sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O BLOQUEIO CRIATIVO




"Sometimes when I'm empty, when words don't come, when I find that I haven't written a single sentence after scribbling whole pages, I collapse on my couch and lie there dazed, bogged in a swamp of despair , hating myself and blaming myself for this demented pride that makes me pant after a chimera. A quarter of an hour after, everything has changed, my heart has pounding with joy."


Gustave Flaubert

"Às vezes, quando estou vazio, quando as palavras não vêm, quando eu acho que não escrevi uma única frase depois de rabiscar páginas inteiras, desabo no meu sofá e deito-me atordoado, atolado num pântano de desespero, me odiando e me culpando por esse orgulho demente que me faz bocejar depois de uma quimera. Um quarto de hora depois, tudo mudou, meu coração bate de alegria."







As palavras acima do escritor Gustave Flaubert descrevem com precisão o estado de alma dos artistas quando atravessam um momento de vazio criativo. Condição inerente a criação de qualquer tipo de arte, o bloqueio criativo é a angustia maior de todos aqueles que criam. Seja pintura, literatura, musica, dança ou todo processo que envolve a criação de algo através da imaginação. O fantasma que habita a alma de cada artista.
Não importa qual o processo criativo eleito, mesmo os mais racionais que trabalham a sua arte com planos previamente organizados, sentem uma vez ou outra essa ausência de ideias ou uma angustiante sensação de não conseguir organizar e por em pratica o que se passa dentro da sua cabeça, no mundo da imaginação.

O grande mestre do cinema Federico Fellini usou o bloqueio criativo como alavanca e motor para criar uma de suas obras primas, Oito e Meio (1963). O filme já tinha financiamento, elenco contratado e pasmem, nada de roteiro. Fellini em meio ao caos e desespero de assumir a falta de ideias, teve uma saída grandiosa, uma fresta se abriu ao mundo mágico da sua imaginação. Usou a sua própria situação como matéria bruta para o desenvolvimento do roteiro, que fala do personagem Guido Anselmi um famoso cineasta que se encontra em plena crise criativa. O filme mistura o mundo onírico, fantástico e o mundo real de Guido revelando os percalços pelos quais a mente criativa percorre nos enviesados labirintos do território imaginativo e fantasioso dos artistas. A dor e agonia pela qual os artistas e criadores passam vez ou outra. Mestre é mestre e Fellini até mesmo na aridez mental conseguiu criar uma obra e tanto.







O processo criativo em si mesmo é um caminho tortuoso -  doloroso muitas vezes, porque esta além do controle intelectual. Uma viagem absolutamente não linear. Uma jornada ao encontro de algo desconhecido e fragmentado até então.  O mundo imaginativo dos artistas é  um espaço abstrato, complexo e indefinido por natureza. A soma de todas as suas vivencias, experiências, pensamentos e sentimentos entrelaçados entre si. O caos é  sua essência. Acessar esse espaço caótico e complexo,  (re)arranjar e (re)articular seus conteúdos é a tarefa do artista.  De modo que façam algum sentido, simbólico, intelectual, espiritual ou seja lá o que for.

Na verdade são como inúmeros pontos dispersos num campo aberto mas de alguma maneira conectados entre si. Encontrar essa conexão, dar liga aos elementos diversos que os compõe é a natureza intrínseca da criação de toda obra de arte. Convenhamos que não é algo assim tão simples de realizar e materializar - ate atingir o resultado final. 
Bloqueios temporários fazem parte da nossa condição humana e imperfeita. Nos apontam que somos assim mesmo, seres em constante evolução sujeitos a tormentas e inquietações o que nao significa necessariamente algo negativo.  Às vezes (ou muitas vezes) é através dessas inquietações e desse desassossego que nossa alma encontra as respostas que buscamos. Outras vezes esse momento difícil nos ajuda a sairmos da zona de conforto e de caminhos já antes percorridos. Velhas formulas já testadas, conceitos decorados, ideias desgastadas pelo uso repetido.   
Na verdade assim também funciona na vida da gente. Os momentos de desconforto, angustia e aflição servem como alavancas que nos impulsionam para novas possibilidades, basta nos permitirmos entrar no fluxo e abrirmos a mente e o coração.




