quinta-feira, 9 de maio de 2013

Rijksmuseum, integrado ao seu tempo




                                Photo by Pedro Pegenaute


O Rijksmuseum está aberto novamente, e pode-se dizer que no sentido metafórico também. Surpreendentes e ousadas novidades esperam pelo público.

O diretor do museu Wim Pijbes é um entusiasta de seu tempo e das tecnologias e inovações da nossa era. Aberto e dinâmico ele propõe mudanças que vão além da fachada. Oferece um novo museu, onde a arquitetura moderna incorporada à antiga se alarga e contagia com uma nova abordagem da arte clássica, dos Velhos Mestres, da Grande Arte. Ele oferece um novo museu integrado ao seu tempo sem o autoritarismo e a sacra seriedade de outrora. Sem altares nem idolatrias, sem o ranço do bom gosto acadêmico.
Além das mudanças físicas no prédio gótico-renascentista de autoria de Pierre Cuypers que foi inaugurado em 1885, têm muitas outras.

Para começar, a exibição das obras segue uma abordagem muito diferente da anterior e algumas regras foram quebradas. Tradicionalmente o museu seguia um modelo de curadoria por departamento, onde a coleção (cerca de 1.000.000 de peças no total) - que contém desde arte aplicada da idade medieval até a moderna e obras primas da Golden Age- era exposta por modalidade. Pinturas na seção de pinturas, esculturas na seção de esculturas e assim por diante. Agora a coleção é exibida por ordem cronológica. Objetos, pinturas, desenhos, gravuras estão numa mesma sala. Cada seção mostra obras de um determinado século. Numa sala com uma pintura de guerra como, por exemplo, A Batalha de Waterloo, de Jan Willem Pien (1824) o expectador também vai encontrar em exposição  armas, objetos decorativos, desenhos e gravuras do mesmo período. As peças dialogam entre si contando histórias do tempo a que pertencem. No caso das pinturas de uma artista, por exemplo, tem-se uma idéia mais clara sobre como era a época e o contexto de sua obra.A essência da idéia é trazer a arte clássica para mais perto do público, promover um verdadeiro encontro com as obras. 


O curador do museu Taco Dibbits diz que "atualmente o publico está acostumado a ver tv, fimes e fotografia, objetos bidimensionais - então eles passam para as pinturas...misturando os diferentes meios nós esperamos que as pessoas vão começar a ver novamente esses objetos". 
A idéia de misturar as duas formas, objetos dimensionais e tridimensionais a fim de que o espectador consiga de fato ver novamente e melhor apreciar as obras também está presente na nova proposta do museu em relação ao compartilhamento das imagens. Nessa questão eles vão além. Agora é permitido fotografar todas as obras. Isso mesmo, fotografar todas as obras! Pode parecer esquisito porque antes a qualquer movimento das mãos os seguranças já alertavam: no photos! 
Isso faz parte de um projeto maior que agora também disponibiliza ao público no website do museu imagens em alta resolução de 125.000 obras da coleção, sem custo algum.  Antenado com seu tempo o curador reconhece a força e o impacto dos meios de compartilhamento de imagens, mas não só isso. A inovação parte do pressuposto de que a inteira coleção de arte do Rijks já é de domínio público, portanto pertence a todos. Se as obras pertencem a todos nada mais justo do que compartilhar as imagens com o público. Assim também seria um modo de manter a qualidade na reprodução das imagens mundo afora. No website do Rijks tem um Rijksstudio onde a pessoa se registra e tem acesso a todo o conteúdo. Pode fazer o download das imagens e imprimi-las onde bem quiser. Tem várias idéias e sugestões também.
Outra questão que chama atenção é que não se vê nenhuma espécie de eletrônicos no museu.  Pressupõe-se que o espectador já tenha seus próprios gadgets. Aliás, as apps do Rijks permitem que o espectador faça sua própria curadoria, organize sua própria exposição por temas, de acordo com seus desejos e interesses.
A nova curadoria optou por um conceito mais enxuto na escolha das obras expostas, menos é mais. Mantendo inclusive uma harmonia com a estética holandesa, simples e limpa, sem rebuscamentos. Para tanto os curadores dos diferentes setores do museu tiveram que fazer opções e renúncias na escolha das obras. A essência é trazer ao público uma exibição sobre a beleza e o tempo.

Os objetos também revelam pouco sobre si mesmos, eles apenas revelam as informações básicas nas etiquetas. A curadoria acredita que o próprio publico, se interessado em obter mais informações sobre determinada obra pode baixá-la em seus smartphones/gadgets.

“eu acredito na autenticidade, na autoridade dos próprios objetos”

diz o curador do Rijks Taco Dibbits. Ou segundo Duncan Bull, curador de pinturas estrangeiras

“nós queremos que as pessoas eduquem a si mesmas através de sugestões, não queremos pregar a elas”.

Bem ao estilo muito holandês, diga-se de passagem: faça você mesmo.



                                                Photo by Pedro Pegenaute


                                         

                                          Photo by Iwan Baan


                                          Photo by Iwan Baan


                                         Photo by Pedro Pegenaute
                                         Passagem interna: ciclistas, pedestres, visitantes 


*A renovação e restauração do Rijks foi feita pela empresa espanhola  Cruz Y Ortiz Arquitetos  em trabalho com o arquiteto francês Jean-Michel Wilmotte e com o arquiteto restaurador Van Hoogevest
 
*A antiga passagem de bicicletas por dentro do museu permaneceu aberta. Aliás, venceu! Após longos e intermináveis anos de disputa. Os moradores entusiatas do uso da bicicleta lutaram e protestaram veementemente para ter o direito da passagem aberta. Quase uma instituição dos locais, e de Amsterdam também. No momento está ainda fechada até junho quando deve ser reaberta ao publico. Felizmente! Dentro da passagem as antigas paredes de tijolos foram substituidas por vidros, assim os ciclistas e pedestres tem uma visão para dentro do museu.

*As paredes foram coloridas com cinco tons sóbrios de cinza de acordo com a paleta original de Cuypers.  As obras que exigem vidro usam o material de última geração, permitindo uma visão limpa e clara.

*8.000 objetos expostos em 80 galerias, apenas o aclamado Night Watch de Rembrandt foi mantido no local original na Sala de Honra como foi concebido pelo primeiro arquiteto do Rijksmuseu Pierre Cuypers.

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