Wednesday, 23 September 2015

FILMES 1





                                          Filme Wings of Desire. Wim Wenders. 1988.
                                          Foto by Everett/Rex



Ir ao cinema é um ritual. Você decide pelo filme, cria algumas expectativas, compra os ingressos, passa no balcão e compra uma pipoca e entra na sala procurando pelo seu lugar "quentinho". Por algum tempo esse lugar vai te proporcionar uma viagem, uma aventura, uma descoberta. Por algum tempo você vai viver outras vidas e mergulhar pra dentro das emoções daqueles personagens. 
Acomode-se, o filme está prestes a começar...

Se tem algo que eu curto muito é assistir a um bom filme. Nossa atividade preferida em família, desde a escolha do filme aos comentários no final é diversão na certa.
O cinema tem algo mágico (isso é muito clichê eu sei...) tem o poder de nos transportar para dentro daquele universo tão único e especial que é a visão de um diretor. O arranjo de todos os elementos que compõem e constituem o filme: a fotografia, o roteiro, a direção, os personagens, o figurino e tantas outras coisas formam uma liga que amarra e mantém a trama fazendo-nos viajar ao longo da história contada. 
Por alguns momentos a vida fica em suspenso e vivemos outras vidas e outras possibilidades. Os personagens vem até nós, nos convidam a dar um mergulho dentro da sua intimidade, dos seus pensamentos, emoções, sonhos e dramas. E vivemos aquele turbilhão de emoções, vidas e eventos que se entrecruzam e se mesclam com a nossa própria vida. 
Quanto mais bem construido o filme, quanto mais rica e intrincada a vida interior dos personagens, mais oportunidades ele nos oferece. O cinema tem a grande capacidade de expandir a nossa consciência, alargar nossas perspectivas do mundo e até mesmo quebrar nossos paradigmas. Na verdade toda arte tem a potencialidade de fazer isso. Mas a linguagem do cinema por ser mais dinâmica e envolver os sentidos, visão e audição, nos arrebata mais fácil e docilmente, não oferece obstáculos. Somos quase que interceptados, capturados pra dentro daquele mundo como ou sem a nossa autorização. Ao contrário de uma tela ou escultura por exemplo, que requer nossa iniciativa e empenho, nossa participação mais ativa em perscrutar o que está acontecendo ali. Depende da nossa vontade de ficar ou ir embora.
Um filme bem feito pode ser de qualquer tipo, comédia, drama ou ação, ficção científica ou thriller. O que importa é o modo como a historia é tratada, como é elaborada e transformada em um produto não acabado, aberto ao nosso entendimento, participação e ressignificação. Quanto mais camadas de interpretação e significado tem um filme melhor ele é - na minha modesta opinião. Filme bom é aquele que cola em você, mesmo depois que você vai embora ele fica lá, perambulando pela tua cabeça mesmo que você nem perceba a sua presença. Algo aconteceu, algo se transformou, dentro da gente...aquele que entrou nao é mais o mesmo que saiu. Pode ser até uma comédia, daquelas que só se faz rir. E a sensação no final é de leveza, calma e alegria. E isso também é bom e também é transformador e redentor. Sim o mundo pode ser um lugar bom de se estar. Mesmo que momentaneamente, no escurinho do cinema...







Life's a breeze
Genero: comédia
Ano: 2013
Diretor: Lance Daly
País: Irlanda
Pat Shortt and Fionnula Flanagan.
Eva Birthistle, Gerry McCann, Philip Judge, Lesley Conroy, Peter Coonan, Brian Gleeson, Paul Ronan and Kelly Thornton, participação especial de Ryan Tubridy e Joe Duffy.
Os filhos decidem fazer uma faxina na casa da mãe, uma idosa aposentada, sem que ela saiba. Quando ela retorna, eles animadamente a levam para um tour pela nova casa, onde todo o entulho guardado durante anos e anos foi jogado fora. Petrificada, a mãe pergunta pelo colchão...onde supostamente guardava suas economias de muitos anos, um milhão de euros! Começa então uma corrida maluca em busca do colchão que a esta altura já está no sistema de reciclagem de lixo da cidade - Dublin. Uma comédia deliciosa que faz rir e pensar ao mesmo tempo, de um modo leve e suave. Os dramas da vida sem muito drama. O filme aborda algumas questões importantes da vida. Os relacionamentos entre filhos e os pais que envelhecem e as implicações disso na vida cotidiana. O próprio fato irreversível do envelhecimento e suas consequências, vivido pela personagem Nan (a espetacular Fionnula Flanagan). Destaque também para atriz Kelly Thornton (a neta de Nan). Na verdade o filme se sustenta através dessas duas atrizes que se comunicam pelo olhar.  