P.S. Meu querido amigo artista Rodrigo Tessaro me escreve seu ponto de vista sobre o que falei acima. Reposto aqui a troca de mensagem entre nós dois como uma maneira de enriquecer o texto e dar mais vida as palavras...

Moniquete! Muito bom compartilhar ideias!
Preciso discordar de uma coisa: bloqueio criativo. Na verdade, estou me baseando em mim mesmo. Acredito que passamos por momentos não muito criativos por não estarmos criando com pincéis, tintas etc., mas o tempo todo estamos substituindo esses meios através de fotografias de uma simples ou deslumbrante paisagem, admirando um céu azul cobalto ou um pôr do sol com toda a variedade de cores indescritíveis, enfim, a contemplação. Pra quem observa, não é preciso muito mais... O que tem acontecido comigo é que estou meio cansado de repetir a mesma coisa, as mesmas figuras apenas em situações diferentes. Resolvi, então, estudar algumas técnicas. Ah! E comprar materiais de excelente qualidade e grande diversidade: aquarela, guache, óleo, acrílica, grafites e outras minas como sépias e pretos. Nossa! Como isso resolve muita coisa. Cores transparentes, opacas, frias, quentes, marrons, cinzas que só se consegue através desse tipo de material. O suporte, o pincel (!!!) quando são de uma matéria prima de primeira causam um efeito tão surpreendente que... sem palavras. O problema da técnica pura e simplesmente é a falta de possibilidade de criar. Parece-me que estou simplesmente copiando, mesmo que o resultado seja agradável. Mas, conhecer, testar, experimentar, estudar, pôr em prática vai abrindo um canal que antes era impensável. Certa vez, na Belas, alguém durante uma aula de pintura disse que não conseguia pintar nada, que não fluía e você retrucou: quando não tenho nada para pintar, já tenho um ponto de partida! Achei incrível e nunca esqueci. Entendo que quem vive da arte para pagar aluguel, comer, vestir, estudar etc. passa por esse percalço. Não deixa de ser um bloqueio, é verdade! Talvez por isso, gosto da minha situação de não depender da pintura pra viver, mas seria uma vida sem graça (acho) viver sem pintar, apreciar, contemplar. Aprendemos muito através do simples olhar... do olhar simples que a grande maioria não tem ou não presta atenção.
Beijos. Saudade!
 

Digo querido, adorei ver seu comentário...

Concordo totalmente quando você diz que estamos criando o tempo todo, comigo acontece muito isso. Seja através da contemplação de algo, ou mesmo através do nosso olhar cotidiano que reordena as coisas ao nosso redor, recriando-as de um outro modo de acordo com nossa percepção. Ou simplesmente através da elaboração das nossas próprias ideias e opiniões. Mesmo que tudo isso se passe no plano abstrato, no reino da imaginação...estamos sempre criando!
Mas esse momento do qual falo em que o artista se depara com algum desconforto criativo é precisamente quando tenta “concretizar” suas ideias, traze-las para o mundo material. Me refiro a situações em que o artista mergulha mais fundo no processo de encontrar suas próprias imagens, perscrutar esse espaço misterioso dentro dele mesmo que contem todo o seu universo peculiar com suas próprias referencias. Muitas vezes o artista prefere ficar num espaço mais confortável e fazer suas buscas no domínio do conhecido, permanecer num campo de investigação mais previsível. Desse modo ele mantém um certo controle sobre o desenrolar do seu processo. Nesse caso acredito que sim, talvez esse artista não se encontre com a face enigmática e a ameaçadora do “bloqueio criativo”. E “pense” que com ele isso não acontece...Mas isso é uma escolha, que as vezes se passa no plano do inconsciente sem que ele mesmo perceba isso assim tão claramente.
Quanto ao uso de materiais de qualidade ou experimentar materiais diferentes, acredito que sim, eles abrem muitas possibilidades de criação. Mas dai, estamos falando de técnica e não de processo. O que é totalmente diferente.
muitos beijos e arte sempre, mesmo que tudo fique no plano da imaginação criadora...hehehe


