Thursday, 13 November 2014

NATUREZA MORTA e seus segredos escondidos



     Still Life with Golden Goblet. 
     Pieter de Ring. 1640/1660. 100cm x 85cm. oil paint. Rijksmuseum.
         


STILL LIFE PAINTING ou NATUREZA MORTA

Numa visita a um museu, as Naturezas Mortas passam as vezes despercebidas ou renegadas a um segundo plano, talvez porque mal interpretadas.
Considerada uma arte menor no passado, envolvida em um certo tipo de preconceito no presente. Natureza Morta é um gênero de arte que merece ser descoberto - assim como toda manifestação de arte. Um olhar mais atento e cuidadoso, mas sobretudo uma certa dedicação em tentar entendê-la.

Tipicamente caracterizada pelo arranjo de objetos como flores, frutas, utensílios domésticos, livros, vasos, potes, alguns tipos de animais e insetos, conchas, moluscos, etc.
Esse tipo de pintura está presente desde o mundo antigo. Entres os egípcios, gregos e romanos. Porém com finalidades diferentes. Os Egípcios decoravam as tumbas com pinturas de frutas, pães, peixes e bebidas porque acreditavam que os mortos poderiam precisar dos alimentos em outra vida. Os Gregos e Romanos pintavam cenas murais, mosaicos no chão e potes, tendo como tema a comida. A intenção, entre outras, era demonstrar hospitalidade ou celebrar as estações.
Na Idade Média e através do Renascimento esteve estreitamente associada a religião e usada como alegoria juntamente com outros temas religiosos. Mas nunca como o assunto principal.
Nos séculos 15 e 16 era presença nas pinturas de alguns artistas, como Jan Van Eyck, Holbein e Caravaggio. Porém apenas como coadjuvante e ainda não como o tema principal. 

Ressurgiu como um gênero independente de representação pictórica no século 17, especialmente nos Países Baixos. Esse tipo de pintura até então não tinha um gênero propriamente dito na historia da arte. Isso na verdade foi sendo adquirido com o passar do tempo através do aparecimento daqueles que começaram a analisar e estudar as obras.


Holbein – The Ambassadors, 1533



Caravaggio - Supper at Emmaus,1601




Naquele período o Norte da Europa passava por transformações políticas e religiosas que afetaram todos as aspectos da vida das pessoas – a Reforma Protestante mais especificamente. Esses eventos também tiveram um impacto nos assuntos que os artistas escolhiam para suas obras. A Holanda, que até então não existia como país independente, apesar de dominada pela Espanha Católica, foi um dos poucos países que manteve suas raízes protegidas da influencia religiosa do catolicismo. Quando a Reforma se espalhou pelos Países Baixos a libertação definitiva dos artistas aconteceu. Os temas religiosos, históricos ou mitológicos já não tinham mais tanta importância como antes e agora os artistas se sentiam livres para escolher os temas que bem entendessem para suas pinturas
Assim dentro desse contexto histórico e político os artistas holandeses passaram a ter mais liberdade de escolha.  Impulsionados pelos acontecimentos e em busca de uma identidade que os resgatasse da influencia espanhola, sua arte passa a representar seu próprio território com suas paisagens, seus costumes, a vida cotidiana. Assim a representação das coisas em si mesmas merece uma posição de maior destaque e valor - as Natureza Mortas se adequaram muito bem a esse fim.




 Still Life with Flowers with on a Marble Tabletop. 
 Rachel Ruysch, 1716. o/s/t 48,5cm x 39,5cm. Rijksmuseum.

Inicia-se uma época de grande produção e pesquisa nesse gênero. Os artistas encontraram uma oportunidade de demonstrar suas habilidades e talentos. Esmeravam-se diligentemente na pintura das coisas, suas texturas, luzes e sombras, cores, superfícies e composições, etc.
Além do virtuosismo, cada elemento e objeto dentro da cena de uma pintura de Natureza Morta tem um significado oculto, simboliza algo além da simples aparência. Assim através dos objetos os artistas tinham a intenção de falar de outros assuntos.
A transitoriedade da vida por exemplo, representada pelas frutas (que se decompõe), insetos, a fumaça que se dissipa, o estopim de velas, velas acesas, relógios e ampulhetas.  Caveiras, a certeza da morte; frutas em decomposição, a decadência do corpo físico; instrumentos musicais, os prazeres mundanos e momentâneos, a audição; o espelho, a vaidade, o sentido da visão; as flores, vaidade e a beleza efêmera e também o olfato. Cartas, dados e livros, etc. 