Holanda, o País das águas II - MAESLANTKERING (Maeslant Surge Barrier)



    Foto: Beeldbank Rijkswaterstaat


Os holandeses têm um caráter pragmático, objetivo, prático e disciplinado. Mas a tenacidade desse povo, seu espírito de união e comprometimento com o todo, o sentimento do coletivo fica muito mais claro e evidente quando nos deparamos com algo concreto, tangível aos olhos e ao entendimento. 
Não só ao alcance da visão, mas com uma abrangência muito maior e de vital importância para a segurança de seu povo. Refiro-me ao espetacular projeto Delta Works
(Deltawerken). Um ícone da engenharia holandesa e da sua maestria no domínio da tecnologia do controle das águas. 
Uma série de barragens, diques, represas, eclusas e comportas que protegem a Holanda da invasão das águas. Seja do mar, dos afluentes dos rios, de inundações por chuvas ou qualquer evento que ameace as terras abaixo do nível do mar. Uma maravilhosa obra de engenharia já chamada pela American Society of Civil Engineers como uma das Sete maravilhas do Mundo Moderno. 
A maioria das obras situa-se na região sudoeste da Holanda e protegem a área do delta dos rios Reno, Mosa e Shelde (Rijn-Maas-Scheldedelta). Isso significa também o enorme porto de Rotterdam, entrada vital para o pleno funcionamento da economia do país.
O projeto Deltawerken demorou cerca de 30 anos para ser finalizado.



                                          Mapa das obras do Delta Work

                                     
A luta contra as águas é presença constante nos Países Baixos. 
Faz parte de seu passado e de sua história, marcando profundamente a alma desse povo - por isso suas características tão assertivas.   
Faz parte de seu presente, através do controle absoluto e preciso do nível das águas. 
Com igual importância fará parte de seu futuro com tantos desafios a serem superados num planeta em que as ações humanas estão afetando drasticamente a natureza.
Olhando para o passado têm-se uma idéia dos constantes esforços para a proteção das Terras Baixas. 
Por volta de 1927/33 quando foi construído o grande dique Afsluitdijk, no norte, já havia planos para a proteção da costa no sul, das freqüentes inundações. Devido à II Guerra Mundial e outras questões o plano foi adiado.
O fator decisivo para a implementação do projeto foi em 1953 quando houve um grande acidente climático, grandes inundações onde as marés altas e um furacão destruíram um dique de proteção no sudoeste do país (onde se encontra o delta dos rios citados acima, Reno, Escalda e Mosa) causando a morte de milhares de pessoas e destruindo mais de 160.000 hectares de terra. O fato foi determinante para que as autoridades revissem o sistema de proteção, empreendendo de vez seu maior projeto hidráulico de contenção das águas, o DELTAWORK.
Ao longo do caminho o projeto inicial foi sofrendo alterações e se adaptando as necessidades de preservação do meio ambiente. O estuário de Oosterschelde (Eastern Scheldt) era inicialmente para ser bloqueado através de uma barreira e suas águas salgadas transformadas em água doce. Devido à pressão da opinião pública (pescadores e ambientalistas) o governo alterou o projeto a assim ao invés do fechamento total optou-se por uma grande represa que permitiria o fluxo das águas e seu controle, preservando assim o ecossistema de águas salgadas. A represa permanece aberta em condições normais e somente quando as águas atingem três metros acima do nível esperado elas então se fecham impedindo inundações. Como complemento de proteção velhos diques foram reforçados, ampliados, outros foram criados e novas rotas de navegação ao porto de Rotterdam e Antwerpia na Bélgica.






                                     MAESLANTKERING (comportas fechadas)







Entre as obras do Delta Work que mais se destacam está a Maeslantkering, citado acima. Situada no Niewe Waterweg a principal rota de passagem dos navios rumo ao porto de Rotterdam.
Foi niciada em 1991 e concluída em 1997.  A grande barreira móvel foi a solução encontrada para proteger o porto de Rotterdam e toda a área em torno. Cidades e áreas de agricultura e também permitir a passagem dos navios.

Ao contrário de uma barreira fixa, a Maeslantkering é composta por dois grandes portões flutuantes ocos, de estrutura de metal. Os braços da estrutura são móveis permitindo a abertura e o fechamento do canal. Conectados à base por uma esfera que funciona como uma articulação móvel no seu eixo de conexão com a base (a exemplo de uma articulação humana). Assim o movimento dos portões não é rígido, permitindo sua mobilidade livremente sob influências de ventos e da força das águas.   
Em condições normais, os portões ficam nas docas laterais em lugar seco e protegido. O funcionamento se dá quando as docas são preenchidas pela água permitindo aos portões flutuarem e lentamente se fecharem. Quando os dois braços se encontram os reservatórios que compõem sua estrutura se enchem de água e lentamente afundam. Assim se forma uma sólida contenção das águas em caso de ameaça de inundação.

