Saturday, 3 October 2015
FILMES - WINGS OF DESIRE
O filme começa com Damiel escrevendo e recitando os versos iniciais de um poema de Peter Handke: Canção da Infância.
"Quanto mais pensava nisso, mais pensava que estava louco. “Queres fazer um filme com anjos?” Mas a ideia abriu tantas possibilidades de olhar para tantas vidas diferentes, porque estes anjos podiam estar em qualquer lugar. Podiam atravessar a maldita parede. Podiam conhecer qualquer pessoa e ser testemunhas perfeitas da vida na cidade de Berlim. Finalmente tive um ponto de vista abrangente. Não que acreditasse realmente em anjos, mas gostava deles como metáfora".
O filme se passa em preto e branco na visão dos anjos e colorido quando na visão dos humanos. Lento, como se supõe ser a vida eterna dos anjos - para que a pressa, se eles tem toda a eternidade?
Song of Childhood – Peter Handke
Wednesday, 23 September 2015
FILMES 1
Ir ao cinema é um ritual. Você decide pelo filme, cria algumas expectativas, compra os ingressos, passa no balcão e compra uma pipoca e entra na sala procurando pelo seu lugar "quentinho". Por algum tempo esse lugar vai te proporcionar uma viagem, uma aventura, uma descoberta. Por algum tempo você vai viver outras vidas e mergulhar pra dentro das emoções daqueles personagens.
Acomode-se, o filme está prestes a
começar...
Se tem algo que eu curto muito é
assistir a um bom filme. Nossa atividade preferida em família, desde a escolha
do filme aos comentários no final é diversão na certa.
O cinema tem algo mágico (isso é muito clichê eu sei...) tem o poder
de nos transportar para dentro daquele universo tão único e especial que é a
visão de um diretor. O arranjo de todos os elementos que compõem e constituem o
filme: a fotografia, o roteiro, a direção, os personagens, o figurino e tantas
outras coisas formam uma liga que amarra e mantém a trama fazendo-nos viajar ao
longo da história contada.
Por alguns momentos a vida fica em suspenso e
vivemos outras vidas e outras possibilidades. Os personagens vem até nós, nos
convidam a dar um mergulho dentro da sua intimidade, dos seus pensamentos, emoções,
sonhos e dramas. E vivemos aquele turbilhão de emoções, vidas e eventos que se
entrecruzam e se mesclam com a nossa própria vida.
Quanto mais bem construido o
filme, quanto mais rica e intrincada a vida interior dos personagens, mais oportunidades ele nos oferece. O cinema tem a grande capacidade de expandir a nossa
consciência, alargar nossas perspectivas do mundo e até mesmo quebrar nossos
paradigmas. Na verdade toda arte tem a potencialidade de fazer isso. Mas a linguagem do cinema
por ser mais dinâmica e envolver os sentidos, visão e audição, nos arrebata
mais fácil e docilmente, não oferece obstáculos. Somos quase que interceptados,
capturados pra dentro daquele mundo como ou sem a nossa autorização. Ao
contrário de uma tela ou escultura por exemplo, que requer nossa iniciativa e
empenho, nossa participação mais ativa em perscrutar o que está acontecendo
ali. Depende da nossa vontade de ficar ou ir embora.
Um filme bem feito pode ser de qualquer
tipo, comédia, drama ou ação, ficção científica ou thriller. O que importa é o
modo como a historia é tratada, como é elaborada e transformada em um produto
não acabado, aberto ao nosso entendimento, participação e ressignificação.
Quanto mais camadas de interpretação e significado tem um filme melhor ele é -
na minha modesta opinião. Filme bom é aquele que cola em você, mesmo depois que
você vai embora ele fica lá, perambulando pela tua cabeça mesmo que você nem
perceba a sua presença. Algo aconteceu, algo se transformou, dentro da gente...aquele que entrou
nao é mais o mesmo que saiu. Pode ser até uma comédia, daquelas que só se faz rir. E
a sensação no final é de leveza, calma e alegria. E isso também é bom e também
é transformador e redentor. Sim o mundo pode ser um lugar bom de se estar.
