segunda-feira, 31 de outubro de 2011

PETER PAUL RUBENS


 
   Peter Paul Rubens. The Union of Earth and Water. Oleo s/ tela. c. 1618/ 222,5x180,5cm



Apesar de não estar entre meus favoritos Rubens faz parte do grupo dos grandes. Aqueles artistas que deixaram seu legado através de suas obras.
Estar diante de suas pinturas de grandes dimensões, provoca um certo arrebatamento do olhar. As obras envolvem e capturam pra dentro de um mundo longínquo, distante do aqui e agora. Personagens misteriosos, quentes e carnosos. A sensualidade, sempre presente nos personagens, especialmente nos temas de pinturas mitológicas, é potencializada pelas cores quentes, táteis e macias. Nossos olhos percorrem carinhosamente a superfície das coisas, das paisagens e dos personagens, suavizados pelo toque aveludado das tintas. Puro deleite. As mulheres de Rubens são idealizadas, femininas, suaves, porém fortes e determinadas. Elas estão ali como quem diz: eu domino!
A composição de suas obras é teatral, grandiosa e eloquente. Contrastes fortes entre cores simples, claro/escuro - certamente aprendido com Caravaggio - diagonais dramáticas e arrebatadoras. 
A presença Iconográfica na obra de Rubens é uma constante. Na pintura que ilustra o blog, acima The Union of Earth and Water  (1618/1621) exemplifica bem  isso. A figura feminina é Cybele, a Mãe dos Deuses e representa a Deusa da Terra que segura uma cornucópia na sua mao direita.  O Deus do mar Netuno, representa  a água e a união dos dois é abençoada pela Deusa Vitoria, logo atrás de Cybele. Outros elementos como conchas representam o encontro do rio com o mar.
Sua obra (na minha modesta opinião) é virtuosismo puro e simples. Mas não é aquele tipo de arte que eleva, que fala para além da imagem e das coisas ali presentes. Que transforma alguns momentos diante delas em contínua reflexão. Aquilo que permanece com a gente mesmo depois de algum tempo de ver uma obra - como Rembrandt por exemplo.
Mas é uma grande obra, sem dúvida. O maior expoente da Pintura Barroca Flamenga, Rubens pintou diferentes temas: bíblicos, mitológicos, históricos, retratos, paisagens e naturezas mortas. Foi o pintor oficial da Corte de Mantua por oito anos. Viajou por toda a Italia a fim de ver arte e registrar tudo o que via a fim de compor seu repertorio que serviria como referencia para suas pinturas durante toda a sua vida produtiva.



   Retrato de Clara Serena Rubens. c. 1616 (a filha do pintor com Isabela Brant)
 

A história de Rubens...