Todo o sistema para um eventual fechamento dos portões funciona através de um sofware especial de computadores. Esse sistema por sua vez está conectado com os dados atmosféricos, de oscilação das marés e outros parâmetros. Assim que o nível das águas atinge a marca de três metros, e todos os parâmetros são atingidos, o sistema aciona o fechamento da barreira.




MAESLANTKERING(comportas abrindo)


*Em caso de fechamento, o processo todo leva cerca de 90 minutos;

*A expectativa de acordo com estatísticas é que a Maeslant se feche uma vez a cada dez anos;

*Embora seja ativada, uma vez por ano para fins de teste, a barreira só foi fechado uma vez, em resposta a um aumento nas marés em 2007.

*Quando fechada a barreira o nível de água do lado do lado do Mar do Norte fica mais alto exercendo uma enorme pressão sobre a barreira com força suficiente para derrubar um grande navio;

*A articulação em forma de bola é a maior do mundo, com um diâmetro de 10 metros e pesando 680 toneladas;

*Cada um dos portões tem 22 metros de altura e 240 metros de comprimento;

*Levou seis anos para construir a barreira;

*Para informações mais detalhadas e informações sobre a gestão da água na Holanda, as pessoas podem visitar o centro de informações, que está aberto todos os dias ao lado da Maeslankering, a entrada é gratuita;

*O Europoortkering-project custou 660 milhões de euros;

*MAESLANTKEIRNG (site do museu que fica ao lado da barreira)  
*Aqui tem uma rota turistica que passa por todas as obras do Delta Work (em holandes)
*Site sobre o DELTA WORK

*Ha treze Delta Works nas províncias de Zeeland, Noord-Brabant e Zuid-Holland:

1- Oosterscheldekering

2- Bathse Spuisluis

3- Haringvlietsluizen

4- Brouwersdam

5- Hollandsche IJsselkering

6- Grevelingendam

7- Oesterdam

8- Maeslantkering

9- Philipsdam and Krammersluizen

10- Volkeraksluizen

11- Veerse Gatdam

12- Zandkreekdam

13- Hartelkering



A história conta...

 

Por ser uma baía de grande extensão o Zuiderzee estava exposto as freqüentes tempestades do mar do Norte que forçavam a água para dentro da baía inundando vilas. Idéias a fim de proteger a região já existiam no século 17, mas ainda impraticáveis devido a falta de tecnologia para isso. No entanto somente no século 19, foi possível desenvolver a técnica que implementaria o projeto.

O responsável por isso foi o engenheiro civil holandês Cornelis Lely que em 1891 propôs as bases para a construção de uma barragem (um grande dique) para o fechamento do Zuiderzee, transformando-o em um lago. As águas não tão profundas do Zuiderzee (em torno de 4 metros de profundidade) facilitariam a execução do projeto apesar de toda a precariedade na época. Além disso, o projeto também incluía a construção de quatro polderes no lago (que após a conclusão do projeto se chamou Ijselmeer). Os polderes serviriam como terras cultiváveis para a agricultura. Mais tarde se dividiram em apenas dois.

Mas a idéia de Lely ainda não teria espaço para se concretizar. Em 1913 quando se tornou ministro dos Transportes e Obras Públicas o engenheiro conseguiu alavancar seus planos apesar das resistências. Pescadores ao longo do Zuiderzee estavam preocupados se iriam perder seus meios de subsistência. Outros estavam preocupados que um projeto como este pode criar maiores níveis de água em outros lugares ao longo da costa. O governo preocupado com o custo enorme do projeto.

 Em Janeiro de 1916, durante uma tempestade de inverno vários diques quebraram ao longo do Zuiderzee e o resultado foi inundações como no passado.

 Após este desastre o plano ousado de Lely ganhou apoio popular e em14 de junho de 1918 a Lei Zuiderzee foi aprovada e o projeto foi oficialmente iniciado e assim foi criado o AFSLUITDIJK o maior dique da Holanda com 32 km de estradas sobre ele.

Seus objetivos eram para proteger a região contra enchentes do Mar do Norte, aumentar a oferta de alimentos do país, criando polders que poderiam ser transformados em terras agrícolas e usar o que restou da Zuiderzee para melhorar a gestão da água.