Mesmo que momentaneamente, no escurinho do cinema...
Life's a breeze
Genero: comédia
Ano: 2013
Diretor: Lance Daly
País: Irlanda
Pat Shortt and Fionnula Flanagan.
Eva Birthistle, Gerry McCann, Philip
Judge, Lesley Conroy, Peter Coonan, Brian Gleeson, Paul Ronan and Kelly
Thornton, participação especial de Ryan Tubridy e Joe Duffy.
Os filhos decidem fazer uma faxina
na casa da mãe, uma idosa aposentada, sem que ela saiba. Quando ela retorna,
eles animadamente a levam para um tour pela nova casa, onde todo o entulho
guardado durante anos e anos foi jogado fora. Petrificada, a mãe pergunta pelo
colchão...onde supostamente guardava suas economias de muitos anos, um milhão
de euros! Começa então uma corrida maluca em busca do colchão que a esta altura
já está no sistema de reciclagem de lixo da cidade - Dublin. Uma comédia
deliciosa que faz rir e pensar ao mesmo tempo, de um modo leve e suave. Os
dramas da vida sem muito drama. O filme aborda algumas questões importantes da
vida. Os relacionamentos entre filhos e os pais que envelhecem e as implicações
disso na vida cotidiana. O próprio fato irreversível do envelhecimento e suas
consequências, vivido pela personagem Nan (a espetacular Fionnula Flanagan). Destaque
também para atriz Kelly Thornton (a neta de Nan). Na verdade o filme se
sustenta através dessas duas atrizes que se comunicam pelo olhar.
Holanda, o País das águas II - MAESLANTKERING (Maeslant Surge Barrier)
Foto: Beeldbank Rijkswaterstaat
Os
holandeses têm um caráter pragmático, objetivo, prático e disciplinado. Mas a
tenacidade desse povo, seu espírito de união e comprometimento com o todo, o
sentimento do coletivo fica muito mais claro e evidente quando nos deparamos
com algo concreto, tangível aos olhos e ao entendimento.
Não só ao alcance da
visão, mas com uma abrangência muito maior e de vital importância para a
segurança de seu povo. Refiro-me
ao espetacular projeto Delta Works
(Deltawerken). Um ícone da engenharia holandesa e da sua maestria no domínio da tecnologia do controle das águas.
(Deltawerken). Um ícone da engenharia holandesa e da sua maestria no domínio da tecnologia do controle das águas.
Uma série de barragens,
diques, represas, eclusas e comportas que protegem a Holanda da invasão das
águas. Seja do mar, dos afluentes dos rios, de inundações por chuvas ou
qualquer evento que ameace as terras abaixo do nível do mar. Uma
maravilhosa obra de engenharia já chamada pela American Society of Civil
Engineers como uma das Sete maravilhas do Mundo Moderno.
A
maioria das obras situa-se na região sudoeste da Holanda e protegem a área do
delta dos rios Reno, Mosa e Shelde (Rijn-Maas-Scheldedelta). Isso significa
também o enorme porto de Rotterdam, entrada vital para o pleno funcionamento da
economia do país.
O
projeto Deltawerken demorou cerca de 30 anos para ser finalizado.Mapa das obras do Delta Work
A
luta contra as águas é presença constante nos Países Baixos.
Faz parte de seu passado e de sua
história, marcando profundamente a alma desse povo - por isso suas
características tão assertivas.
Faz
parte de seu presente, através do controle absoluto e preciso do nível das
águas.
Com igual importância fará parte de seu futuro com tantos desafios a
serem superados num planeta em que as ações humanas estão afetando drasticamente a natureza.
Olhando
para o passado têm-se uma idéia dos constantes esforços para a proteção das Terras Baixas.
Por volta de 1927/33 quando foi construído o grande dique
Afsluitdijk, no norte, já havia planos para a proteção da costa no sul, das
freqüentes inundações. Devido à II Guerra Mundial e outras questões o plano foi
adiado.