 Banquet Still Life.
Adriaen van Utrecht. 1644 -óleo s/ tela, 185cm x 242,5 cm. Rijksmuseum.




No inicio as obras eram simplesmente categorizadas por assuntos, por exemplo: Flores, Frutas, Café da manhã (ontbijtjes), Banquetes (banketje), Ostentação (pronkstillevens), Vanitas - com um certo teor moral, etc. O termo, como gênero de pintura independente foi usado somente a partir de 1656 para conter todos os assuntos específicos citados acima numa só categoria.

A palavra Natureza Morta é uma adaptação que algumas línguas usam, como o italiano, o francês e o português.  A palavra original deriva do holandês Stilleven (Still Life em Inglês). Que significa objetos inanimados, que não se movem mas que ainda assim remetem a vida: por exemplo as flores e frutas, os insetos, moluscos, peixes, etc. 
O gênero  permaneceu na historia da arte através  do tempo sofrendo modificações em alguns casos ou mantendo-se dentro do modelo clássico. 
Na Modernidade, muitos artistas continuaram a usar o tema das naturezas mortas, porém sob outras perspectivas. 
Cézanne foi um dos grandes artistas a usar esse tema em sua obra. Nesse caso o artista escolhia os objetos apenas como pretexto para sua pintura, sem nenhuma intenção de ocultar significados. Os objetos serviam apenas como exercício através dos quais exercitava suas pesquisas pictóricas. O que importa aqui na verdade é a busca intelectual do artista sobre o uso de todos os elementos que compõe uma pintura: cores, linhas e formas, mas sobretudo a forma, o volume.
Picasso também se valeu dos objetos como um meio de pesquisa pictórica. Sua busca tenta entender o mundo através das coisas, desconstruindo-as e reconstruindo-as novamente sob todas as possibilidades e perspectivas. O mundo estava em plena transformação e fragmentação  e isso se reflete na obra e na busca do artista.
Matisse, Van Gogh, Braque, Dali, Gauguin, Magritte, e tantos outros. 
Na Arte Contemporânea os artistas vão mais longe e os objetos/naturezas mortas são usados como forma de denuncia, critica e todo tipo de questionamento.

Ori Gersht um artista de Israel, fotografa naturezas mortas inspiradas em pinturas do passado. Ele usa câmeras com alta velocidade para capturar o exato momento em que o arranjo floral é estraçalhado. O contraste entra a mansidão  do tradicional arranjo e a explosão da foto remete diretamente aos conflitos em sua terra natal.







O controverso e polêmico artista inglês Damiem Hirst  criou a obra For the Love of God (2007) um crânio humano cravejado com 8.601 diamantes. A obra do artista é permeada pela obsessiva ideia da morte e da vida.





Rebecca Scott, pinta naturezas mortas onde explora através de cenas domesticas, como mesas bem arrumadas, a procura obsessiva por perfeição (e seu consequente fracasso) que nos é vendida através da mídia, das revistas destinadas ao publico feminino.



Suas pinturas de alimentos e grandes proporções, exploram questões psicológicas na medida em que e nos colocam em confronto com nossa própria existência material e da própria pintura.  





Monday, 10 March 2014

As Formigas e a Pena


Uma formiga que caminhava, perdida, sobre uma folha de papel, viu uma pena que desenhava traços negros e finos.

— Que maravilha! – exclamou. – Que coisa notável! Tem vida própria e faz garatujas nesta bela superfície a ponto de poder equiparar-se aos esforços conjuntos de todas as formigas do mundo. E que rabiscos faz! Parecem formigas, milhões de formigas trabalhando juntas.
Contou seus pensamentos a outra formiga, que ficou igualmente interessada, e elogiou os poderes de observação e reflexão da primeira formiga.

Mas outra formiga lhe disse:

— Valendo-me de teus esforços, devo admiti-lo, tenho observado esse estranho objeto. Mas cheguei à conclusão de que não é ele que impulsiona seu trabalho. Cometeste o erro de não observar que a pena está ligada a outros objetos, que a rodeiam e conduzem. Esses devem ser considerados como a origem de seu movimento, podes crer.

