sábado, 17 de setembro de 2011

DERVISHES RODOPIANTES, ISTAMBUL


                      Photo by  Peter Morgan em 28 Dezembro 2008. From Flickr


Dervishes Rodopiantes, uma dança para Deus


Muito tempo atrás ouvi falar pela primeira vez dos Dervixes. Alguma coisa me tocou, mesmo sem saber ao certo quem eram os Dervixes e por que tal tipo de sentimento. Anos depois redescubro-os através de uma amiga da Turquia. Conversando sobre a cultura de seu país fiquei encantada ao escutá-la falar sobre Mevlana Rumi, um místico espiritual de sua religião (o Islã). Mas qual foi minha surpresa maior ao saber que os Dervixes pelo quais eu sempre tive curiosidade e certa atração eram nada mais nada menos do que um legado de Mevlana Rumi. Procurei então conhecer mais a fundo quem foi Rumi, suas idéias, filosofia e também sobre os Dervixes, afinal hoje com o recurso da internet tudo está em nossas mãos, imediatamente. Minha intuição a anos atrás acertou em cheio e adorei conhecer um pouco mais sobre esse fascinante ser que um dia existiu no planeta Terra. Mais legal ainda foi descobrir que eu poderia ver os Dervixes ao vivo, assistir a um ritual dos Dervixes Rodopiantes em Istambul (sua cidade base é Konya, onde Rumi viveu e morreu). E ali estava eu eufórica porque um pouco mais tarde viajaria para a Turquia.
Veja você, que coincidência, algo pelo qual eu tinha muita admiração (mas que se encontrava latente) reaparece por acaso na minha frente. As sincronicidades da vida...


Mas quem são afinal os Dervixes?

A origem dos Dervixes se mistura com a história do Sufismo, uma corrente mística dentro da tradição do Islã. Existem a pelo menos 700 anos e nasceram a partir da existência de um ser iluminado chamado Mevlana Celaleddin-i Rumi  ou Jalaleddin Rumi, também conhecido como Mevlana (O Mestre) (30 setembro 1207- 17 Dezembro 1273).

Rumi nasceu na costa oriental do Império Persa na cidade de Balkh (hoje o Afeganistão) e finalmente se estabeleceu na cidade de Konya, hoje Turquia.
Rumi como é conhecido popularmente, era um muçulmano não ortodoxo. Místico e poeta, um ser que alcançou um estado de perfeição humana, de elevação espiritual. Tolerância ilimitada, bondade, caridade e a consciência através do amor eram seus ensinamentos.
Filho de um rígido estudioso, Rumi seguiu pelo caminho do pai e encontrou nos estudos uma fonte inesgotável de saber. Demonstrou desde cedo ser um ser original com suas próprias idéias e pensamentos. Após anos de estudo constatou-se desiludido com o modo como percebia Deus segundo seus mestres e a tradição da religião.
Rumi ansiava por mais, por algo que superasse os ensinamentos que rezava a tradição. Diz a lenda que foi quando encontrou ao acaso um errante pelas ruas, um ser místico chamado Shams de Tabriz. Imediatamente nasceu um forte relacionamento entre os dois que se diziam almas gêmeas no plano espiritual. Shams era um ser não ortodoxo por excelência, vivo e pulsante. O encontro com Shams provocou um estado de elevação espiritual em Rumi transformando-o verdadeiramente em um místico. Nesse momento ele troca a vida intelectual pela espiritualidade. A sintonia entre os dois era tão forte que chegou a provocar discórdias entre alguns de seus seguidores. A história acaba em tragédia, com o assassinato de Shams. Desolado e em luto profundo, Rumi experimenta uma nova revelação espiritual.
Rumi dizia que devemos quebrar nossos condicionamentos sejam eles de qualquer ordem. Na verdade ele estava além, muito além de seu tempo, de sua cultura e sociedade apesar de se posicionar no contexto da conservadora cultura e religião Islâmica. A essência de sua poesia é o encontro com o divino.

Seus pensamentos atravessaram os séculos e ainda hoje se perpetuam através da Ordem Mevlevi, formada pelos  Dervixes Rodopiantes (Whirling Dervixes).