domingo, 12 de junho de 2016

Keri Smith








E tem o trabalho fantástico dessa artista Keri Smith que pensa, cria e da dicas de como pensar fora da caixa. 
Keri Smith é uma ilustradora/artista conceitual e escritora de diversos livros bestsellers tais como: Wreck This Journal (Penguin), This is Not a Book (Penguin), How to be an Explorer of the World -the Portable Life/Art Museum,(Penguin), Mess: A Manual of Accidents and Mistakes (Penguin), The Guerrilla Art Kit (Princeton Architectural Press), Finish This Book (Penguin), and The Pocket Scavenger (Penguin) - os títulos estão em inglês porque na verdade não sei se foram publicados em português.
Os livros fazem mímica da própria historia de vida da artista. Desde pequena uma "rebelde" na contramão do sistema. Nunca se adaptou a  escola e somente tarde na adolescência frequentou uma escola de artes onde só então descobriu um novo mundo que refletia seu "estranho" universo interior. A arte e a leitura foram recursos que se utilizou para descobrir seu talento. Desconstruir as coisas para depois ressignifica-las.
Em 2007 durante uma noite de insônia, Keri rabiscou a lista abaixo. Mais tarde a ideia inicial se transformou em livros e outras ideias.
Keri escreve em seu livro que suas ideias são de "segunda mão", reinventadas, emprestadas ou reorganizadas de varias fontes, de diversos autores e pensadores que ela leu durante sua vida e os quais tiveram influencia na sua formação "autodidata".

Seu trabalho busca engajar a paticipacao do leitor/espectador através de micro - projetos. Atividades lúdicas e poéticas ou dicas que ela sugere ao leitor a fim de redescobrir e recriar o mundo a nossa volta. Ela propõe um novo envolvimento com os objetos cotidianos ao seu redor. Coletando coisas, objetos encontrados, pensamentos, idéias, histórias, coisas da naturezabuscando padrões, etc. No seu dia a dia, a caminho do trabalho por exemplo ou em viagens e nas mais diversas situações da vida cotidiana. Ela acredita que a arte pode estar nas mãos das pessoas comuns, do indivíduo e não tão e somente dentro do circuito fechado das instituições, como galerias e museus por exemplo. As pessoas não precisam de um espaco formal para criar e mostrar coisas, você faz o seu próprio museu. Você 'e quem decide o que vai fazer parte da sua coleção, daquilo que 'e interessante para você. A ideia vai além do senso comum, e você não precisa necessariamente expor suas coisas ao publico. Ela te da dicas de como coletar, organizar e expor suas ideias em seu museu privado. Na verdade a ideia toda não 'e somente voltada para artistas ou pessoas ligadas a atividades criativas. Mas sim para todas as pessoas. São passos que potencializam nosso potencial criativo independentemente de sua atividade, de você ter ou não alguma habilidade com a arte. Exercitando a criatividade que todos temos, estamos criando um espaco dentro de nos que faz conexão com outras habilidades. A resolução de problemas de uma nova maneira, desenvolver novas ideias e encontrar a ligação entre ideias, mudar perspectivas e paradigmas existentes. Um impulso para estimular nossa imaginação criadora, tão útil e tão esquecida quando nos tornamos adultos.


Pessoas assim são úteis para a saúde do planeta e da humanidade em geral. Através de modos diferentes de ver o mundo podemos chegar algum dia a um mundo mais leve, honesto, justo e prazeroso.









Tradução da lista acima:

Como ser um explorador do mundo
1.Esteja sempre olhando (perceba o chão abaixo de seus pés);
2.Considere tudo que 'e vivo e animado;
3. TUDO 'e interessante. Olhe mais de perto.
4.Mude seu caminho com frequência;
5.Observe por longos períodos (e curtos também);
6.Perceba as historias acontecendo ao seu redor;
7.Perceba padrões, faca conexões;
8.Documente suas descobertas (anotações de campo) de todas as maneiras;
9.Incorpore incertezas;
10.Observe movimentos;
11.Crie um dialogo pessoal com seu meio, fale com ele;
12.Rastreie as coisas de volta as suas origens;
13.Use todos os sentidos em suas investigações.










quarta-feira, 2 de março de 2016

George Hendrik Breitner, Meninas de Quimono.