Desse modo, as formigas descobriram os dedos.
Passado algum tempo, outra formiga caminhou sobre os dedos e percebeu que faziam parte de uma mão, que explorou total e minuciosamente, no estilo das formigas, andando por todos os lados, esquadrinhando-a toda. Voltou então para junto das companheiras e gritou-lhes: 

— Formigas! Tenho notícias importantes para vocês. Aqueles pequenos objetos fazem parte de outro muito maior. E este é o que realmente move tudo.

Depois descobriram que a mão estava ligada a um braço, e o braço a um corpo; que não existia uma, mas duas mãos; e que existiam dois pés, que não escreviam.
As investigações prosseguiram. Assim, as formigas chegaram a ter uma idéia adequada da mecânica da escrita. Através do seu método de investigação costumeira, entretanto, nada conseguiram saber a respeito do sentido e da intenção da escrita, nem sobre como, finalmente, eram determinados: as formigas não sabem ler e escrever.

Thursday, 13 February 2014

A ARTE SECRETA DE HILMA AF KLINT

                     




Art by Hilma af Klint - Group IV, n7/Adulthood


 

Os olhos que viviam no futuro...
Hilma af Klint, Estocolmo-Suécia (1862-1944)

Seu nome demorou para aparecer com destaque nas pesquisas sobre história da arte. Tão pouco nas buscas sobre arte abstrata ou nos registros sobre os pioneiros desse tipo de arte. Na verdade pode-se dizer que a História da Arte se reinscreve após o aparecimento de Hilma af Klint no cenário artístico. Foi ela quem produziu as primeiras obras abstratas registradas na história, em torno de 1906. Ate entao nada de similar tinha sido feito antes. Alguns bons anos antes de Kandinsky, Malevich, Mondrian ou Kupka. O trabalho radical dessa artista que dramaticamente inovou em formas, cores, expressão e significado só teve sua contraparte muitos anos depois através de artistas como Matisse.  




Art by Hilma af Klint





Teria af Klint lançado as sementes-origens da Arte do século 20?



Completamente desconhecida até pouco tempo atrás, sua obra foi descoberta por acaso, em 1985 - até então esteve armazenada em um porão do Centro Antroposófico de Estocolmo, na Suécia. 
No final dos anos 60 seus parentes fizeram uma tentativa de encaminhar alguns de seus trabalhos  até o Museu de Arte de Estocolmo (Moderna Musset). Na época o diretor do museu Pontus Hulten, um especialista em Malevich,  recusou-se a aceitar os trabalhos pelo fato da artista ser uma mulher - “uma mulher louca quem fez isso“. Assim, os trabalhos voltaram novamente ao  Centro Anstroposófico de Estocolmo onde estiveram guardados esperando o tempo certo para virem a público.  Na verdade, o desejo da própria Hilma af Klint foi que seus trabalhos só fossem exibidos vinte anos após sua morte. Ela acreditava que sua obra não seria compreendida pelas pessoas daquela epoca. Esse pedido não significava excentricidade de artista. A história de af Klint é muito singular assim como sua obra. Rica em significados, complexidade e enigmas. 


           