    Oosterscheldekering

Sunday, 21 June 2015

REMBRANDT e a natureza transcendental da arte


A arte de Rembrandt é um legado que testemunha a grande capacidade humana de transcendência, da transformação do infortúnio e da dor em amor. Suas obras do ultimo período exprimem com arrebatamento essa compreensão do mundo. Uma espécie de consolação para o espírito, um alento para os questionamentos da nossa condição humana. O encontro da beleza com o sentido da vida.
Seu valor artístico vai além da estética e da genialidade pictórica, da técnica propriamente dita. Empurrou seus limites além das fronteiras do imediatamente visível e louvável,  expandindo os caminhos  e significados de sua arte. Sua vida sofreu drásticas mudanças durante as quais ele continuou a criar a despeito das adversidades.
   
    Retrato de um casal, como Isaac e Rebecca - mais conhecido como "A noiva Judaica". o/s/t 1665-1669. 121,5m x 166,5m. Rijksmusem, Amsterdam.

Um casal é retratado em roupas históricas como os personagens bíblicos Isaac e Rebecca. Nada se sabe de concreto sobre quem seriam esses personagens na vida real. A teoria mais aceita é que seria um casal de contemporâneos  eternizados no dia de suas bodas. O que é reforçado por esboços do próprio Rembrandt. Especula-se também sobre a jovem noiva e seu zeloso pai que enlaça um colar de pérolas ao seu pescoço - de onde vem o segundo nome do quadro - A Noiva Judaica - apelidado por um comerciante de artes do século 19.
Rembrandt captou a intensidade e intimidade dos sentimentos entre o casal de modo profundo e terno. Oi dois formam uma única figura conectados pelo sentimento que os une. Delicadeza de gestos e expressões. Aqui Rembrandt expressa toda sua maturidade artística. A luz que jaz sob grossas camadas de tinta na manga do noivo revelam uma técnica que somente anos depois seria retomada por outros artistas. Van Gogh teria dito sobre essa obra: " Eu seria feliz em dar dez anos da minha vida se pudesse continuar aqui sentado em frente dessa pintura por uma quinzena, com apenas um pedaço de pão seco para comer."


Construiu sua carreira seguindo a formação tradicional dos artistas da época. Frequentou uma escola onde a ênfase eram os estudos bíblicos e clássicos e a oratória. Aprendeu o oficio da pintura junto de renomados mestres. Em Leiden sua cidade natal, com Jacob van Swanenburch e em Amsterdam posteriormente, com Pieter Lastman. Com o primeiro recebeu as técnicas básicas do oficio e com o segundo foi treinado como pintor de gênero histórico. Esse tipo de pintura era considerado o mais sofisticado de todos. Personagens bíblicos, históricos e mitológicos eram representados em cenas complexas. Trabalhou para eles, de acordo com o sistema das guildas e mais tarde teve seus próprios alunos e seu próprio atelier. 
Entre os principais pintores holandeses foi um dos poucos que teve reconhecimento e prestigio enquanto ativo. Ganhou dinheiro, fama e status por algum tempo.
No inicio pintou muitos retratos e auto retratos, estes últimos foram mais de oitenta. O uso de seu próprio rosto como assunto pictórico pode ser considerado apenas por questões praticas ou até mesmo como commodity, já que o tema era bastante popular e vendável na época. Um período na Holanda seiscentista prospero para o mercado da arte. Visto sob a perspectiva do presente, seus auto retratos são um registro de como a visão de si mesmo, reflete a evolução interior de seu estilo.
Logo vieram as pinturas históricas, bíblicas e mitológicas, temas recorrentes durante os anos na sua carreira.  A gravura foi outra modalidade de arte na qual ele foi um verdadeiro mestre.




Self Portrait , 1959. National Gallery of Art- Washington, D.C.
Rembrandt fez inúmeros auto retratos. Aqui um dos últimos, ele se revela em sua plenitude, tanto como ser humano quanto em sua maturidade como artista. Honestidade, franqueza e dignidade. 