     The Red Kimono, 1896, George Hendrik Breitner. Stedelijk Museum Amsterdam



A alma feminina de Breitner
  
RIJKSMUSEUM, Amsterdam.
20 Fevereiro a 22 de Maio 2016.



A mulher e seus encantos. Beleza e mistério. Forca e delicadeza. Sensualidade e inocência.  Forcas contrárias e aparentemente antagônicas convivem em perfeita ordem no mundo interior das mulheres. Incógnita a ser desvendada por poetas, artistas e amantes. Seu fascínio sempre exerceu um forte apelo sobre os criadores e fazedores de arte. Monalisa e seu sorriso enigmático que o diga. A Vênus de Botticelli que encarna com graça e poder a figura feminina. A sensualidade explicita de Olympia de Manet, as musas coloridas de Matisse. E o que dizer das Madonnas de Leonardo da Vinci e Rafael...? São tantas  as mulheres icônicas e emblemáticas ao longo da história da arte que não faço justiça em tentar nomear apenas algumas.
George Hendrik Breitner é minha mais recente “descoberta” nesse vasto mundo das mulheres representadas na arte. Não propriamente uma descoberta porque já tinha visto Breitner antes e até mesmo uma(s) das suas Meninas de Quimono. Mas vê-las numa exposição pela primeira vez todas juntas, é uma overdose de beleza e fascínio, para os olhos e o coração. Sem falar na parte esteta que aprecia com delícia até mesmo os detalhes técnicos das obras e da história por trás das obras que nos conta a exposição.
Uma série de 20 pinturas, 13 Garotas de Quimono e um nu, que o Rijksmuseum de Amsterdam esta apresentando ao público.
Ao longo da exposição o espectador vai conhecendo um pouco mais sobre o artista, seu processo de criação e suas escolhas.  



Girl in a White Kimono, 1894, George Hendrik Breitner. Rijksmuseum, Amsterdam



     The Earring, 1893, George Hendrik Breitner (1857-1923). Museum Boijmans Van Beuningen, Rotterdam.




  Girl in a White Kimono, 1894, George Hendrik Breitner. Rijksmuseum, Amsterdam.



 A exposição é organizada através de  fotografias, desenhos e esboços do artista. Assim o espectador segue um caminho que o orienta no sentido de como o artista produziu as obras. Os quimonos como objeto de desejo vem de sua estada em paris em 1884 quando a moda era o Japonismo.
A partir dos esboços, registros nos seus cadernos e de fotos,  sabe-se que a maioria das Meninas de Quimono pintadas por Breitner é Geesje Kwak. Uma jovem holandesa da cidade de Zandaam, próximo a Amsterdam, que se mudou para a capital junto com a família no ano de 1880. Ela tinha entre 16 e 18 anos na época em que posou para o artista. Seu rosto delicado e corpo esguio e longilíneo contribuem para a peculiaridade das obras.
Poucos artistas conseguem captar com tanta precisão e riqueza o mágico universo feminino. Breitner vai além e atravessa as fronteiras do apenas visível. Perpassa a alma de suas mulheres-modelos trazendo á tona suas emocoes mais secretas e invisíveis aos olhares desatentos. Suas Meninas de Quimono são delicadas, suaves e até mesmo inocentes. Mas por outro lado exibem uma sensualidade voluptuosa e quente, implícita nos pequenos (grandes) detalhes. Nos gestos, na cabeça que pende lasciva sobre o sofá, no olhar lânguido que se revela, na imagem através de um espelho, nos gestos delicados de um momento íntimo da modelo que coloca um brinco diante do espelho. Elas conseguem nos transmitir uma gama de emoções que talvez só as almas femininas tem acesso. Tão simples, tão descomplicado e tão eloquente.