Art by Hilma af Klint





Frequentou a Escola de artes durante cinco anos (Royal Academy of Fine Arts – 1882/1887). Graduando-se com honras em 1887 e uma sólida formação acadêmica. Inicialmente se dedicou ao retrato e paisagens. Participou de algumas exposições, ate mesmo sendo reconhecida como pintora em sau cidade, Estocolmo.
Hilma viveu numa época pouco favorável as mulheres. Portanto não teve o direito de exercer a profissão de artista como seus pares do sexo masculino. Mesmo assim estabeleceu um atelier recluso onde trabalharia incansavelmente durante toda sua vida produzindo secretamente mais de 1000 obras, entre pinturas, desenhos, aquarelas.   
Durante  esse periodo algo começa a acontecer. Ela se debruça num estudo mais místico do mundo. Muito além do que nossos olhos podem alcançar, do que nossa razão possa perscrutar. Hilma se aprofunda no espiritualismo e na Teosofia. Ela acreditava firmemente que seu trabalho era conduzido e ditado por entidades espirituais. Sabe-se desse fato porque ela deixou registrado além de um diário secreto, centenas de cadernos onde descreve minuciosamente todos os processo de cada obra com as instruções que supostamente recebia das entidades - os manuscritos datam de 1890 até 1944. Seus registros dizem que em 1904 através do espírito de Ananda, Hilma foi chamada a executar um grande trabalho do plano astral. Formou um grupo com mais quatro artistas mulheres que todas as sextas feiras se reuniam para trabalhar e produzir juntas. Praticavam sessões guiadas por entidades espirituais através das quais acessavam outros níveis de consciência onde Hilma atuava como médium. 
Entre 1906 e 1915 produziu em torno de 193 trabalhos de grandes dimensões, coisa incomum para a época. Entre Agosto e Dezembro de 1907 criou uma majestosa serie intitulada The Ten Biggest (Os Dez Grandes). Dez obras monumentais de 3,28m x 2,40m que falam sobre a humanidade e os estágios da vida, sua beleza e significado. Tudo detalhadamente explicado nos inúmeros cadernos que mantinha. Só do ponto de vista físico já seria um grande feito para uma mulher de 1,57m de altura executar obras de tal tamanho e em tão pouco tempo. (Quem faz arte sabe do que estou falando). Hilma fez inclusive esboços de um possível local que no futuro abrigaria suas obras, Os Dez Grandes.










Os especialistas dizem que sua técnica e pinceladas são executadas de uma só vez, sem retoques ou hesitações. Uma proeza em se tratando da técnica tempera sobre papel. Um material que não permite a flexibilidade de outras técnicas por exemplo.
Hilma era uma atenta observadora do mundo, um espírito investigativo com sede de saber. Uma pessoa sensata e com grande aptidão para a matemática. Mesmo após o termino das obras guiadas pelos espíritos continuou criando e registrando seus pensamentos numa investigação incansável sobre o universo tentando entender a jornada, o caminho em que se encontrava. 
O que mais impressiona é a tenacidade, obstinação e firmeza na execução e realização de suas obras, a despeito do isolamento em que se encontrava e da segregação que sofria por ser mulher. Hilma não tinha relacionamento profissional com nenhum dos pintores da vanguarda da época, vivia em Estocolmo praticamente isolada em seu atelier sem ter conhecimento do que se passava ao redor do mundo nas artes. 





Art by Hilma af Klint - Free Will




O contexto histórico daquela época era um ambiente rico em descobertas científicas. Até o final do século XIX o mundo sofreu mudanças importantes como o descobrimento de algumas forças invisíveis: os raios-X, as ondas eletromagnéticas, os raios infravermelhos, os campos eletromagnéticos, o telégrafo. Essas forças invisíveis aconteciam num mundo paralelo e mais amplo do que nossos sentidos podiam captar. Estariam além do alcance do olho humano provocando a imaginação e a possibilidade de registrar as emoções, os pensamentos e sentimentos da alma humana.
A espiritualidade, a Teosofia, o Espiritismo e mais tarde a Antroposofia eram temas de forte influencia sobre os artistas naquela época. Eles acreditavam que era necessário transcender a materia para chegar a um conhecimento espiritual mais elevado. A busca de um Eu além do físico. Essas crenças estavam presentes em seus trabalhos, na busca por uma expressão que transcendesse o representacional. Uma jornada através da natureza interior.
Além dos músicos seria possível pintar a própria música?

Os olhos no futuro
Hilma af Klint ousou sair do lugar seguro e seguir suas próprias visões. Penetrar num território incomum naquela época. Explorar um espaco em que as mulheres não eram bem vindas - círculos artísticos estritamente masculinos.
Ela explorou o universo se movendo entre o micro e macro cosmo. Como as coisas estão interconectadas umas com as outras. As polaridades do mundo. Energias 'antagônicas' num continuum movimento se fundem e expandem. Feminino/masculino, luz/escuridão, quente/frio, etc. Além do visível mundo que habitamos existe um mundo em que tudo é uno. 