O
fator decisivo para a implementação do projeto foi em 1953 quando houve um
grande acidente climático, grandes inundações onde as marés altas e um furacão
destruíram um dique de proteção no sudoeste do país (onde se encontra o delta
dos rios citados acima, Reno, Escalda e Mosa) causando a morte de milhares de pessoas e
destruindo mais de 160.000 hectares de terra. O fato foi determinante para que
as autoridades revissem o sistema de proteção, empreendendo de vez seu maior
projeto hidráulico de contenção das águas, o DELTAWORK.
Ao
longo do caminho o projeto inicial foi sofrendo alterações e se adaptando as
necessidades de preservação do meio ambiente. O estuário de Oosterschelde
(Eastern Scheldt) era inicialmente para ser bloqueado através de uma barreira e
suas águas salgadas transformadas em água doce. Devido à pressão da opinião
pública (pescadores e ambientalistas) o governo alterou o projeto a assim ao
invés do fechamento total optou-se por uma grande represa que permitiria o
fluxo das águas e seu controle, preservando assim o ecossistema de águas
salgadas. A represa permanece aberta em condições normais e somente quando as
águas atingem três metros acima do nível esperado elas então se fecham
impedindo inundações. Como complemento de proteção velhos diques foram
reforçados, ampliados, outros foram criados e novas rotas de navegação ao porto
de Rotterdam e Antwerpia na Bélgica.
Entre
as obras do Delta Work que mais se destacam está a Maeslantkering, citado
acima. Situada no Niewe Waterweg a principal rota de passagem dos navios rumo
ao porto de Rotterdam.
Foi niciada em 1991 e concluída em 1997.
A grande barreira móvel foi a solução encontrada para proteger o porto
de Rotterdam e toda a área em torno. Cidades e áreas de agricultura e também
permitir a passagem dos navios.
Ao
contrário de uma barreira fixa, a Maeslantkering é composta por dois grandes
portões flutuantes ocos, de estrutura de metal. Os braços da estrutura são
móveis permitindo a abertura e o fechamento do canal. Conectados à base por uma
esfera que funciona como uma articulação móvel no seu eixo de conexão com a
base (a exemplo de uma articulação humana). Assim o movimento dos portões não é
rígido, permitindo sua mobilidade livremente sob influências de ventos e da
força das águas.
Em condições normais,
os portões ficam nas docas laterais em lugar seco e protegido. O funcionamento
se dá quando as docas são preenchidas pela água permitindo aos portões
flutuarem e lentamente se fecharem. Quando os dois braços se encontram os
reservatórios que compõem sua estrutura se enchem de água e lentamente afundam.
Assim se forma uma sólida contenção das águas em caso de ameaça de inundação.
Todo
o sistema para um eventual fechamento dos portões funciona através de um sofware especial de computadores. Esse sistema por sua vez está conectado com
os dados atmosféricos, de oscilação das marés e outros parâmetros. Assim que o
nível das águas atinge a marca de três metros, e todos os parâmetros são
atingidos, o sistema aciona o fechamento da barreira.
*Em
caso de fechamento, o processo todo leva cerca de 90 minutos;
*A
expectativa de acordo com estatísticas é que a Maeslant se feche uma vez a cada
dez anos;
*Embora
seja ativada, uma vez por ano para fins de teste, a barreira só foi fechado uma
vez, em resposta a um aumento nas marés em 2007.
*Quando
fechada a barreira o nível de água do lado do lado do Mar do Norte fica mais
alto exercendo uma enorme pressão sobre a barreira com força suficiente para
derrubar um grande navio;
*A
articulação em forma de bola é a maior do mundo, com um diâmetro de 10 metros e
pesando 680 toneladas;
*Cada
um dos portões tem 22 metros de altura e 240 metros de comprimento;
*Levou
seis anos para construir a barreira;
*Para
informações mais detalhadas e informações sobre a gestão da água na Holanda, as
pessoas podem visitar o centro de informações, que está aberto todos os dias ao
lado da Maeslankering, a entrada é gratuita;
*O
Europoortkering-project custou 660 milhões de euros;
*MAESLANTKEIRNG
(site do museu que fica ao lado da barreira)
*Aqui tem uma rota turistica que passa por todas as obras do Delta Work (em holandes)
*Site sobre o DELTA WORK
*Aqui tem uma rota turistica que passa por todas as obras do Delta Work (em holandes)
*Site sobre o DELTA WORK
*Ha treze Delta Works nas províncias de Zeeland, Noord-Brabant
e Zuid-Holland:
1- Oosterscheldekering
2- Bathse Spuisluis
3- Haringvlietsluizen
4- Brouwersdam
5- Hollandsche IJsselkering
6- Grevelingendam
7- Oesterdam
8- Maeslantkering
9- Philipsdam and Krammersluizen
10- Volkeraksluizen
11- Veerse Gatdam
12- Zandkreekdam
13- Hartelkering
A história conta...