Liberdade de ser e criar 

Através de toda a sua vida o mundo visível foi a fonte imediata de suas inspiração. A impermanência, os acasos e imperfeições, a matéria bruta que compõe a vida comum e diária. Rembrandt  foi uma alma livre. Rejeitou os padrões de beleza e feiura convencionalmente aceitos na época, escolhendo seguir seu próprio caminho. Sua obstinação e rebeldia nunca permitiram que fosse governado por quaisquer convenções que não as que ele mesmo acreditava. 
Representou as figuras e acontecimentos bíblicos de modo laico e modesto. Seus personagens parecem pessoas comuns, gente do povo ao invés de santos, profetas ou filósofos. São representados de forma crua, sem maquiagem ou arranjos que pudessem “emprestar”  algum tipo de dignidade, pompa ou status ao tema/objeto representado. Foi hábil em captar os estados de espírito de seus retratados e através de suas mãos o espectador é capaz de vislumbrar aspectos além da trivial aparência. 
Segundo o historiador Arnold Hauser: “Rembrandt atinge uma fase de desenvolvimento...diretamente depois do primeiro período como retratista; desse período em diante, a pintura é para ele uma forma de comunicação pessoal e direta...que converte em realidade tudo que o olho capta e possui”.
Nos últimos dezoito anos sua arte sofreu uma radical transformação. A partir de 1942 sua vida é marcada por crises: incertezas interiores e problemas exteriores. Entra em crescente colapso financeiro e perde sua esposa Saskia, com a qual teve o filho Tito e outros três natimortos. Reduz drasticamente sua produção e seu trabalho passa a ser mais experimental, ganha profundidade psicológica e um caráter mais intimista. 
Muitas especulações cercam a vida do artista nesse período, criando um mito que muitos autores contribuíram em manter. Faltam no entanto, registros concretos sobre o que de fato teria provocado mudanças tão drásticas na sua vida privada e profissional.



Bathsheba com a carta de David. o/s/t 1654. 142m x 142m
A Bíblia fala do amor do Rei David por Bathsheba a mulher do guerreiro Uriah. O Rei convida Bathsheba ao seus aposentos através da carta em suas mãos. Ao invés do clássica representação, Rembrandt escolhe nos mostrar a cena de modo diferente. Ele foca no conflito interior de Bathsheba: deve permanecer fiel ao marido ou se submeter aos desejos do Rei?


Gravuras
Rembrandt é considerado um dos maiores gravuristas de todos os tempos. Sua importância na arte gráfica compara-se a Durer. Explorou a gravura nas técnicas de água forte e ponta seca com uma riqueza de possibilidades e detalhes deslumbrantes, produzindo obras de rara beleza. Em pequenos formatos suas gravuras são como pequenas joias lapidadas. Mínimos detalhes, a distribuição sutil e delicada da luz e das sombras, os espaços ocupados e os vazios na composição. Quem já fez gravura consegue compreender melhor o que isso significa. É uma técnica extremamente precisa, exigente. O artista deve ser rigoroso, perseverante, não só total dedicação e técnica mas sobretudo talento. Com certeza as gravuras de Rembrandt vão além disso, exprimem uma gama de efeitos não só técnicos mas de amplo espectro emocional.



O Sepultamento. 
Gravura: água forte e ponta seca; Entre 1952/1956. (21,1cm x 16,2cm)
Cristo esta sendo colocado na tumba enquanto seus entes queridos o rodeiam em espírito de luto. Quase tudo permanece na sombra enquanto o corpo de Cristo é iluminado pela tocha atraindo imediatamente nosso olhar - escondida atrás do homem de costas para nós,  As áreas de sombra na cena consistem em fortes e expressivas linhas paralelas dando a tensão necessária ao todo.  A escolha do tipo de papel, nesse caso papel Japonês amarelo, reforça o amarelado da tocha de luz. A cena é dramática e triste mas ao mesmo tempo suave e amorosa. Tudo isso em apenas 21,1cm x 16,2cm!



Os trabalhos do período final
O Rijksmuseu apresentou recentemente uma exposição  dos trabalhos tardios de Rembrandt, dos últimos dezoito anos de sua carreira. A exposição explorou dez assuntos que "conversam" com o espectador sobre os motivos mais recorrentes na sua carreira. Luz e sombra, os auto retratos, convenções sociais, técnicas experimentais, intimidade, contemplação, conflitos internos e reconciliação.
Mais de cem obras entre pinturas e gravuras. Uma coleção temporária merecedora de toda a honra, entrega, olho e silencio. Ali o mestre se mostra em toda a sua plenitude. O passar do tempo só fez crescer sua arte. Os auto retratos revelam ao mesmo tempo o artista e o ser humano. A passagem impiedosa do tempo nos devolve uma imagem cheia de dignidade e integridade. Os olhos que nos perseguem no espaco da sala de exposição são  intensos e puros. Um longo e honesto  olhar de quem viveu e trabalhou intensamente. Sabedor de que seu oficio transcende o tempo e a matéria e que um dia nos encontraríamos aqui e agora no futuro.
Rembrandt explora  perspectivas inovadoras na posição de seus retratados revelando-nos seus sentimentos mais íntimos, uma forte característica desse período. Muitas das figuras são  contemplativas, em obras de grande formato: filósofos, profetas, figuras mitológicas, apóstolos. Há uma comunicação imediata com eles, através do olhar, de suas expressões faciais, densas ou  introspectivas, recolhidas em pensamentos longínquos. Sugerem que algo importante está acontecendo ali, seja no plano do mundo físico e visível ou no reino dos pensamentos e emoções. 