O futuro é agora
Em 1985 graças ao historiador de arte Ake Fant, Hilma af Klint é introduzida no cenário internacional. Em uma visita o Centro Antroposófico de Estocolmo o historiador entrou novamente em contato com o trabalho da artista. Convidou Sixten Ringbom, um especialista em Kandinsky,  para dar uma olhada nas obras armazenadas no local. O critico de arte ficou maravilhado com o que viu e imediatamente levou alguns trabalhos para uma exposição que estava organizando em Los Angeles  no County Museum of Art -  em 1986. 
 “The Spiritual in Art: Abstract Painting 1890-1985.” Depois disso o trabalho de Hilma percorreu o mundo em varias exposições.  
Os críticos se dividem na opinião sobre a posição que Hilma af Klint ocupa no cenário das artes. Enquanto alguns são cautelosos em definir sua arte e seu lugar na linha do tempo, outros a defendem com veemência justificando sua defesa através da eloqüência das obras em si mesmas. Obviamente que o mundo da arte, seus artistas, estilos e sua importância ao longo da historia são fortemente determinados pelas circunstâncias e contexto no qual estão inseridos.  A crítica de arte sempre ao longo da história teve - politicamente falando - a “função” de implementar, fomentar, propiciar suporte para as obras de arte produzidas pelos artistas. Portanto, estar “inserido” no universo desses acontecimentos seria de vital importância para o reconhecimento da obra como tal. Como Hilma viveu isolada, a margem desse universo alguns críticos resistem em qualificar suas obras.




  
                   


“The pictures were painted directly through me, without any preliminary drawings and with great force. I had no idea what the paintings were supposed to depict nevertheless, I worked swiftly and surely, without changing a single brushstroke”
                                                                                                Hilma af Klint




*A técnica usada e têmpera sobre papel que mais tarde foi colado sobre uma base rígida. 
*Ur Chaos seu primeiro trabalho abstrato é de 1906, dois anos antes de Kandinsky ter publicado sua primeira obra abstrata.
*Pinturas para o Templo compreende várias séries de trabalhos culminando com Peças para o Altar - (The Tem Biggest) dez imensas obras de 3,28m x 2,40m. Essas obras falam sobre a humanidade e os estágios da vida sua beleza e significado. Foram executadas em apenas 40 dias. 
*Hilma registrou durante 50 anos tudo sobre o ela estava fazendo.

















Tuesday, 28 January 2014

Samsara

O eterno fluxo...




Uma sucessão de imagens arrebatadoras. Uma experiência sensorial que aguça além da visão. Samsara é um filme para ser visto muito mais do que para ser comentado. 
As impressões que se sucedem vão além do cinema e ficam meio que coladas em você, indeléveis pairando na cabeça por longas horas.  Imagens que contemplam a beleza e a força orgânica da natureza, a presença humana e suas ações e aberrações no planeta. Os insondáveis caminhos da espiritualidade, perpassando pelas grandes religiões e cruzando as fronteiras entre elas através do exercício puro e simples da fé. O mundano e o sublime, a beleza e a vileza, a luz e a sombra,  as eternas dualidades que se mesclam entre si e atravessam nossa natureza humana, tão humana.


Quem somos? pra onde vamos? o que fazemos aqui? como estamos realizando nossa passagem?


Mas tudo misturado o que  fica claro é a interconexão entre tudo e todos, o todo e cada um de nòs.
Recomendo! 






Samsara
Diretor: Ron Fricke
Produtor: Mark Magidson
(Os mesmos dos filmes anteriores Baraka/1992 e Chronos/1985)
Duração:
Foi filmado em 25 países ao longo de 5 anos

Wednesday, 30 October 2013

O TRAFICO DE SERES HUMANOS NO MUNDO





Um crime que nos envergonha a todos.
It is a crime that shames us all



Um fenômeno mundial que acontece todos os dias a todo instante, mas infelizmente poucos tomam conhecimento ou sequer se dão conta da gravidade e extensão do problema: o tráfico de pessoas no mundo. Uma atividade subterrânea com ramificações globais, logística e aparatos bem planejados. Formada por quadrilhas conectadas internacionalmente, pessoas movidas pela ganância da riqueza, pela frieza e pelo desdém por seu semelhante. Raptores, mediadores, pessoas envolvidas com o poder. Redes de difícil detecção. Um crime que toca num ponto fundamental: o direito humano à vida e a dignidade.


“O que é o tráfico de pessoas?


