"Sometimes when I'm empty, when words don't come,
when I find that I haven't written a single sentence after scribbling whole
pages, I collapse on my couch and lie there dazed, bogged in a swamp of despair
, hating myself and blaming myself for this demented pride that makes me pant
after a chimera. A quarter of an hour after, everything has changed, my heart
has pounding with joy."
Gustave
Flaubert
"Às vezes, quando estou vazio, quando as palavras
não vêm, quando eu acho que não escrevi uma única frase depois de rabiscar
páginas inteiras, desabo no meu sofá e deito-me atordoado, atolado num pântano
de desespero, me odiando e me culpando por esse orgulho demente que me faz
bocejar depois de uma quimera. Um quarto de hora depois, tudo mudou, meu coração
bate de alegria."
As palavras acima do escritor
Gustave Flaubert descrevem com precisão o estado de alma dos artistas quando
atravessam um momento de vazio criativo. Condição inerente a criação de
qualquer tipo de arte, o bloqueio criativo é a angustia maior de todos aqueles
que criam. Seja pintura, literatura, musica, dança ou todo processo que envolve
a criação de algo através da imaginação. O fantasma que habita a alma de cada artista.
Não importa qual o processo
criativo eleito, mesmo os mais racionais que trabalham a sua arte com
planos previamente organizados, sentem uma vez ou outra essa ausência de ideias
ou uma angustiante sensação de não conseguir organizar e por em pratica o que
se passa dentro da sua cabeça, no mundo da imaginação.
O grande mestre do cinema
Federico Fellini usou o bloqueio criativo como alavanca e motor para criar uma
de suas obras primas, Oito e Meio
(1963). O filme já tinha financiamento, elenco contratado e pasmem, nada de
roteiro. Fellini em meio ao caos e desespero de assumir a falta de ideias, teve
uma saída grandiosa, uma fresta se abriu ao mundo mágico da sua imaginação.
Usou a sua própria situação como matéria bruta para o desenvolvimento do
roteiro, que fala do personagem Guido Anselmi um famoso cineasta que se encontra
em plena crise criativa. O filme mistura o mundo onírico, fantástico e o mundo
real de Guido revelando os percalços pelos quais a mente criativa percorre nos
enviesados labirintos do território imaginativo e fantasioso dos artistas. A
dor e agonia pela qual os artistas e criadores passam vez ou outra. Mestre é mestre
e Fellini até mesmo na aridez mental conseguiu criar uma obra e tanto.

Wim Wenders, o cineasta alemão também falou sobre esse processo de criação no filme Asas do desejo (Wings of Desire, 1987).
O artista que vivia nos EUA a oito anos decide voltar a sua Berlim natal e fazer um filme sobre a cidade. Wenders nao tinha nenhuma intenção inicial de fazer um filme sobre anjos, impermanência e transitoriedade e eternidade. Ele conta que andava pelas ruas de Berlim a procura de ideias na esperança de que talvez a própria cidade lhe sugerisse algo com que pudesse desenvolver um dialogo e começar sua historia. Com um poema de Rainier Marie Rilke na cabeça (sobre anjos), a percepção de varias imagens de anjos espalhadas pela paisagem urbana de Berlim, o céu da cidade sempre como elemento constante de suas buscas, ele vai aos poucos juntando as peças de seu quebra cabeça.
O tempo e os personagens se misturam e nao há uma ordem linear e ordenada de sequencia. O filme revela sutilmente esse desordenado e complexo processo pelo qual o artista encontra um modo de expressar suas ideias.
O processo criativo em si
mesmo é um caminho tortuoso - doloroso muitas
vezes, porque lida com emocoes em seu estado bruto e esta além do controle intelectual. O artista tem o controle sobre as técnicas utilizadas, a tecnologia e os instrumentos que ele domina. Mas o processo em si é como uma viagem ao desconhecido. Ao longo da jornada imprevistos acontecem e o resultado final sempre 'e muito maior que a soma de todas as partes - "ate certo ponto" imprevisível. O artista trabalha com uma forca desconhecida e fragmentada para ele. As informações objetivas de que ele dispõe sao perpassadas pela soma de todas as suas vivencias, experiências, pensamentos e
sentimentos entrelaçados entre si. Na verdade são como inúmeros pontos
dispersos num campo aberto mas de alguma maneira conectados entre si. Encontrar essa conexão,
dar liga aos elementos diversos que os compõe é a natureza intrínseca da
criação de toda obra de arte. O mundo imaginativo dos artistas é um campo abstrato, amplo e complexo, indefinido por
natureza. Acessar esse campo, arranjar e articular seus conteúdos é
a tarefa do artista. De modo que façam
algum sentido, simbólico, intelectual, espiritual ou seja lá o que for.
Bloqueios temporários fazem parte da nossa condição humana e imperfeita. Nos apontam que somos assim mesmo, seres complexos em constante evolução sujeitos a tormentas e inquietações o que nao significa necessariamente algo negativo. Às vezes (ou muitas vezes) é através dessas inquietações e desse desassossego que nossa alma encontra as respostas que buscamos. Outras vezes esse momento difícil nos ajuda a sairmos da zona de conforto e de caminhos já antes percorridos. Velhas formulas já testadas, conceitos decorados, ideias desgastadas pelo uso repetido.
Os momentos de desconforto, angustia e aflição servem como alavancas que nos impulsionam para novas possibilidades, basta nos permitirmos entrar no fluxo e abrirmos a mente e o coração.
The Angels (Rainier Marie Rilke)
They all
have tired mouths
and
bright seamless souls.
And a
longing (as for sin)
sometimes
haunts their dream.
They are
almost all alike;
in God’s
gardens they keep still,
like
many, many intervals
in his
might and melody.
Only
when they spread their wings
are they
wakers of a wind:
as if
God with his broad sculptor-
hands
leafed through the pages
in the
dark book of the beginning.
P.S. Meu amigo artista Rodrigo Tessaro me escreve seu ponto de vista sobre o que falei acima. Reposto aqui a troca de mensagem entre nós dois como uma maneira de enriquecer o texto e dar mais vida as palavras...