Por
ser uma baía de grande extensão o Zuiderzee estava exposto as freqüentes
tempestades do mar do Norte que forçavam a água para dentro da baía inundando
vilas. Idéias a fim de proteger a região já existiam no século 17, mas ainda
impraticáveis devido a falta de tecnologia para isso. No entanto somente no
século 19, foi possível desenvolver a técnica que implementaria o projeto.
O
responsável por isso foi o engenheiro civil holandês Cornelis Lely que em 1891
propôs as bases para a construção de uma barragem (um grande dique) para o
fechamento do Zuiderzee, transformando-o em um lago. As águas não tão profundas
do Zuiderzee (em torno de 4 metros de profundidade) facilitariam a execução do
projeto apesar de toda a precariedade na época. Além disso, o projeto também
incluía a construção de quatro polderes no lago (que após a conclusão do
projeto se chamou Ijselmeer). Os polderes serviriam como terras cultiváveis
para a agricultura. Mais tarde se dividiram em apenas dois.
Mas
a idéia de Lely ainda não teria espaço para se concretizar. Em 1913 quando se
tornou ministro dos Transportes e Obras Públicas o engenheiro conseguiu
alavancar seus planos apesar das resistências. Pescadores ao longo do Zuiderzee
estavam preocupados se iriam perder seus meios de subsistência. Outros estavam
preocupados que um projeto como este pode criar maiores níveis de água em
outros lugares ao longo da costa. O governo preocupado com o custo enorme do
projeto.
Em Janeiro de 1916, durante uma tempestade de
inverno vários diques quebraram ao longo do Zuiderzee e o resultado foi
inundações como no passado.
Após este desastre o plano ousado de Lely
ganhou apoio popular e em14 de junho de 1918 a Lei Zuiderzee foi aprovada e o
projeto foi oficialmente iniciado e assim foi criado o AFSLUITDIJK o maior
dique da Holanda com 32 km de estradas sobre ele.
Seus
objetivos eram para proteger a região contra enchentes do Mar do Norte,
aumentar a oferta de alimentos do país, criando polders que poderiam ser
transformados em terras agrícolas e usar o que restou da Zuiderzee para melhorar
a gestão da água.
Oosterscheldekering
Oosterscheldekering
Sunday, 21 June 2015
REMBRANDT e a natureza transcendental da arte
A
arte de Rembrandt é um legado que testemunha a grande capacidade humana de
transcendência, da transformação do infortúnio e da dor em amor. Suas obras do ultimo período exprimem com arrebatamento essa compreensão do mundo. Uma espécie de consolação para o espírito, um alento para os questionamentos da nossa condição humana. O encontro da beleza com o sentido da vida.
Seu valor artístico vai além da estética e da genialidade pictórica, da técnica propriamente dita. Empurrou seus limites além das fronteiras do imediatamente visível e louvável, expandindo os caminhos e significados de sua arte. Sua vida sofreu drásticas mudanças durante as quais ele continuou a criar a despeito das adversidades.
Seu valor artístico vai além da estética e da genialidade pictórica, da técnica propriamente dita. Empurrou seus limites além das fronteiras do imediatamente visível e louvável, expandindo os caminhos e significados de sua arte. Sua vida sofreu drásticas mudanças durante as quais ele continuou a criar a despeito das adversidades.
Retrato de um casal, como Isaac e Rebecca - mais conhecido como "A noiva Judaica". o/s/t 1665-1669. 121,5m x 166,5m. Rijksmusem, Amsterdam.