Geesje Kwak in Japanse kimono,1893-1895. G.H. Breitner, 16.8 x 12 cm. Universiteitsbibliotheek Leiden

sábado, 3 de outubro de 2015

FILMES - WINGS OF DESIRE






WINGS OF DESIRE (Asas do desejo)

Diretor: Wim Wenders

Ano: 1987

Produção Alemanha/Franca

Elenco:

    Bruno Ganz - Damiel

    Solveig Dommartin - Marion

    Otto Sander  - Cassiel

    Peter Falk -  ele mesmo

    Curt Bois - Homer

    Hans Martin Stier 

    Elmar Wilms

    Sigurd Rachman

    Beatrice Manowski




O meu favorito entre os favoritos. Aquele filme que marcou e você leva sempre junto, na caixinha das memórias afetivas. É um filme-poesia, que evoca uma atmosfera de reverência e meditação. Um pouco melancólico, triste e sombrio, mas cheio de beleza e poesia. O filme se passa em preto e branco na visão dos anjos e colorido quando na visão dos humanos.

Lento como se supõe ser a vida eterna dos anjos. Para que a pressa se eles tem toda a eternidade?



Os mundo dos homens e o mundo dos anjos. A eternidade e a transitoriedade.

Dois mundos que se cruzam e se comunicam. Mas os anjos não são apenas os guardiões que vigiam, eles são testemunhas do tempo desde o começo, desde sempre. Estão presentes na vida de cada pessoa, cuidando, consolando e ouvindo seus pensamentos, suas dores. Ë como se sintonizassem frequências diferentes de um rádio. Flutuam pela cidade de Berlim, devastada, dividida, cinza e lúgubre. Sempre atentos aos transeuntes que passam sem se dar conta de sua presença. Seguimos junto com os dois anjos, Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander) que percorrem invisíveis pela cidade. Nos trens, nos corredores, nas casas, no topo de um monumento perscrutando os seres e seus corações. Eles flutuam...observando, escutando e consolando, sem no entanto poder agir efetivamente ou interagir com os humanos. E nós seguimos junto com eles. A vida que flui, o tempo que escorre num infinito suceder de eventos. Nos sentimos um pouco como os anjos, através da tela do cinema, somos nós também apenas espectadores, testemunhas, sem poder interagir fisicamente com aquele mundo. Não podemos interferir no fluxo das coisas que estão acontecendo ali.  Solidão? Tédio? Desilusão?

Damiel vislumbra o outro lado, quando se apaixona pela trapezista de um circo, Marion (Solveig Dommartin) ele quer se tornar mortal. Sentir e viver e não apenas observar. Ele quer saber o gosto das coisas, tocá-las, cheira-las, experimentar todos os sentidos, a dor, a paixão e enfim o amor humano. Renúncia a sua imortalidade e desce ao mundo dos humanos para viver como eles e com eles.

Um filme sobre ser e não sobre fazer.



·      *O filme tem a participação especial de Nick Cave and the Bad Seeds, a            clássica banda de rock alternativo dos anos 80.
·      *O ator Peter Falk como ele próprio e como um anjo que se tornou imortal.
 









*O próximo filme de Wim Wenders, uma continuação da Asas do Desejo, é Tao Longe Tao perto (So faraway so Close). Próximo post.






quarta-feira, 23 de setembro de 2015

FILMES 1





                                          Filme Wings of Desire. Wim Wenders. 1988.
                                          Foto by Everett/Rex



(Acomode-se, o filme está prestes a começar...)

