco teria caído dentro de uma meia ou sapato que naquela época eram colocados perto da lareira para secar. Daí vem à tradição de colocar meias penduradas na lareira ou sapatos na porta de casa á espera de presentes. O tempo passou e o jovem ficou conhecido como Saint Nicholas, místico-mito-lenda-ou-verdade que atravessa séculos e mantém até hoje milhares de pessoas em comemoração pelo mundo, enaltecendo sua imagem através da fé ou de ritos e tradições.
Faleceu em 6 de Dezembro em 343 d.C em Myra. Nessa data ou no dia anterior em alguns lugares é comemorado seu dia. Dessa “lenda” nasceu o Santa Claus, que por sua vez serviu de inspiração para a invenção do Papai Noel (esse criado por um publicitário norte americano apenas com o intuito de incrementar as vendas do comércio).

As diferenças entre os dois personagens, no entanto é curiosa...

*De Papai Noel (Santa Claus) diz-se que vem pelos ares, voando do Pólo Norte. 
Saint Nicholas ao contrário caminhou sobre a terra ajudando quem mais precisava.
*Papai Noel pertence a um momento da vida, a infância. Saint Nicholas é pra toda a vida, um símbolo de fé e de esperança no humano.
*Papai Noel foi inventado pra incrementar as vendas do comércio. Saint Nicholas viveu uma história de amor, paz, generosidade e abnegação em favor dos humildes.
*Papai Noel incentiva o consumo, Saint Nicholas encoraja a compaixão.

Interessante notar o culto a personagens tão diferentes em culturas também distintas.
Nosso Papai Noel no Brasil foi “importado” dos Estados Unidos onde tudo começou tendo como inspiração Saint Nicholas. Os imigrantes holandeses quando foram para a América levaram junto a tradição de Sinterklaas (Saint Nicholas).
Nos Países Baixos (Holanda) a tradição é mantida através do Sinterklaas. Porém a história toda ganha incrementos de fantasia e pitadas surreais: aqui o Sinterklaas vem da Espanha num navio a vapor juntamente com seus ajudantes chamados de Zwart Piet. Figuras em roupas medievais com o rosto pintado de preto, boca vermelha e brinco de argola - talvez uma referência a fuligem da chaminé, alguns dizem que eles são descendentes dos mouros.
No dia 15 de Novembro Sinterklaas chega em muitas cidades abrindo oficialmente a temporada de Natal e de férias. Desfila pelas ruas em seu cavalo branco tendo seus ajudantes sempre ao lado jogando biscoitos de canela para todos. Os Zwart Piets são muito brincalhões e na verdade existem tipos diferentes: o sábio, o maroto, o gozador, o atrapalhado, etc. 
É um momento muito comemorado e festejado por crianças e adultos. 
A data principal do Natal é dia 5 de Dezembro quando festeja-se com uma celebração em família e acontece a troca de presentes acompanhada com poemas e versinhos. Algo como um amigo secreto porém sem revelar a identidade do amigo. Através dos versos escritos (especialmente para cada pessoa de acordo com seu jeito, estilo e personalidade e com uma pitada de humor) cada um tem que encontrar seu presente. O importante não é o valor do presente mas sim a troca de versos e a comemoração. As crianças na noite anterior colocam um par de sapatos na porta de casa junto com uma cenoura ou açúcar pro cavalo do Sinterklaas e assim esperam ganhar doces e presentes no dia seguinte.
Também é tradição na Holanda presentear uns aos outros com letras de chocolate com a inicial do nome. Anualmente milhares de letras são vendidas mantendo a tradição firme e forte. Ah! e os cartões:aqui como em nenhum outro lugar, eu acredito, tudo é comemorado com o velho e bom cartão...de papel.

Pesquisa feita no site Saint Nicholas Center









*fotos by Google imagens