AS CORES.
Cores, luz e sombra. Elementos que o mestre soube como ninguém potencializar, elaborando-as em refinadas misturas. Cores quentes, cheias de energia, afabilidade e ternura. Nos colocam muito próximos do momento em que as coisas acontecem, das emoções dos personagens. Quanta riqueza de nuances nas camadas que se sobrepões umas as outras formando texturas quase palpáveis aos olhos. Irradiam uma energia que acalma e afaga. Sentimos empatia, um vinculo que nos une e conecta ao universo de Rembrandt.
Talvez esteja aí o porque de nos sentirmos capturados, abduzidos para dentro das telas. As cores nos seduzem, acariciando-nos com seus tons mornos e aveludados, nos levam por enigmáticos caminhos cheios de significados. Nos sentimos tão bem junto dessas imagens, que não temos vontade de partir. 


Jacó abençoando os filhos de José. o/s/t 1656. 1,73m x 2,09m. 
Gemaldegalerie Alte Meister, Kassel.
Quando Jacó adoeceu, seu filho José trouxe seus filhos para serem abençoados pelo avô. Tradicionalmente a primeira bênção com a mão direita era reservada para o filho mais velho, mas Jacó favoreceu o mais novo. A maioria das ilustrações dessa cena bíblica mostram José muito bravo tentando corrigir seu pai. No entanto aqui, Rembrandt faz sua própria interpretação. Ele escolhe a harmonia ao invés do conflito. José entende a escolha do pai e gentilmente apoia a mão do velho homem.


No seu tempo havia uma convenção em como pintar narrativas históricas, bíblicas e mitológicas. Certas passagens serviriam melhor para ilustrar a mensagem do que outras. Mas ele ousou romper com a tradição escolhendo momentos após um conflito ou tensão onde o personagem reflete sobre seu pesar e se reconcilia com Deus (como em Jacó abençoando os filhos de José, acima).
Joshua Reynolds compara o estilo tardio de Rembrandt com a natureza: "O trabalho (de Rembrandt) produzido de forma "acidental", tem o mesmo livre e desenfreado aspecto que as obras da natureza...". Reynolds se refere as pinceladas livres, soltas, quase que feitas ao acaso. Visto de perto algumas dessas obras parecem ter sido feitas de modo casual. As camadas de tinta, texturas, o rápido e visível rastro do pincel. Em italiano uma expressão dita sprezzatura se refere a esse estilo: um trabalho que parece ter feito ao acaso, um descuido estudado. Fazer algo parecer fácil escondendo os esforços utilizados na sua execução.
Rembrandt é um mestre que merece uma atenção especial, sua obra é rica em significados e leituras. Desvendar seus segredos é um caminho cheio de surpresas e aprendizado.




Uma mulher se banhando em um córrego (A Woman Bathing in a Stream). o/s/t 1654. The National Gallery, London.
Perdida em seus próprios pensamentos uma jovem se banha num córrego levantando o vestido. Ela aparenta estar sozinha...poderia talvez ser a heroína bíblica Susana que é espiada pelos dois libidinosos anciões, como conta a história bíblica. Tal como eles, nos encontramos como voyeurs à espreita da imagem absorta, sensual e delicada da jovem Susana.



"When it comes to the great themes of human existence, there is still no one above Rembrandt." Mark Hudson, The Telegraph



*Rembrandt  van  Rijn   15 Julho 1606 – 14 Outubro 1669 (site em inglês sobre a    vida e obra de Rembrandt
*RIJKSMUSEM - mais obras de Rembrandt





Jovem mulher dormindo. cerca de 1654.