Um casal é retratado em roupas históricas como os personagens bíblicos Isaac e Rebecca. Nada se sabe de concreto sobre quem seriam esses personagens na vida real. A teoria mais aceita é que seria um casal de contemporâneos eternizados no dia de suas bodas. O que é reforçado por esboços do próprio Rembrandt. Especula-se também sobre a jovem noiva e seu zeloso pai que enlaça um colar de pérolas ao seu pescoço - de onde vem o segundo nome do quadro - A Noiva Judaica - apelidado por um comerciante de artes do século 19.
Rembrandt captou a intensidade e intimidade dos sentimentos entre o casal de modo profundo e terno. Oi dois formam uma única figura conectados pelo sentimento que os une. Delicadeza de gestos e expressões. Aqui Rembrandt expressa toda sua maturidade artística. A luz que jaz sob grossas camadas de tinta na manga do noivo revelam uma técnica que somente anos depois seria retomada por outros artistas. Van Gogh teria dito sobre essa obra: " Eu seria feliz em dar dez anos da minha vida se pudesse continuar aqui sentado em frente dessa pintura por uma quinzena, com apenas um pedaço de pão seco para comer."
Construiu
sua carreira seguindo a formação tradicional dos artistas da época. Frequentou
uma escola onde a ênfase eram os estudos bíblicos e clássicos e a oratória.
Aprendeu o oficio da pintura junto de renomados mestres. Em Leiden sua cidade
natal, com Jacob van Swanenburch e em Amsterdam posteriormente, com Pieter
Lastman. Com o primeiro recebeu as técnicas básicas do oficio e com o segundo
foi treinado como pintor de gênero histórico. Esse tipo de pintura era
considerado o mais sofisticado de todos. Personagens bíblicos, históricos e
mitológicos eram representados em cenas complexas. Trabalhou para eles, de acordo com o sistema das guildas e mais tarde teve seus próprios alunos e seu
próprio atelier.
Entre os principais pintores holandeses foi um dos poucos que
teve reconhecimento e prestigio enquanto ativo. Ganhou dinheiro, fama e status
por algum tempo.
No
inicio pintou muitos retratos e auto retratos, estes últimos foram mais de
oitenta. O uso de seu próprio rosto como assunto pictórico pode ser considerado
apenas por questões praticas ou até mesmo como commodity, já que o tema era bastante popular e vendável na época. Um período na Holanda seiscentista prospero para o mercado da arte. Visto sob a perspectiva do presente, seus auto retratos são um registro de como a visão de si mesmo, reflete a evolução interior de seu estilo.
Logo
vieram as pinturas históricas, bíblicas e mitológicas, temas recorrentes
durante os anos na sua carreira. A gravura foi outra modalidade de arte na qual ele foi um verdadeiro mestre.
Self Portrait , 1959. National Gallery of Art- Washington, D.C.
Rembrandt fez inúmeros auto retratos. Aqui um dos últimos, ele se revela em sua plenitude, tanto como ser humano quanto em sua maturidade como artista. Honestidade, franqueza e dignidade.
Liberdade
de ser e criar
Através
de toda a sua vida o mundo visível foi a fonte imediata de suas inspiração. A impermanência,
os acasos e imperfeições, a matéria bruta que compõe a vida comum e diária. Rembrandt foi uma alma livre. Rejeitou os padrões de beleza e feiura convencionalmente
aceitos na época, escolhendo seguir seu próprio caminho. Sua
obstinação e rebeldia nunca permitiram que fosse governado por quaisquer
convenções que não as que ele mesmo acreditava.
Representou as figuras
e acontecimentos bíblicos de modo laico e modesto. Seus personagens parecem pessoas
comuns, gente do povo ao invés de santos, profetas ou filósofos. São
representados de forma crua, sem maquiagem ou arranjos que pudessem
“emprestar” algum tipo de dignidade,
pompa ou status ao tema/objeto representado. Foi hábil em captar os estados de espírito de seus retratados e através de suas mãos o espectador é capaz de
vislumbrar aspectos além da trivial aparência.