O tráfico de pessoas é caracterizado pelo "recrutamento, transporte, transferência, abrigo ou recebimento de pessoas, por meio de ameaça ou uso da força ou outras formas de coerção, de rapto, de fraude, de engano, do abuso de poder ou de uma posição de vulnerabilidade ou de dar ou receber pagamentos ou benefícios para obter o consentimento para uma pessoa ter controle sobre outra pessoa, para o propósito de exploração". A definição encontra-se no Protocolo Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crianças, complementar à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional, conhecida também como Convenção de Palermo.” Fonte Unodc.org 




Embora o tráfico seja amplamente reconhecido pelas autoridades e governos como uma violação aos direitos humanos e muitas organizações internacionais se mobilizam para resolver o problema, ainda tem-se muito a fazer pelas vítimas, reais e em potencial. Os dados e informações concretas são poucos. Apenas uma parcela pequena das pessoas traficadas consegue ser identificada e poucos apresentam queixa às autoridades competentes. Muitas vezes por medo da exposição, vergonha e pudor. Dificuldades de investigar os criminosos, falta de denúncias e provas contundentes, limites na legislação, são os principais entraves que se apresentam à questão.

A grande maioria das pessoas traficadas são mulheres e crianças, embora homens e garotos também fazem parte do contingente de pessoas traficadas. De acordo com estimativas 2,5 milhões de pessoas estão em trabalho forçado (incluindo a exploração sexual) em determinado momento como resultado de tráfico (fonte do site UN.Gift).
Na Europa, estima-se que o tráfico de pessoas movimente 2,5 bilhões de euros todos os anos.
A América Latina é uma das principais origens de crianças e mulheres traficadas. As vítimas se caracterizam pela vulnerabilidade, condições econômicas, sociais e domésticas na maioria das vezes precárias. As mulheres em geral são traficadas para exploração sexual e trabalhos forçados. Algumas vezes com seu próprio consentimento, com a falsa promessa de dinheiro fácil e farto. Ao chegarem ao destino a realidade é diferente. Mantidas em situação de débito para com seu algoz são obrigadas a trabalhar como escravas em condições subumanas. Sofrendo violência física e emocional.
Crianças são traficadas por vários motivos: trabalhos forçados na economia informal ou trabalhos domésticos (a pouco ou nenhum pagamento), exploração sexual através da prostituição, adoção ilícita em outros países, retirada e venda de órgãos, atos ilegais como pedir esmolas, roubar pessoas, servir de “mulas” para transportar drogas, crianças-soldados, lutas armadas em países em guerras, etc. Quando o destino das crianças é o trabalho forçado na economia informal fica ainda mais difícil de rastrear seu paradeiro.

Aos pedaços
O outro lado da história que envolve o tráfico de pessoas é o hediondo contrabando de órgãos. Na verdade ao longo dos anos, a demanda de pacientes com falência de órgãos tem excedido a oferta de órgãos para doação. Por causa do avanço da tecnologia nas cirurgias de transplantes e novos medicamentos no pós-cirúrgico a demanda por órgãos aumentou consideravelmente. Em contrapartida a qualidade de vida também aumentou, por conseqüência elevou a expectativa de vida. Essa disparidade cria um fértil e sinistro campo de atuação para o crime organizado.
O mercado clandestino de obtenção e venda de órgãos é uma indústria organizada que explora a vulnerabilidade do potencial doador através da coerção. Na grande maioria são pessoas pobres e em sérias dificuldades financeiras, no limite de suas forças. Fragilizados pelo contexto em que vivem, são presas fáceis de mediadores/compradores de órgãos que prometem quantias consideráveis que muitas vezes não são cumpridas no final. Outras o acerto é feito com quantias mínimas que o doador gasta em alguns meses após o transplante e que definitivamente não resolve sua condição miserável. O processo retira do doador não somente seu órgão, mas a esperança e a dignidade de não ter escolhas. E principalmente sua saúde. Feito na clandestinidade o doador não tem nenhum tipo de suporte no pós operatório.
Os rins são os principais órgãos negociados, mas há também a venda de corações, pulmões, fígados, córneas. Os preços chegam a milhares de dólares dependendo o tipo do órgão. Um rim, por exemplo, pode custar até 200 mil dólares. Mas esse dinheiro todo não acaba nas mãos do doador, mas sim uma pequena parcela dele.
O aspecto em discussão aqui é a reflexão ética que envolve o crime. O objetivo último do tráfico reside na questão comercial e financeira do processo. O que importa de fato é a quantia de dinheiro envolvida na transação, quem ganha e quanto ganha, ao invés da saúde e do bem estar do doador e do receptor. O órgão se torna meramente uma mercadoria nas mãos inescrupulosas dos criminosos. E não algo que realmente pode salvar vidas.

