segunda-feira, 5 de julho de 2010

(DES)CONECTADOS


As fronteiras já não existem mais. Há muito tempo que barreiras físicas deixaram de existir em boa parte do planeta. Podemos nos deslocar pelo globo, ir e vir facilmente apenas com um passaporte na mão. Antes mesmo de sair de casa podemos visualizar as ruas pelas quais vamos caminhar, checar endereços, roteiros e o transporte que vamos usar.
Podemos planejar uma viagem em detalhes, fazer conexões, refazer rotas, reservar lugares. Viver situações impensáveis em questão de horas.
Os horizontes geográficos se expandiram e nos proporcionaram inúmeras possibilidades de conhecer o mundo em que vivemos facilitando o acesso a lugares que antes só povoavam nossa imaginação ou nossa fantasia.
Através da internet, conhecemos em segundos todas as informações a respeito de um país, sua cultura, seus costumes, as ruas de suas cidades ou qualquer outra questão que nos interessa a milhas de distância física.
As barreiras culturais se estreitaram e nos permitiram chegar mais perto do outro mesmo antes de conhecê-lo de fato. Inúmeras tecnologias existentes hoje - internet, celulares, computadores, wireless, etc - facilitaram essa aproximação e diminuíram as distâncias físicas e o tempo necessários para tal empreendimento.

Estamos todos na mesma aldeia global, tão distantes e tão próximos...tão próximos e tão distantes,
Na ânsia de conquistar o tempo e o espaço, inventamos e construímos aeronaves, trens e carros super velozes. Encurtamos distâncias, diminuímos o tempo para atravessá-las.
A tecnologia e o conhecimento que adquirimos provocaram mudanças radicais no planeta em que vivemos refletindo-se na cultura dos povos e na sua interação com outros povos. Migrações acontecem ininterruptamente e modificam a configuração e a dinâmica de cidades, países, povos e lugares. Estamos formando um emaranhado de gente cada qual com sua própria bagagem, cultura e vivências. Influenciando, provocando e produzindo ressignificações em todos os aspectos. Um movimento de olhar para fora. Conquistar espaços habitáveis, territórios multiculturais.

Tão distantes e tão próximos, tão próximos e tão distantes...

O que ganhamos em avanço tecnológico perdemos em humanidade.
Nossa condição de seres pensantes, imaginativos, criativos que buscam por algo maior e que tem a capacidade de transcender está atrofiando.
Nossos horizontes internos encolheram porque estamos dando mais espaço pra comandos externos, ouvindo mais a voz do consumo desordenado global.
Até mesmo viajar por sua natureza livre e lúdica, que deveria antes de tudo ser um prazer, tem se transformado numa obsessão consumista. Muitos se preocupam mais em passar pelos locais, de preferência “da moda”, do que realmente estar ali, usufruir calmamente suas delícias, aprender com sua gente, sua cultura.
Viajar entrou na roda comprar-consumir-descartar. Em ambos os sentidos: a viagem em si e comprar coisas-objetos.
Vivemos trancados em nossas próprias fronteiras individuais, emparedados pelas nossas próprias couraças “protetoras”. Limitados pelo nosso medo, assombrados com o desconhecido que habita nosso próprio interior, instigados por tantos estímulos, fúteis e vazios de sentido. Desconectados de nossa própria essência.
O homem conhece tudo sobre engenharia, mecânica e física, ciência.
Avançamos em largos passos aspectos importantes do desenvolvimento tecnológico, mas aquele que habita na intimidade do meu ser, nas dobras da minha alma tornou-se um completo desconhecido.
Somos estranhos a nós mesmos.

Não pretendo pensar isso de uma forma retrógrada, conservadora. Dizer que a culpa é disso ou daquilo. Considero nossas conquistas tecnológicas de grande valor. Aliadas na nossa Grande Jornada pela vida.
As mazelas decorrentes, são apenas conseqüências de nossas escolhas, interferências no planeta, nossas ações, não-ações e descuidados. Mas principalmente de comandos externos, tão-longe-tão-perto, que nada mais são do que os grandes poderes econômicos que dominam a Grande engrenagem. Pode até parecer um pensamento paranóico de ultra esquerda. Mas sabemos todos claramente das influências que sofremos vindas daí. Principalmente os desavisados, menos favorecidos. Quem não tem acesso a boa informação, estudos, educação, etc.
Mas é importante refletir, pensar, observar que algo não vai bem. Temos que repensar nossa estadia aqui. De que modo pode ser mais prazerosa, agradável e proveitosa.

Como fazer pra ultrapassar as fronteiras armadas por nossos próprios estratagemas?

Como enxergar as armadilhas construídas por nós mesmos?

Como evitá-las?No contexto desse mundo de portas escancaradas com tantos apelos,
como fazer o movimento contrário, olhar pra dentro, enxergar a nós mesmos?

Monica Cella
Amsterdam 5 de Julho 2010.

Um comentário:

  1. Moca parabéns pelas palavras...
    Agora fiquei viciada no teu blog mulé rsrs

    Bom acho que o primeiro e grande passo é o aceitamento de que algo está errado ou caminha na direção oposta... Quando chegamos a essa questão já estamos a frente de muitos, mas não merecemos mérito isso é só o começo!
    Devemos nos olhar no espelho e perguntar-mos a nós mesmos quem somos? o que queremos? qual nossa essência? se conseguimos fazer isso ótimo.. estamos no caminho certo

    As conquista tecnológicas são importante sim e um marco na história, mas não podemos nunca perder nossa essência, convicção e passarmos a viver "bitolados" seguindo a moda imposta pela sociedade.

    Cada ser tem sua própria convicção, essência e isso deve ser respeitado, lamentamos os que não se conhecem e entram na onde da moda!!

    Palavras mágicas as suas..
    E adorei a foto com nossa princesinha!!!
    Grotjes van Dubai

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