Segundo o historiador Arnold Hauser: “Rembrandt atinge uma fase de
desenvolvimento...diretamente depois do primeiro período como retratista; desse
período em diante, a pintura é para ele uma forma de comunicação pessoal e
direta...que converte em realidade tudo que o olho capta e possui”.
Nos
últimos dezoito anos sua arte sofreu uma radical transformação. A
partir de 1942 sua vida é marcada por crises: incertezas interiores e problemas
exteriores. Entra em crescente colapso financeiro e perde sua esposa Saskia, com a qual teve o filho Tito e outros três natimortos. Reduz drasticamente sua produção e seu
trabalho passa a ser mais experimental, ganha profundidade psicológica e um
caráter mais intimista.
Muitas especulações cercam a vida do artista nesse período, criando um mito que muitos autores contribuíram em manter. Faltam no entanto, registros concretos sobre o que de fato teria provocado mudanças tão drásticas na sua vida privada e profissional.
Bathsheba com a carta de David. o/s/t 1654. 142m x 142m
A Bíblia fala do amor do Rei David por Bathsheba a mulher do guerreiro Uriah. O Rei convida Bathsheba ao seus aposentos através da carta em suas mãos. Ao invés do clássica representação, Rembrandt escolhe nos mostrar a cena de modo diferente. Ele foca no conflito interior de Bathsheba: deve permanecer fiel ao marido ou se submeter aos desejos do Rei?
Gravuras
Rembrandt é considerado um dos maiores gravuristas de todos os tempos.
Sua
importância na arte gráfica compara-se a Durer. Explorou a gravura nas
técnicas
de água forte e ponta seca com uma riqueza de possibilidades e detalhes
deslumbrantes, produzindo obras de rara beleza. Em pequenos formatos
suas
gravuras são como pequenas joias lapidadas. Mínimos detalhes, a
distribuição sutil e delicada da luz e das sombras, os espaços ocupados e
os vazios na composição. Quem já fez gravura consegue compreender
melhor o que isso significa. É uma técnica extremamente precisa, exigente. O artista deve ser rigoroso, perseverante, não só total dedicação e técnica mas sobretudo
talento. Com certeza as gravuras de Rembrandt vão além disso, exprimem
uma gama de efeitos não só técnicos mas de amplo espectro
emocional.
O Sepultamento.
Gravura: água forte e ponta seca; Entre 1952/1956. (21,1cm x 16,2cm)
Cristo esta sendo colocado na tumba enquanto seus entes queridos o rodeiam em espírito de luto. Quase tudo permanece na sombra enquanto o corpo de Cristo é iluminado pela tocha atraindo imediatamente nosso olhar - escondida atrás do homem de costas para nós, As áreas de sombra na cena consistem em fortes e expressivas linhas paralelas dando a tensão necessária ao todo. A escolha do tipo de papel, nesse caso papel Japonês amarelo, reforça o amarelado da tocha de luz. A cena é dramática e triste mas ao mesmo tempo suave e amorosa. Tudo isso em apenas 21,1cm x 16,2cm!
Os trabalhos do período final
O Rijksmuseu apresentou recentemente uma exposição dos trabalhos tardios de Rembrandt, dos últimos dezoito anos de sua carreira. A exposição explorou dez assuntos que "conversam" com o espectador sobre os motivos mais recorrentes na sua carreira. Luz e sombra, os auto retratos, convenções sociais, técnicas experimentais, intimidade, contemplação, conflitos internos e reconciliação.
Mais de cem obras entre pinturas e gravuras. Uma coleção temporária merecedora de toda a honra, entrega, olho e silencio. Ali o mestre se mostra em toda a sua plenitude. O passar do tempo só fez crescer sua arte. Os auto retratos revelam ao mesmo tempo o artista e o ser humano. A passagem impiedosa do tempo nos devolve uma imagem cheia de dignidade e integridade. Os olhos que nos perseguem no espaco da sala de exposição são intensos e puros. Um longo e honesto olhar de quem viveu e trabalhou intensamente. Sabedor de que seu oficio transcende o tempo e a matéria e que um dia nos encontraríamos aqui e agora no futuro.