Sua prática consiste num ritual místico (Sema) em que os Dervishes giram sobre si mesmos e em círculos. A dança é acompanhada por músicos que tocam instrumentos especiais e cantam musicas apropriadas. Cada parte do ritual tem um significado simbólico: as roupas, os chapéus, o manto, a saia branca, as cores, o movimento. Simbolicamente representa uma jornada mística da ascensão espiritual do homem através da mente e do amor até Deus. Abandono do ego, encontro da verdade e o crescimento através do amor.
Segundo os Dervixes o movimento de rotação provoca uma espécie de êxtase. Sua crença baseia-se no movimento rotacional dos elementos essenciais da natureza (átomos, prótons, etc.) todos os elementos da natureza giram intermitentemente. O ritual envolve os três elementos da natureza humana: a mente (conhecimento), o coração (sentimentos, música, poesia) e o corpo (através dos giros do corpo, ativando a pulsão da vida).
A experiência de ver uma cerimônia dos Dervixes nos leva a um estado de contemplação, calma e elevação. Retrata bem a alma da filosofia. Tudo começa no mais absoluto silêncio quando os músicos entram na pequena sala numa quase penumbra. Começam seus cânticos/preces que envolvem e acariciam a alma preparando-a para o momento seguinte. A música é quase plangente, nos leva para lugares além do imediatamente visível. Após certo tempo entram os Dervixes em procissão, não são muitos. Eles fazem então suas reverências. Logo em seguida seguindo o ritual simbólico eles se ajoelham. Depois levantam, retiram seu manto negro (que significa o abandono do ego) e com os braços cruzados sobre o peito - significa o numero um, a unidade com Deus - começam a girar. Da direita para a esquerda. Assim como os planetas giram em torno de si mesmos e em torno do sol. Seus giros são em torno de seu eixo (simbolicamente de seu coração). Seus braços se abrem e se posicionam de modos diferentes conforme os giros avançam. Num determinado momento posicionam a mão direita com a palma para cima, que recebe o amor de Deus. Sua mão esquerda se vira para baixo em direção à terra e transfere o amor recebido para o mundo. Durante o primeiro ciclo do Sema os Dervixes olham para todos os mundos. Libertam-se das dúvidas e alcançam o Divino. No segundo ciclo toda a existência se dissolve na unidade Divina. No terceiro ciclo se purificam e atingem um estado de maturidade. No quarto ciclo atingem um estado da Não-existência dentro da Existência Divina. E assim com o solitário som da flauta a cerimônia termina, com um dos participantes recitando palavras do Corão.

Mas a viagem continua, em cada segundo da vida dos Dervixes seguidores da Ordem Mevlana. Um caminho feito de tolerância e acima de tudo amor.
A cerimônia toda dura mais ou menos 45 minutos divididos em sete partes, cada parte com um significado próprio.
*Atualmente Na Turquia - especialmente em Istambul - as cerimônias Dervixes Rodopiantes são apresentadas ao público como parte de seu patrimônio cultural. Por isso existe até mesmo restaurantes que oferecem a cerimônia como atração aos turistas (questionável). Portanto procure por algo mais próximo do original, se possível. Afinal os Dervixes Sufis se espalham por toda a região Asiática, não só na Turquia. Muitos grupos são na verdade anônimos e fechados. Apenas convidados podem assistir seus rituais. Mesmo assim acredito que vale a pena entrar em contato e assistir em Istambul.
Assistimos num local representativo da cultura local, bem próximo a Sirkeçi Estação de trem. O lugar chama-se HADJAPASHA - Hocapasa Culture Center. A apresentação é feita em um local pequeno em condições apropriadas, condizentes com o intuito da mesma. Recomendo. É aconselhável comprar os ingressos com antecedência. Ou reservá-los nos postos de informação oficiais. Existe um bem próximo a Haja Sophia em Sultanhamet. Tem cerimônias todos os dias às 19:30h (exceto Terça e Quinta).




          Photo from website www.columban.org,au - (didn't find out who is the author)




*Em 2005 a UNESCO proclamou a “Mevlevi Sema Cerimônia” da Turquia como uma das obras primas do Patrimonio Oral e Intangível da Humanindade.
* “Rumi é, também, um nome descritivo cujo significado é "o romano", pois ele viveu grande parte da sua vida na Anatólia, que era parte do Império Bizantino dois séculos antes”. Fonte Wikpedia



*Lugares onde assistir os Dervishes Rodopiantes

*HADJAPASHA - Hocapasa Culture Center -   http://hodjapasha.com/
*SIRKEÇI TRAIN STATION   
*Tente aqui  Yenikapi Mevlevihanesi   - umv@mevlana.net
 *Na cidade de Konya onde existe o Museu Mevlevi. No mês de Dezembro tem um festival     onde existem diversas apresentações da cerimônia.
    

    *VIDEOS FROM YOUTUBE


*Fotos - na cerimônia que assisti em Istambul não era permitido fotografar ou filmar, por isso as fotos que posto aqui foram emprestadas do Google Images com os devidos créditos.
A primeira foto retirei do Flickr e pertence a Peter Morgan ; A segunda foi retirada do website www.columban.org.au não havia nenhuma referência ao autor da mesma.
 *the first picture its by Peter Morgan and its from Flickr; click on the link to access it; the seconde one I didn't find out who is the author, the website where it comes from there wasn't any reference about it, it comes from www.columban.org.au). 


“There is a life in you, search that life, 
Search the secret jewel in the mountain of your body, 
Hey you, the passing away friend, look for with all your strength, 
Whatever you are looking for, look in yourself not around.” 
Rumi
  
Maşallah! 

4 comentários:

  1. Parabéns à MONICA CELLA! Excelente o esclarecimento, e como eu pensava, a exibição dos dervixes é quase, se não poso dizer, uma celebração espiritual! Nada de fotos, ingressos, publico grande... apenas o silencio e o Grande Arquiteto do Universo! Mais uma vez, Monica, Parabéns .'.

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  2. Obrigada, os Dervixes são exatamente isso!
    volte sempre

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  3. Depois de rodopiar bastante a procura da história dos Dervishes, (sem saber o nome deles) encontrei seu blog. Lindo! abç.

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  4. O giro dos derviches é da direita para a esquerda.Nos 5 ritos tibetanos é da esquerda para a direita. Tais direções, em ambos os casos, têm uma explicação? Parece que os derviches acompanham os planetas em suas órbitas.Obrigado.

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