Interessante constatar como sua obra aconteceu dentro de um contexto muito particular que deu feições próprias e abriu estradas para sua produção de arte.
Rubens nasceu por acaso em Siegen, na Alemanha, mas foi criado em Antwerpia, na Bélgica.  Seu pai era Calvinista e por causa da perseguição  Catolica nos Países Baixos exilou-se com a família na Alemanha. Com a morte do pai em 1589 a mãe volta para Antwerpia onde Rubens é criado segunda a religia católica da sua mãe.  
Foi um homem educado nos moldes humanistas e eruditos da Europa do século XIV. Aprendeu o oficio da pintura desde muito cedo frequentando os grandes mestres Flamengos da época, entre eles Otto van Veen. Apesar de ter estudado leis, revelou desde cedo um talento e uma preferência natos para as artes, sempre devidamente incentivado pela família. Aos 21 anos já era um artista pronto e preparado para alçar voos maiores, mais audazes. Talvez por influencia do mestre van Veen, Rubens viaja para a Itália, a fim de estudar a pintura do Renascimento.
Atendendo a um chamado do Duque Vicenzo de Gonzaga - Duque de Mantova, trabalharia como o pintor da corte. Antes de se estabelecer, no entanto, Rubens visitaria Venezia aonde conhece as obras de Ticiano, Veronese e Tintoretto. Esses artistas causaram um profundo impacto no jovem artista Rubens. Especialmente Ticiano quem marcaria o espírito e a obra de Rubens até sua maturidade.
Financiado pelo seu mecenas o Duque de Mantova, Rubens viaja para Roma e Firenze. Estuda Michelangelo, Raphael e Leonardo da Vinci, arte Grega e Romana e entra em contato com o trabalho de Caravaggio. Essa experiência enriqueceu e influenciou muito o seu trabalho. Além de produzir para a corte (inúmeros retratos para a aristocracia) ele também tinha a liberdade de aceitar encomendas externas. Tornou-se famoso entre as elites da época e muito bem pago pelo seu oficio.
Além de artista virtuoso, Rubens possuía um caráter afável, receptivo e amigável para com as pessoas. Descrito também como um homem bonito e cortês. Essas qualidades o levaram mais longe e assim a pedido do Duque de Mantova, Rubens viaja para Espanha em missão diplomática com agrados do Duque para a corte de Filipe III.
Estreita seus laços com os membros da realeza espanhola e suas encomendas crescem na medida de seu prestígio. Outras oportunidades de viagens diplomáticas no futuro iriam também abrir novas portas para a carreira de Rubens.
Mais tarde em 1608 ele retorna a Antuérpia, a princípio pela morte de sua mãe, mas logo em seguida decide ficar. Foi convidado a ser o pintor da corte espanhola nos Países Baixos. Naquele tempo a Espanha fortemente católica lutava pela hegemonia dos Países Baixos (Bélgica e atual Holanda) contra a crescente predominância dos Protestantes e Calvinistas. A necessidade de propaganda política através da arte abria portas de oportunidades para o tipo de trabalho que ele sabia fazer tão bem.
Com o domínio da Espanha católica na região de Flandres a demanda por arte sacra da Igreja ofereceu uma grande abertura para Rubens. O começo de um período de prosperidade e riqueza.
Rubens além de artista virtuoso e hábil político (diplomata) também era um empreendedor visionário e excelente condutor de seus negócios. Iniciou um atelier de pintura que empregava um elenco de inúmeros pintores, aprendizes e assistentes. Nos moldes das italianas. Entre eles, um especialmente se tornou famoso Anthony van Dyck.  
Seu estúdio produziu mais de duas mil obras enquanto o pintor viveu. Rubens trabalhava com um método em que as pinturas eram executadas coletivamente. De início fazia (ou mandava seus assistentes fazer) um esboço preliminar sobre o assunto da obra. Entregava então para o cliente que decidia pela realização ou não da mesma. Assim, se a obra era aprovada Rubens iniciava o trabalho com os esboços e desenho e os assistentes continuavam com as tintas até chegar no acabamento final dado sempre pelo mestre.
Rubens foi o equivalente ao hyped artista contemporâneo atual: famoso, incensado, hiper cultuado e over priced. Teve fama, sucesso e dinheiro desde muito cedo na sua carreira - fato bastante incomum para época. Visionário, muito além de seu tempo, anteviu o que hoje se chama marketing pessoal.
Fez sua pintura, sua carreira e sua história organizadas em uma base meticulosamente estudadas e ordenadas. Soube aproveitar a demanda do momento, empreender seu talento a favor do poder dominante de então: a Aristocracia aliada a alicerçada pela poderosa e influente Igreja Católica.
Sua obra revela seu tempo, seus ideais e seu virtuosismo preciso. Mas sobretudo a perspicácia e o talento de um jovem que conquistou seu espaço na história da pintura.

*Peter paul Rubens
Siegen, Germany. 28 Junho, 1577
Antwerpia, Belgica. 30 Maio, 1640

Alguns links sobre Rubens:

*Rubenshuis (Casa Museu de Rubens em Antuérpia)
 Exposição:  Rubens, Van Dyck  e Jordaens
De 17 Outubro 2011 a 16 de Março 2012



Peter Paul Rubens. The Descent from the cross. 1612/1514- Oleo s/ tela 420,5cm x 320cm





The Honeysuckle Bower ou Auto retrato de Rubens e sua esposa Isabela Brant. ca. 1609 -Oleo s/ tela, 178cm x 136,5cm






Nenhum comentário:

Postar um comentário