Friday, 15 May 2015

SUZANNE JONGMANS e seus retratos vulneráveis








O Dutch Golden Age foi um período abundante e prospero na história da Holanda. Econômico, científico, comercial, cultural e sobretudo artístico. Muitos dos grandes mestres da arte holandesa viveram nesse período. Assim sendo, é muito natural para os artistas holandeses que toda essa importante bagagem histórica influencie seus trabalhos de alguma forma. E que bom que seja assim, afinal ter nascido no mesmo país que esses mestres e poder conviver de perto com sua arte é algo que faria bem para qualquer artista.
Assim acontece com Suzanne Jongmans. Seu trabalho olha para o passado e ao mesmo tempo constroe uma ponte com o presente. Suas fotografias de retratos são elaboradas com cuidado e delicadeza, recriando e ressignificando a arte dos séculos 16 e 17.
Mestres como Vermeer, Holbein, Clouet e a própria Golden Age são referencias assumidas pela própria Suzanne, com presença marcante no seu trabalho. Luz e sombra, tons sóbrios e densos, as vestimentas elegantes com sua característica simplicidade e frugalidade holandesa. A relação com a própria história da fotografia que naquele tempo lançou as bases do que viria a ser atualmente. - especula-se que artistas como Vermeer e Jan Van Eyck usaram um aparato chamado de câmera escura a qual refletia detalhadamente cenas e pessoas arranjadas pelo artista e as projetava na tela, onde então eram pintadas.
A matéria prima física usada nas vestimentas dos retratados constitui o corpo fundamental da sua obra. É daí que a artista tira a vitalidade e a energia que fazem sua obra ganhar sentido. Os materiais usados são um tanto incomum. É nesse ponto que sua arte revela algo que ao mesmo tempo esta oculto nas imagens. Um jogo de Trompe-l'oeil, o que o olho vê não é o que parece. Assim que o olhar se aproxima a surpresa acontece e fica evidente o material usado por ela. Papel espuma, plástico e  materiais usados para embalar coisas que seriam descartados após o uso ganham novo sentido nas mãos da artista. Estruturas construidas com o esmero e a técnica de quem domina a arte do fazer. Um background resgatado da infância aonde ela assistia a mãe e a avo na tessitura das roupas da família.
O consumismo e descarte fácil do mundo moderno em contrapartida com os símbolos de uma arte em que os valores são quase perenes. As questões levantadas pelo trabalho da artista falam de impermanência, temporalidade, vulnerabilidade.
A essência nas imagens de Suzanne dialogam constantemente entre os valores de um passado remoto e as urgências  do mundo moderno.


 *Suzanne Jongmans (website)


















Thursday, 13 November 2014

NATUREZA MORTA e seus segredos escondidos



     Still Life with Golden Goblet. 
     Pieter de Ring. 1640/1660. 100cm x 85cm. oil paint. Rijksmuseum.
         


STILL LIFE PAINTING ou NATUREZA MORTA

Numa visita a um museu, as Naturezas Mortas passam as vezes despercebidas ou renegadas a um segundo plano, talvez porque mal interpretadas.
Considerada uma arte menor no passado, envolvida em um certo tipo de preconceito no presente. Natureza Morta é um gênero de arte que merece ser descoberto - assim como toda manifestação de arte. Um olhar mais atento e cuidadoso, mas sobretudo uma certa dedicação em tentar entendê-la.

Tipicamente caracterizada pelo arranjo de objetos como flores, frutas, utensílios domésticos, livros, vasos, potes, alguns tipos de animais e insetos, conchas, moluscos, etc.
Esse tipo de pintura está presente desde o mundo antigo. Entres os egípcios, gregos e romanos. Porém com finalidades diferentes. Os Egípcios decoravam as tumbas com pinturas de frutas, pães, peixes e bebidas porque acreditavam que os mortos poderiam precisar dos alimentos em outra vida. Os Gregos e Romanos pintavam cenas murais, mosaicos no chão e potes, tendo como tema a comida. A intenção, entre outras, era demonstrar hospitalidade ou celebrar as estações.
Na Idade Média e através do Renascimento esteve estreitamente associada a religião e usada como alegoria juntamente com outros temas religiosos. Mas nunca como o assunto principal.
Nos séculos 15 e 16 era presença nas pinturas de alguns artistas, como Jan Van Eyck, Holbein e Caravaggio. Porém apenas como coadjuvante e ainda não como o tema principal. 

Ressurgiu como um gênero independente de representação pictórica no século 17, especialmente nos Países Baixos. Esse tipo de pintura até então não tinha um gênero propriamente dito na historia da arte. Isso na verdade foi sendo adquirido com o passar do tempo através do aparecimento daqueles que começaram a analisar e estudar as obras.


Holbein – The Ambassadors, 1533



Caravaggio - Supper at Emmaus,1601




Naquele período o Norte da Europa passava por transformações políticas e religiosas que afetaram todos as aspectos da vida das pessoas – a Reforma Protestante mais especificamente. Esses eventos também tiveram um impacto nos assuntos que os artistas escolhiam para suas obras. A Holanda, que até então não existia como país independente, apesar de dominada pela Espanha Católica, foi um dos poucos países que manteve suas raízes protegidas da influencia religiosa do catolicismo. Quando a Reforma se espalhou pelos Países Baixos a libertação definitiva dos artistas aconteceu. Os temas religiosos, históricos ou mitológicos já não tinham mais tanta importância como antes e agora os artistas se sentiam livres para escolher os temas que bem entendessem para suas pinturas
Assim dentro desse contexto histórico e político os artistas holandeses passaram a ter mais liberdade de escolha.  Impulsionados pelos acontecimentos e em busca de uma identidade que os resgatasse da influencia espanhola, sua arte passa a representar seu próprio território com suas paisagens, seus costumes, a vida cotidiana. Assim a representação das coisas em si mesmas merece uma posição de maior destaque e valor - as Natureza Mortas se adequaram muito bem a esse fim.