Rembrandt explora perspectivas inovadoras na posição de seus retratados
revelando-nos seus sentimentos mais íntimos, uma forte característica
desse período. Muitas das figuras são contemplativas, em obras de grande formato:
filósofos, profetas, figuras mitológicas, apóstolos. Há uma comunicação imediata com eles,
através do olhar, de suas expressões faciais, densas ou introspectivas, recolhidas em pensamentos longínquos. Sugerem que algo importante está acontecendo ali, seja no plano do mundo
físico e visível ou no reino dos pensamentos e emoções.
AS CORES.
Cores, luz e sombra. Elementos que o mestre soube como ninguém potencializar, elaborando-as em refinadas misturas. Cores quentes, cheias de energia, afabilidade e ternura. Nos colocam muito próximos do momento em que as coisas acontecem, das emoções dos personagens. Quanta riqueza de nuances nas camadas que se sobrepões
umas as outras formando texturas quase palpáveis aos olhos. Irradiam uma energia que acalma e afaga. Sentimos empatia, um vinculo que nos une e conecta ao universo de Rembrandt.
Talvez esteja aí o porque de nos sentirmos capturados, abduzidos para dentro das telas. As cores nos seduzem, acariciando-nos com seus tons mornos e aveludados, nos levam por enigmáticos caminhos cheios de significados. Nos sentimos tão bem junto dessas imagens, que não temos vontade de partir.
Jacó abençoando os filhos de José. o/s/t 1656. 1,73m x 2,09m.
Gemaldegalerie Alte Meister, Kassel.
Quando Jacó adoeceu, seu filho José trouxe seus filhos para serem abençoados pelo avô. Tradicionalmente a primeira bênção com a mão direita era reservada para o filho mais velho, mas Jacó favoreceu o mais novo. A maioria das ilustrações dessa cena bíblica mostram José muito bravo tentando corrigir seu pai. No entanto aqui, Rembrandt faz sua própria interpretação. Ele escolhe a harmonia ao invés do conflito. José entende a escolha do pai e gentilmente apoia a mão do velho homem.
No seu tempo havia uma convenção em como pintar narrativas históricas, bíblicas e mitológicas. Certas passagens serviriam melhor para ilustrar a mensagem do que outras. Mas ele ousou romper com a tradição escolhendo momentos após um conflito ou tensão onde o personagem reflete sobre seu pesar e se reconcilia com Deus (como em Jacó abençoando os filhos de José, acima).
Joshua Reynolds compara o estilo tardio de Rembrandt com a natureza: "O trabalho (de Rembrandt) produzido de forma "acidental", tem o mesmo livre e desenfreado aspecto que as obras da natureza...". Reynolds se refere as pinceladas livres, soltas, quase que feitas ao acaso. Visto de perto algumas dessas obras parecem ter sido feitas de modo casual. As camadas de tinta, texturas, o rápido e visível rastro do pincel. Em italiano uma expressão dita sprezzatura se refere a esse estilo: um trabalho que parece ter feito ao acaso, um descuido estudado. Fazer algo parecer fácil escondendo os esforços utilizados na sua execução.
Rembrandt é um mestre que merece uma atenção especial, sua obra é rica em significados e leituras. Desvendar seus segredos é um caminho cheio de surpresas e aprendizado.
Uma mulher se banhando em um córrego (A Woman Bathing in a Stream). o/s/t 1654. The National Gallery, London.
Perdida em seus próprios pensamentos uma jovem se banha num córrego levantando o vestido. Ela aparenta estar sozinha...poderia talvez ser a heroína bíblica Susana que é espiada pelos dois libidinosos anciões, como conta a história bíblica. Tal como eles, nos encontramos como voyeurs à espreita da imagem absorta, sensual e delicada da jovem Susana.
"When it comes to the great themes of human existence, there is still no one above Rembrandt." Mark Hudson, The Telegraph
*Rembrandt van Rijn 15 Julho 1606 – 14 Outubro
1669 (site em inglês sobre a vida e obra de Rembrandt
*RIJKSMUSEM - mais obras de Rembrandt
Jovem mulher dormindo. cerca de 1654.
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