Turismo do Transplante
Filipinas, Egito, Paquistão, China, Brasil, Àfrica, Índia e Turquia são alguns dos países fornecedores de doadores, espontâneos ou não. Onde o tráfico acontece com freqüência e persistência. Várias modalidades se apresentam para a efetivação do “negócio”: receptores viajam até o país de origem do doador para receber o órgão em clínicas clandestinas; o doador vai até o receptor, ou até mesmo ambos vão a um terceiro país para realizar a cirurgia.
Mesmo os médicos que não tem nenhum envolvimento ou parte no comércio de órgãos acabam tendo uma responsabilidade na assistência médica aos beneficiários quando estes regressam ao seu país após terem sido submetidos a transplante de um órgão. Muitas vezes a cirurgia foi feita em condições não ideais o que mais tarde traz conseqüências indesejáveis aos receptores.
Essa logística dificulta o rastreamento das quadrilhas que agem na obscuridade de fachadas clandestinas. Até mesmo em países europeus afetados duramente pela crise há notícias de ofertas de venda órgãos (embora ilícito). As pessoas em condições de pobreza e dificuldades perdem a noção do que é ético ou não. Em ambos os lados. Aqueles que necessitam do órgão para viver e aqueles que necessitam do dinheiro para sobreviver.

A conscientização sobre o tráfico de pessoas está crescendo no mundo todo, e atualmente com um número cada vez maior de pessoas conectadas as informações tendem a se espalhar rapidamente.
A sociedade civil tem um papel importante nesse processo. Através do compartilhamento das informações às pessoas da sua rede - principalmente aquelas que possam ser vítimas em potencial das ações criminosas. Se você conhece alguém que possa estar nesse grupo, compartilhe os modos de prevenção. Informe de modo claro e objetivo sobre a existência do crime organizado para o trafico de pessoas. Quanto mais se falar sobre a questão, disseminando as idéias e informações, os modos de prevenção nas cidades e comunidades mais alcance terá a conscientização do problema. Palestras nas escolas para ensinar às crianças as formas de abordagem, comunidades de apoio e suporte às vitimas em potencial e suas famílias, material informativo, envolvimento das mídias através de campanhas, anúncios informativos. Tantas outras formas de envolvimento e participação.


*Um artigo recente sugere que um quinto do aproximadamente 70.000 rins transplantados no mundo a cada ano vem do mercado negro.

*segundo Debra Budiani-Saberi, uma antropóloga médica que estuda o tráfico de órgãos desde 1999. Indivíduos em situação de vulnerabilidade, como refugiados, podem ser forçados a ficarem em dívida e então receberem uma oferta “oportuna” para “doar” um órgão e pagar a dívida.

* Na China, um ponto crítico mundial do transplante de órgãos e do turismo de transplante, os órgãos são obtidos a partir de seu vasto sistema de prisões e campos de trabalhos forçados. Doadores incluem criminosos condenados, bem como dissidentes políticos, tibetanos e praticantes da disciplina espiritual do Falun Gong, segundo Arthur Caplan, professor e chefe da Divisão de Bioética do Centro Médico Langone da Universidade de Nova York. Médicos militares chineses têm acesso a enormes bancos de órgãos vitais alojados no vasto sistema prisional e de campos de trabalho do país.




CRIANÇA DESAPARECIDA
Você viu? Você sabe?
DISK 100
Em qualquer localidade do Brasil




Links de pesquisa:

*Campanha Internacional Coração Azul

*Crianças desaparecidas


*Desaparecidos do Brasil

*United Nations Global Initiative to Fight Human Trafficking (UN.GIFT) 

*Dados e pesquisas – UN.Gift

*Organ Trafficking and Transplant Tourism:
(em inglês)

*Human Trafficking