Se tem algo que eu curto muito é assistir a um bom filme. Nossa atividade preferida em família, desde a escolha do filme aos comentários no final é diversão na certa.
O cinema tem algo mágico (isso é muito clichê eu sei...) tem o poder de nos transportar para dentro daquele universo tão único e especial que é a visão de um diretor. O arranjo de todos os elementos que compõem e constituem o filme: a fotografia, o roteiro, a direção, os personagens, o figurino e tantas outras coisas formam uma liga que amarra e mantém a trama fazendo-nos viajar ao longo da história contada. Por alguns momentos a vida vivida fica em suspenso e vivemos outras vidas e outras possibilidades. Os personagens vem até nós, nos convidam a dar um mergulho dentro de sua intimidade, seus pensamentos, emoções, sonhos e dramas. E vivemos aquele turbilhão de vidas e eventos que se entrecruzam e se mesclam a nossa própria vida. Quanto mais bem construido o filme, quanto mais rica e intrincada a vida interior dos personagens mais possibilidades nos oferece. O cinema tem a grande capacidade de expandir nossa consciência, alargar nossas perspectivas do mundo e até mesmo quebrar paradigmas estabelecidos. Na verdade a arte faz isso. Mas a linguagem do cinema por ser mais dinâmica e envolver os sentidos, visao e audicao, nos arrebata mais fácil e docilmente, não oferece obstáculos. Somos quase que interceptados, capturados pra dentro daquele mundo como ou sem a nossa autorização. Ao contrário de uma tela ou escultura por exemplo, que requer nossa iniciativa e empenho, nossa participação mais ativa em perscrutar o que está acontecendo ali. Depende da nossa vontade de ficar ou ir embora.
Filme bem feito pode ser de qualquer tipo, comédia, drama ou ação, ficção científica ou thriller. O que importa é o modo como a historia é tratada, como é elaborada e transformada em um produto não acabado, aberto ao nosso entendimento, participação e ressignificação. Quanto mais camadas de interpretação e significado tem um filme melhor ele é - na minha modesta opinião. Filme bom é aquele que cola em você, mesmo depois que você vai embora ele fica lá, perambulando pela tua cabeça mesmo que você nem perceba a sua presença. Algo aconteceu, algo se transformou, aquele que entrou nao é o mesmo que saiu. Pode ser até uma comédia, daquelas que só se faz rir. E a sensacao no final é de leveza, calma e alegria. E isso também é bom e também é transformador e redentor. Sim o mundo pode ser um lugar bom de se estar. Mesmo que momentaneamente, no escurinho do cinema...







Life's a breeze
Genero: comédia
Ano: 2013
Diretor: Lance Daly
País: Irlanda
Pat Shortt and Fionnula Flanagan.
Eva Birthistle, Gerry McCann, Philip Judge, Lesley Conroy, Peter Coonan, Brian Gleeson, Paul Ronan and Kelly Thornton, participação especial de Ryan Tubridy e Joe Duffy.
Os filhos decidem fazer uma faxina na casa da mãe, uma idosa aposentada, sem que ela saiba. Quando ela retorna, eles animadamente a levam para um tour pela nova casa, onde todo o entulho guardado durante anos e anos foi jogado fora. Petrificada, a mãe pergunta pelo colchão...onde supostamente guardava suas economias de muitos anos, um milhão de euros! Começa então uma corrida maluca em busca do colchão que a esta altura já está no sistema de reciclagem de lixo da cidade - Dublin. Uma comédia deliciosa que faz rir e pensar ao mesmo tempo, de um modo leve e suave. Os dramas da vida sem muito drama. O filme aborda algumas questões importantes da vida. Os relacionamentos entre filhos e os pais que envelhecem e as implicações disso na vida cotidiana. O próprio fato irreversível do envelhecimento e suas consequências, vivido pela personagem Nan (a espetacular Fionnula Flanagan). Destaque também para atriz Kelly Thornton (a neta de Nan). Na verdade o filme se sustenta através dessas duas atrizes que se comunicam pelo olhar.  



Holanda, o País das águas II - MAESLANTKERING (Maeslant Surge Barrier)



    Foto: Beeldbank Rijkswaterstaat


Os holandeses têm um caráter pragmático, objetivo, prático e disciplinado. Mas a tenacidade desse povo, seu espírito de união e comprometimento com o todo, o sentimento do coletivo fica muito mais claro e evidente quando nos deparamos com algo concreto, tangível aos olhos e ao entendimento. Não só ao alcance da visão, mas com uma abrangência muito maior e de vital importância para a segurança de seu povo. Refiro-me ao espetacular projeto Delta Works
(Deltawerken) um icone de engenharia e arquitetura. Uma série de barragens, diques, represas, eclusas e comportas que protegem a Holanda da invasão das águas. Seja do mar, dos afluentes dos rios, de inundações por chuvas ou qualquer evento que ameace as terras abaixo do nível do mar. Uma maravilhosa obra de engenharia já chamada pela American Society of Civil Engineers como uma das Sete maravilhas do Mundo Moderno. A maioria das obras situa-se na região sudoeste da Holanda e protegem a área do delta dos rios Reno, Mosa e Shelde (Rijn-Maas-Scheldedelta). Isso significa também o enorme porto de Rotterdam, entrada vital para o pleno funcionamento da economia do país.
O projeto delta demorou cerca de 30 anos para ser finalizado.