 Still Life with Flowers with on a Marble Tabletop. 
 Rachel Ruysch, 1716. o/s/t 48,5cm x 39,5cm. Rijksmuseum.

Inicia-se uma época de grande produção e pesquisa nesse gênero. Os artistas encontraram uma oportunidade de demonstrar suas habilidades e talentos. Esmeravam-se diligentemente na pintura das coisas, suas texturas, luzes e sombras, cores, superfícies e composições, etc.
Além do virtuosismo, cada elemento e objeto dentro da cena de uma pintura de Natureza Morta tem um significado oculto, simboliza algo além da simples aparência. Assim através dos objetos os artistas tinham a intenção de falar de outros assuntos.
A transitoriedade da vida por exemplo, representada pelas frutas (que se decompõe), insetos, a fumaça que se dissipa, o estopim de velas, velas acesas, relógios e ampulhetas.  Caveiras, a certeza da morte; frutas em decomposição, a decadência do corpo físico; instrumentos musicais, os prazeres mundanos e momentâneos, a audição; o espelho, a vaidade, o sentido da visão; as flores, vaidade e a beleza efêmera e também o olfato. Cartas, dados e livros, etc. 



 Banquet Still Life.
Adriaen van Utrecht. 1644 -óleo s/ tela, 185cm x 242,5 cm. Rijksmuseum.




No inicio as obras eram simplesmente categorizadas por assuntos, por exemplo: Flores, Frutas, Café da manhã (ontbijtjes), Banquetes (banketje), Ostentação (pronkstillevens), Vanitas - com um certo teor moral, etc. O termo, como gênero de pintura independente foi usado somente a partir de 1656 para conter todos os assuntos específicos citados acima numa só categoria.

A palavra Natureza Morta é uma adaptação que algumas línguas usam, como o italiano, o francês e o português.  A palavra original deriva do holandês Stilleven (Still Life em Inglês). Que significa objetos inanimados, que não se movem mas que ainda assim remetem a vida: por exemplo as flores e frutas, os insetos, moluscos, peixes, etc. 
O gênero  permaneceu na historia da arte através  do tempo sofrendo modificações em alguns casos ou mantendo-se dentro do modelo clássico. 
Na Modernidade, muitos artistas continuaram a usar o tema das naturezas mortas, porém sob outras perspectivas. 
Cézanne foi um dos grandes artistas a usar esse tema em sua obra. Nesse caso o artista escolhia os objetos apenas como pretexto para sua pintura, sem nenhuma intenção de ocultar significados. Os objetos serviam apenas como exercício através dos quais exercitava suas pesquisas pictóricas. O que importa aqui na verdade é a busca intelectual do artista sobre o uso de todos os elementos que compõe uma pintura: cores, linhas e formas, mas sobretudo a forma, o volume.
Picasso também se valeu dos objetos como um meio de pesquisa pictórica. Sua busca tenta entender o mundo através das coisas, desconstruindo-as e reconstruindo-as novamente sob todas as possibilidades e perspectivas. O mundo estava em plena transformação e fragmentação  e isso se reflete na obra e na busca do artista.
Matisse, Van Gogh, Braque, Dali, Gauguin, Magritte, e tantos outros. 
Na Arte Contemporânea os artistas vão mais longe e os objetos/naturezas mortas são usados como forma de denuncia, critica e todo tipo de questionamento.

Ori Gersht um artista de Israel, fotografa naturezas mortas inspiradas em pinturas do passado. Ele usa câmeras com alta velocidade para capturar o exato momento em que o arranjo floral é estraçalhado. O contraste entra a mansidão  do tradicional arranjo e a explosão da foto remete diretamente aos conflitos em sua terra natal.







O controverso e polêmico artista inglês Damiem Hirst  criou a obra For the Love of God (2007) um crânio humano cravejado com 8.601 diamantes. A obra do artista é permeada pela obsessiva ideia da morte e da vida.





Rebecca Scott, pinta naturezas mortas onde explora através de cenas domesticas, como mesas bem arrumadas, a procura obsessiva por perfeição (e seu consequente fracasso) que nos é vendida através da mídia, das revistas destinadas ao publico feminino.



Suas pinturas de alimentos e grandes proporções, exploram questões psicológicas na medida em que e nos colocam em confronto com nossa própria existência material e da própria pintura.