quinta-feira, 4 de junho de 2009

Caminhos da arte






Ver e fruir arte é uma oportunidade de enxergar o mundo através dos olhos da alma. É lapidar o espírito. Participar de um acontecimento, que se situa na fronteira entre o mundo real, e o território mágico da imaginação. Ver além do palpável e do visível. Perscrutar as sombras das coisas, ir além do aparente verniz e brilho que recobre as superfícies. O mundo das imagens é um mundo onírico por excelência, próximo do mundo dos sonhos com sua linguagem simbólica, metafórica, abstrata. Exige entrega, e uma atitude de aproximação e comprometimento muito mais com o coração, do que com a razão. Num primeiro momento a única condição do espectador é o desejo que o move ao encontro do objeto, seja uma pintura, escultura, música ou qualquer outra forma de arte. Vontade de conhecer, desejo de desvendar. Após um primeiro contato, desperta algo dentro do ser, uma poesia inaugural. A aproximação acontece e aos poucos, movido pela curiosidade, o espectador vai tateando entre formas, cores e sentidos, tentando decifrar aquele universo e seus códigos de entendimento. Qualquer forma de conhecimento (e arte também é assim) exige um envolvimento, um entrosamento, e uma entrega, tal qual um “pas de deux”. Lentamente o espectador percebe que esse universo tem sua própria linguagem, seus próprios termos. Num segundo momento, com os sentidos mais afinados e treinados pra entender como as coisas se organizam dentro de seu contexto, como funciona sua dinâmica, acontece outro movimento de aproximação. E aquele universo vai se tornando cada vez mais claro, mais acessível. Podemos penetrar em sua essência e desvendar seus mistérios. O mundo se abre e nossa capacidade de discernimento se expande. Nossa visão se alarga e uma rede de possibilidades afetivas acontece. O olhar treinado vê mais longe, tem mais alcance e visibilidade. Portanto “entender” arte pode ser um processo natural de quem se interessa por arte. Quanto mais treinado o olhar, mais discernimento e entendimento ele tem. Mas só isso não basta. É preciso também abrir o coração, deixar aflorar a sensibilidade, a intuição (que nada mais é do que a soma de todos nossos conhecimentos e vivências, que embora a razão não reconheça a fonte objetivamente, provoca um insight). Aquele “feeling” que pertence ao mundo subjetivo e poético. As Artes, em todas as suas manifestações, não são somente para iniciados e preparados. Basta fazer a escolha e se aproximar num lento processo de familiarização e conhecimento. 



 Amsterdam, 4 maio 2009.

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