                         Mapa das treze obras do Delta Work

                                     
A luta contra as águas é presença constante nos Países Baixos. Fez parte de sua história marcando profundamente a alma desse povo e por isso suas características tão assertivas.  Faz parte de seu presente através do controle absoluto e preciso do nível das águas. E com igual importância fará parte de seu futuro com tantos desafios a serem superados num planeta em que o aquecimento global é um fato constante e determinante.
Olhando para o passado têm-se uma idéia dos constantes esforços para a proteção das terras baixas. Por volta de 1927/33 quando foi construído o grande dique Afsluitdijk, no norte, já havia planos para a proteção da costa no sul das freqüentes inundações. Devido à II Guerra Mundial e outras questões o plano foi adiado.
O fator decisivo para a implementação do projeto foi em 1953 quando houve um grande acidente climático, grandes inundações onde as marés altas e um furacão destruíram um dique de proteção no sudoeste do país (onde se encontra o delta dos rios Reno, Escalda e Mosa) causando a morte de milhares de pessoas e destruindo mais de 160.000 hectares de terra. O fato foi determinante para que as autoridades revissem o sistema de proteção, empreendendo de vez seu maior projeto hidráulico de contenção das águas, o DELTAWORK.
Ao longo do caminho o projeto inicial foi sofrendo alterações e se adaptando as necessidades de preservação do meio ambiente. O estuário de Oosterschelde (Eastern Scheldt) era inicialmente para ser bloqueado através de uma barreira e suas águas salgadas transformadas em água doce. Devido à pressão da opinião pública (pescadores e ambientalistas) o governo alterou o projeto a assim ao invés do fechamento total optou-se por uma grande represa que permitiria o fluxo das águas e seu controle, preservando assim o ecossistema de águas salgadas. A represa permanece aberta em condições normais e somente quando as águas atingem três metros acima do nível esperado elas então se fecham impedindo inundações. Como complemento de proteção velhos diques foram reforçados, ampliados, outros foram criados e novas rotas de navegação ao porto de Rotterdam e Antwerpia na Bélgica.






                         MAESLANTKERING (comportas fechadas)







Entre as obras do Delta Work que mais se destacam está a Maeslantkering, citado acima. Situada no Niewe Waterweg a principal rota de passagem dos navios rumo ao porto de Rotterdam foi Iniciada em 1991 e concluída em 1997.  A grande barreira móvel foi a solução encontrada para proteger o porto de Rotterdam e toda a área em torno, cidades e áreas de agricultura e também permitir a passagem dos navios rumo ao porto.

Ao contrário de uma barreira fixa a Maeslantkering é composta por dois grandes portões flutuantes ocos de estrutura de metal. Os braços da estrutura são móveis permitindo a abertura e o fechamento do canal. Conectados à base por uma esfera que funciona como uma articulação móvel no seu eixo de conexão com a base (a exemplo de uma articulação humana). Assim o movimento dos portões não é rígido, permitindo sua mobilidade livremente sob influências de ventos e da força das águas.  Em condições normais, os portões ficam nas docas laterais em lugar seco e protegido. O funcionamento se dá quando as docas são preenchidas pela água permitindo aos portões flutuarem e lentamente se fecharem. Quando os dois braços se encontram os reservatórios que compõem sua estrutura se enchem de água e lentamente afundam. Assim se forma uma sólida contenção das águas em caso de ameaça de inundação.

Todo o sistema para um eventual fechamento dos portões funciona através de um programa especial de computadores. Esse sistema por sua vez está conectado com os dados atmosféricos, de oscilação das marés e outros parâmetros. Assim que o nível das águas atinge a marca de três metros, e todos os parâmetros são atingidos o sistema aciona o fechamento da barreira.




MAESLANTKERING(comportas abrindo)


*Em caso de fechamento, o processo todo leva cerca de 90 minutos;

*A expectativa de acordo com estatísticas é que a Maeslant se feche uma vez a cada dez anos;

*Embora seja ativada, uma vez por ano para fins de teste, a barreira só foi fechado uma vez, em resposta a um aumento nas marés em 2007.

*Quando fechada a barreira o nível de água do lado do lado do Mar do Norte fica mais alto exercendo uma enorme pressão sobre a barreira com força suficiente para derrubar um grande navio;

*A articulação em forma de bola é a maior do mundo, com um diâmetro de 10 metros e pesando 680 toneladas;

*Cada um dos portões tem 22 metros de altura e 240 metros de comprimento;

*Levou seis anos para construir a barreira;

*Para informações mais detalhadas e informações sobre a gestão da água na Holanda, as pessoas podem visitar o centro de informações, que está aberto todos os dias ao lado da Maeslankering, a entrada é gratuita;

*O Europoortkering-project custou 660 milhões de euros;

*MAESLANTKEIRNG (site do museu que fica ao lado da barreira)  
*Aqui tem uma rota turistica que passa por todas as obras do Delta Work (em holandes)
*Site sobre o DELTA WORK

*Ha treze Delta Works nas províncias de Zeeland, Noord-Brabant e Zuid-Holland:

1- Oosterscheldekering

2- Bathse Spuisluis

3- Haringvlietsluizen

4- Brouwersdam

5- Hollandsche IJsselkering

6- Grevelingendam

7- Oesterdam

8- Maeslantkering

9- Philipsdam and Krammersluizen

10- Volkeraksluizen

11- Veerse Gatdam

12- Zandkreekdam

13- Hartelkering



A história conta...

 

Por ser uma baía de grande extensão o Zuiderzee estava exposto as freqüentes tempestades do mar do Norte que forçavam a água para dentro da baía inundando vilas. Idéias a fim de proteger a região já existiam no século 17, mas ainda impraticáveis devido a falta de tecnologia para isso. No entanto somente no século 19, foi possível desenvolver a técnica que implementaria o projeto.

O responsável por isso foi o engenheiro civil holandês Cornelis Lely que em 1891 propôs as bases para a construção de uma barragem (um grande dique) para o fechamento do Zuiderzee, transformando-o em um lago. As águas não tão profundas do Zuiderzee (em torno de 4 metros de profundidade) facilitariam a execução do projeto apesar de toda a precariedade na época. Além disso, o projeto também incluía a construção de quatro polderes no lago (que após a conclusão do projeto se chamou Ijselmeer). Os polderes serviriam como terras cultiváveis para a agricultura. Mais tarde se dividiram em apenas dois.

Mas a idéia de Lely ainda não teria espaço para se concretizar. Em 1913 quando se tornou ministro dos Transportes e Obras Públicas o engenheiro conseguiu alavancar seus planos apesar das resistências. Pescadores ao longo do Zuiderzee estavam preocupados se iriam perder seus meios de subsistência. Outros estavam preocupados que um projeto como este pode criar maiores níveis de água em outros lugares ao longo da costa. O governo preocupado com o custo enorme do projeto.

 Em Janeiro de 1916, durante uma tempestade de inverno vários diques quebraram ao longo do Zuiderzee e o resultado foi inundações como no passado.

 Após este desastre o plano ousado de Lely ganhou apoio popular e em14 de junho de 1918 a Lei Zuiderzee foi aprovada e o projeto foi oficialmente iniciado e assim foi criado o AFSLUITDIJK o maior dique da Holanda com 32 km de estradas sobre ele.

Seus objetivos eram para proteger a região contra enchentes do Mar do Norte, aumentar a oferta de alimentos do país, criando polders que poderiam ser transformados em terras agrícolas e usar o que restou da Zuiderzee para melhorar a gestão da água.



    Oosterscheldekering